Jogo bruto contra a autopreservação das elites
Está em vigor no país um projeto de poder que tem na autoperpetuação seu único objetivo
Uma das promessas dos processos de democratização é promover a conexão entre as pessoas e os grupos dirigentes.
O mecanismo para que isso é, em tese, simples: na medida em que o voto e a opinião pública são os principais elementos para a solução das disputas políticas, que encontra seu pico nas eleições, as elites tendem a se comportar de acordo e aceitar se submeter a algum tipo de controle popular.
Por que, no entanto, tem-se a sensação de que o Brasil vai na direção Brasil oposta?
Funcionários do Judiciário ganham milhões em penduricalhos, ministros de tribunais superiores fazem lobby abertamente para empresas privadas representadas por parentes, Planalto e Congresso não dão a mínima para a regra fiscal, programas com recursos públicos correm sem prestar contas e todos assistem impotentes.
A tendência do cientista social – categoria na qual me incluo – é buscar uma explicação geral na qual todo mundo é culpado.
Coisa do tipo “a confusão entre interesse público e privado começou quando Pedro Álvares Cabral desembarcou por aqui” e assim por diante…
Devo confessar que, no início deste texto, minha intenção era apresentar mais uma dessas teorias de tudo.
A ideia era colocar a culpa na polarização, afirmando que ela criou as bases para uma impunidade inédita para o país.
Na medida em que um lado detém a “virtude”, ele pode tudo.
Nenhum desvio será apontado, nenhuma denúncia será levada a sério porque, antes de tudo, não se pode abrir brecha para que o outro lado volte ao poder.
Não existe verdade. Só existe poder.
Embora a polarização desempenhe, sem dúvidas, um papel decisivo para a instrumentalização das instituições, ela é fruto, não causa.
É muito importante ter isso em vista para não esquecer que resultados políticos não brotam no ar. Por trás de cada um deles há agentes conscientes, decisões e propósitos.
Nesse sentido, virei o texto para procurar a espinha dorsal do nosso estado de coisas e percebi seu nascimento na reação à operação Lava-Jato que, paradoxalmente, se baseou à época na ideia de que o controle havia chegado ao andar de cima.
No paradoxo do paradoxo, no entanto, em um debate sobre a legalidade da operação que precedeu seu desmonte, o ministro do STF Gilmar Mendes disse que havia necessidade de colocar “aquele pessoal” que está com muito poder no seu lugar.
Ele se referia aos juízes de primeira instância.
Houve, portanto, um enquadramento do poder Judiciário a partir de cima.
Da Lava-Jato também surgiu uma percepção difundida em Brasília de que tentar obter proteção “apenas” no Congresso não era suficiente.
Era necessário entrar no Judiciário, movimento que teve como marco simbólico a declaração da inconstitucionalidade, pelo STF, da regra que impedia que juízes trabalhassem em causas representadas por escritórios de seus parentes.
O terceiro passo, indo para o plano material, foi a revisão da Lava-Jato pelo ministro Dias Toffoli, que devolveu recursos de réus confessos, criou a narrativa para sustentar uma “descondenação” geral voltada não para corrigir equívocos, mas para reescrever a história.
Por último, criou-se um instrumento jurídico, também definido por Dias Toffoli e colocado sob responsabilidade de Alexandre de Moraes, para servir como braço de investigação, força e violência institucional, que desaguou em casos extremos de censura, que vitimou a Crusoé em 2019 e tirou a rede social X do Brasil em 2024, além de encarceramentos questionáveis.
No meio do caminho, esse projeto, que pode ser chamado assim porque é composto de iniciativas coordenadas e tarefas divididas entre atores comuns, buscou legitimidade na investigação dos Atos de 8 de Janeiro e apoio partidário ao sair em resgate de um governo congressualmente minoritário.
Não se sabe se a ideia de “evoluir” para uma hegemonia, um regime tutelado, como o ministro Luís Roberto Barroso sugeriu, estava na gênese desse processo, mas ele se tornou um horizonte irresistível e palpável, a ser completado com coragem e ousadia.
Os próximos passos estão traçados e devem mirar o Congresso ao cancelar a impositividade das emendas, reduzindo a base de independência política do Legislativo, e vedar possibilidades de impeachment de ministros do STF, mexendo no quórum de votos necessários e concentrando o poder de iniciativa no Ministério Público Federal.
A hipótese desta análise é de que está em vigor no país um projeto de poder que tem na autoperpetuação seu único objetivo. Como ele não está centrado em seres eleitos, um dos seus efeitos colaterais é o medo e a impotência.
Entre tantas coisas que podem acontecer em 2026, a única que importa é a janela de debate trazida pelas eleições.
Dentro de todo barulho que cercará os candidatos, o teste de maturidade que nos aguarda é a discussão sobre a direção do controle, se vai reafirmar modelo top down (de cima para baixo) descrito ou se vai voltar a fluir da sociedade para seus tomadores de decisão, num jogo que, por tudo que tem a demolir, será bruto, cru e violento.
Leonardo Barreto é cientista político
Instagram: leobarretobsb
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