A volta da direita nacional-desenvolvimentista
Ideia de que intervenção estatal é indispensável une Delfim Neto, PT e, agora,, MBL e Flávio Bolsonaro
Semana passada, fiz um post no X sobre o nacional-desenvolvimentismo de direita que gerou certa confusão. Como de costume, não engajei em discussões por lá, mas, dada a relevância do tema, resolvi explicar melhor neste espaço da Crusoé.
Em primeiro lugar, precisamos de uma definição de nacional-desenvolvimentismo. Não é tarefa trivial, afinal existem várias vertentes com diferenças consideráveis entre si que reivindicam esse rótulo.
Vou optar por uma definição ampla: prefiro pecar por excesso de generalidade do que por ser muito restrito.
O nacional-desenvolvimentismo acredita que o desenvolvimento depende crucialmente do fortalecimento de setores econômicos específicos, normalmente a indústria de transformação, e que, para que esses setores se desenvolvam, são necessárias intervenções do Estado nacional.
A questão da intervenção estatal é central.
A ideia é que, na ausência dessa intervenção, as forças de mercado alocarão capital e trabalho em outros setores que podem ser mais lucrativos no curto prazo, mas que, no longo prazo, não geram a dinâmica necessária para o desenvolvimento da nação.
Aqui no Brasil, esse pensamento tem sido associado às forças de esquerda há algumas décadas. Não foi sempre assim.
Delfim Netto, czar da economia no governo Médici, foi um notório defensor do nacional-desenvolvimentismo. De certa forma, é possível afirmar que, até o final dos anos 1970, com exceção de Eugênio Gudin, todos eram desenvolvimentistas.
Com o colapso da economia na década de 1980, o consenso desenvolvimentista começou a ser desfeito.
A industrialização ocorreu, mas o Brasil não se tornou um país rico, longe disso.
No auge da industrialização, vivemos uma década perdida seguida de hiperinflação.
Com a redemocratização, tornou-se impossível defender o modelo econômico que levou ao desastre dos anos 1980.
Já no primeiro governo eleito por voto direto, Fernando Collor, que costuma ser lembrado pelo infame Plano Collor, iniciou o processo de privatizações e de abertura da economia.
A agenda reformista continuou com Itamar Franco e Fernando Henrique. Nesse período, a bandeira da intervenção estatal ficou com o PT, que liderava a oposição a todos esses governos e contava em seus quadros com vários economistas adeptos do nacional-desenvolvimentismo.
Nem a agenda claramente reformista do primeiro governo Lula quebrou o vínculo do PT com o desenvolvimentismo.
No segundo mandato de Lula, o nacional-desenvolvimentismo começa a ganhar mais espaço e chega ao auge no governo Dilma Rousseff.
A defesa que o PT fez de políticas intervencionistas, enquanto opositor dos governos reformistas de Collor e FHC, fortaleceu a associação entre nacional-desenvolvimentismo e esquerda no Brasil.
O governo Dilma, com a Nova Matriz Econômica, selou essa relação.
Essa associação não é exclusividade brasileira, mas também não é um fenômeno universal. Em entrevista ao El País, o economista sul-coreano Ha-Joon Chang, referência internacional no tema, afirmou: “Na Coreia do Sul e no Japão, por exemplo, o tipo de política industrial que defendo é considerada de direita. Já na Inglaterra, onde vivo hoje, é uma política de esquerda”.
No começo da redemocratização, o espaço da direita no espectro político foi ocupado pelo PSDB, um partido cujas principais lideranças se identificavam como de esquerda, é o caso de nomes como Covas, Serra e FHC.
Com o fracasso da Nova Matriz Econômica, as revelações da Operação Lava Jato e a queda do governo Dilma, surgiu no cenário uma direita assumida ou, como alguns da minha geração diriam, uma direita desavergonhada.
Era natural que essa direita, ao se contrapor ao governo Dilma e ao PT, abraçasse as propostas liberais, pelo menos na economia, e a agenda reformista.
Foi assim que Bolsonaro, um político que sempre defendeu o regime militar que era abertamente nacional-desenvolvimentista, convidou Paulo Guedes, economista liberal formado em Chicago, para desenhar uma proposta econômica para o Brasil e liderar a economia no futuro governo.
Ali foi selado o casamento da nova direita com o liberalismo econômico.
O que motivou meu post foi a percepção de que esse casamento está se desfazendo, ou pelo menos sendo desafiado por amantes desenvolvimentistas.
O MBL, movimento que nasceu no enfrentamento ao governo Dilma, flerta abertamente com políticas intervencionistas, um exemplo é a industrialização do Nordeste, sonho de Celso Furtado e de seu Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), que pavimentou o caminho para a criação da Sudene.
No bolsonarismo, o nacional-desenvolvimentismo ganha força com o apoio de influenciadores supostamente ligados a membros da família.
Recentemente, Flávio Bolsonaro, que deve ser o candidato do PL ao Planalto, afirmou que a Petrobras deve ser mantida estatal por ser uma empresa estratégica, um claro contraste com o governo Jair Bolsonaro, que preparava a privatização da empresa.
Essa volta do nacional-desenvolvimentismo de direita não deve ser vista como uma aberração. Talvez seja uma volta natural ou, como brinquei no X, “a volta dos que não foram”.
O nacionalismo é marca de vários movimentos de direita (vide os republicanos com Trump) e costuma andar de braços dados com políticas desenvolvimentistas.
Por outro lado, é possível que ocorra um distanciamento entre a direita liberal e a direita nacional-desenvolvimentista, criando em algum momento uma rachadura nas forças que se uniram para eleger Bolsonaro em 2018.
Isso não é ruim, muito pelo contrário. Quanto melhor definidos os movimentos políticos, mais fáceis ficam as escolhas dos eleitores.
Acompanhando debates entre economistas nas redes sociais, especialmente no X, vejo surgir uma geração de economistas de esquerda, alguns declaradamente petistas, defendendo agendas de reformas liberais no estilo de FHC.
Será que, em um futuro não tão distante, vamos ver alianças entre esquerda e direita liberal enfrentando alianças entre nacionais-desenvolvimentistas de direita e de esquerda?
Não sei dizer, mas qualquer dia escrevo sobre essa possibilidade. Quem sabe, em um romance.
Roberto Ellery é economista
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Comentários (1)
Patrick Fontana Nandi
2026-05-10 08:33:20Otimo texto, qual seria a melhor saída?