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Ouro destrona títulos dos EUA nas reservas mundiais

O que a recente mudança nas reservas mundiais revela sobre diversificação, geopolítica, sanções e o futuro da dominância do dólar

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José Inácio Pilar
4 minutos de leitura 02.06.2026 10:41 comentários 1
Ouro destrona títulos dos EUA nas reservas mundiais
Imagem: IA por José Inácio Pilar
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O ativo que durante décadas serviu como principal abrigo financeiro dos bancos centrais está perdendo espaço para um concorrente muito mais antigo. Pela primeira vez em décadas, o ouro ultrapassou os títulos do governo dos Estados Unidos como principal ativo de reserva das autoridades monetárias do mundo, uma mudança que chama atenção pela escala e pelas razões que a impulsionam.

A análise se apoia em dados divulgados pelo Banco Central Europeu no relatório The International Role of the Euro, de junho de 2026. Segundo o BCE, o ouro representava 27% dos ativos de reserva globais no fim de 2025, superando os títulos do Tesouro dos Estados Unidos (22%) e os ativos denominados em euros (15%).

A mudança ocorreu após uma combinação de compras persistentes pelos bancos centrais e uma forte valorização do metal. O Banco Central Europeu observou que o preço do ouro avançou cerca de 60% em 2025, depois de já ter subido aproximadamente 30% em 2024. Parte da nova liderança do metal decorre dessa valorização.

Além da valorização, muitos bancos centrais passaram a enxergar o ouro como uma forma de diversificar reservas e reduzir a dependência de ativos ligados aos Estados Unidos. Como o metal não representa obrigação de nenhum governo específico e não pode ser congelado da mesma forma que reservas mantidas em moeda estrangeira, sua atratividade aumentou após os episódios de sanções financeiras dos últimos anos.

Muitos países passaram a procurar alternativas ao sistema baseado no dólar. Esse movimento ganhou força após 2022, quando os Estados Unidos e seus aliados bloquearam reservas russas alocadas em dólar depois da invasão da Ucrânia. Segundo o Banco Central Europeu, diversos gestores de reservas passaram a considerar o risco de sanções financeiras ao definir a composição de seus ativos.

O relatório aponta que os bancos centrais mantêm atualmente mais de 36 mil toneladas de ouro. O volume se aproxima do recorde histórico registrado durante a era de Bretton Woods, sistema monetário que vigorou após a Segunda Guerra Mundial e vinculava moedas ao dólar, que, por sua vez, tinha conversibilidade em ouro.

As compras oficiais de ouro permanecem em alta. China, Índia, Polônia e Turquia aparecem entre os maiores compradores dos últimos anos. O Banco Central do Brasil comprou 42,8 toneladas de ouro entre o final de 2025 e o início de 2026, aumentando as reservas brasileiras em 33%. O BCE observa que a demanda oficial pelo metal tem se mantido acima da média histórica desde 2022.

Mas o próprio relatório faz uma ressalva importante. Ao recalcular as reservas usando os preços do ouro observados no fim de 2023, os títulos americanos continuariam à frente, com participação de 26%, enquanto ouro e euro apareceriam empatados em 16%. A atual liderança do ouro se deve, em grande parte, à disparada recente de preços.

O Banco Central Europeu também lembra que o ouro possui limitações. O metal não gera rendimento, apresenta oscilações de preço e exige custos de armazenamento quando mantido fisicamente. Por isso, continua diferente de ativos financeiros amplamente negociados, como os títulos soberanos dos Estados Unidos.

Apesar da perda de participação, o dólar segue dominante no sistema financeiro internacional. Os ativos denominados na moeda americana ainda representam cerca de 42% das reservas globais e mantêm ampla liderança em pagamentos, financiamentos e mercados financeiros.

Um desaparecimento do dólar e dos títulos americanos, portanto, não está no horizonte. O que os números mostram é uma redistribuição gradual das reservas internacionais, em que mais bancos centrais passaram a combinar ativos tradicionais com uma quantidade maior de ouro diante de um cenário marcado por disputas geopolíticas, sanções econômicas e busca por alternativas ao sistema financeiro liderado pelos Estados Unidos.

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José Inácio Pilar

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Comentários (1)

ISABELLE ALÉSSIO

2026-06-02 13:49:50

Gostei da matéria ! 👏🏻🏆💸👀


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