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Ainda há limites?

As democracias não sobrevivem apenas porque possuem Constituições ou eleições periódicas. Elas também dependem de limites éticos que orientam a convivência pública

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Maristela Basso
3 minutos de leitura 25.06.2026 14:34 comentários 0
Ainda há limites?
Foto: PL
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À primeira vista, o discurso de Michelle Bolsonaro pareceu apenas um desabafo. Mas talvez tenha sido algo mais profundo.

Em uma época em que a política parece dissolver todas as fronteiras em nome da conveniência, ela procurou reafirmar uma ideia simples: existem limites que não deveriam ser ultrapassados.

Não se trata apenas da recusa em apertar a mão de alguém que, pouco tempo antes, chamara Jair Bolsonaro de "ladrão de gasolina" e sua família de "ratos". O gesto carregava um significado maior. Era a afirmação de que nem toda reconciliação é moralmente exigível e de que nem todo cálculo político justifica o esquecimento das ofensas, da palavra empenhada ou da própria dignidade.

As democracias não sobrevivem apenas porque possuem Constituições, tribunais ou eleições periódicas. Elas também dependem de fronteiras invisíveis: limites éticos que orientam a convivência pública e conferem sentido às instituições.

Esses limites são como as margens de um rio. Não impedem que a água siga seu curso; apenas lhe dão direção. Quando as margens desaparecem, o rio deixa de ser rio e transforma-se em inundação.

Algo semelhante parece ocorrer na política contemporânea.

As margens foram lentamente sendo erodidas.

Convicções cedem lugar às conveniências; adversários tornam-se aliados sem qualquer explicação pública; insultos são esquecidos conforme as necessidades do momento; princípios convertem-se em ativos negociáveis.

A política continua existindo, mas já não encontra facilmente seus próprios contornos.

Vivemos uma época em que a ética política se tornou, em muitos aspectos, pornográfica. Tudo é exposto, tudo é instrumentalizado, tudo pode ser negociado.

Desaparece o pudor, desaparece o constrangimento e, com eles, desaparece também a distinção entre o aceitável e o inaceitável.

É como uma casa cujas paredes mestras foram silenciosamente retiradas. Do lado de fora, ela continua aparentemente intacta. As portas ainda se abrem, as janelas permanecem no lugar e os moradores seguem entrando e saindo normalmente. Mas basta um leve abalo para revelar que sua estrutura já havia sido comprometida muito antes.

O mesmo acontece com a democracia.

 As instituições podem continuar funcionando enquanto sua arquitetura moral se deteriora.

 O verdadeiro colapso começa muito antes do desmoronamento visível: começa quando desaparece a ideia de que existem condutas que simplesmente não deveriam ser praticadas, ainda que fossem politicamente vantajosas.

Talvez seja essa a principal mensagem daquele discurso.

Não a defesa de um líder ou de um grupo político específico, mas a tentativa de lembrar que a política continua precisando de limites. Sem eles, resta apenas a lógica da conveniência.

No fundo, a questão não é quem apertou ou deixou de apertar uma mão.

A pergunta decisiva é outra: o que acontece com uma democracia quando ela deixa de reconhecer que existem fronteiras morais que nem mesmo a vitória política autoriza atravessar?

Talvez a resposta seja desconfortável.

Quando tudo passa a ser permitido, quando toda palavra pode ser esquecida e toda ofensa pode ser relativizada em nome de um objetivo maior, não é apenas a ética que se perde. É a própria confiança na vida pública.

Uma democracia pode sobreviver a muitas crises, mas dificilmente sobrevive quando já não sabe onde terminam as margens do seu próprio rio.

É disso que Michelle Bolsonaro falava: parece que ainda existem juízes em Berlim.

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