Acordo sobre matérias-primas com a Ucrânia é bom negócio para Trump?
As negociações entre as duas nações estão em fase avançada, e um acordo pode ser assinado em breve. Contudo, o verdadeiro valor deste pacto é alvo de questionamentos
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estabeleceu como condição para a continuidade da ajuda americana à Ucrânia o acesso a recursos naturais do país.
As negociações entre as duas nações estão em fase avançada, e um acordo pode ser assinado em breve. Contudo, o verdadeiro valor deste pacto é alvo de questionamentos.
Após algumas polêmicas, Estados Unidos e Ucrânia se aproximam de um entendimento significativo.
Em troca de auxílio para a reconstrução e, segundo a perspectiva ucraniana, garantias de segurança por parte dos EUA, Washington pretende se beneficiar das futuras receitas provenientes das riquezas minerais do país devastado pela guerra com a Rússia.
Donald Trump manifestou otimismo ao anunciar que um acordo foi alcançado e que ele está "feliz" com os avanços.
A expectativa é que o pacto seja formalizado ainda nesta semana. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, corroborou a informação ao afirmar que um acordo foi negociado, destacando que este poderia ser um "grande sucesso" e incluir "aspectos positivos".
Garantias de segurança
Para a Ucrânia, a assistência econômica e militar, além de garantias de segurança dos Estados Unidos, são fundamentais.
Entretanto, embora esses elementos sejam apenas vagamente mencionados no acordo, crescem as incertezas sobre a capacidade de Trump em maximizar os benefícios para os EUA. Três pontos são frequentemente citados como razões para essa desconfiança.
1. Informações desatualizadas sobre os recursos disponíveis
A Ucrânia é reconhecida por sua abundância em recursos naturais. Apesar de representar menos de 0,4% da superfície terrestre, dados do Ministério do Meio Ambiente ucraniano indicam que aproximadamente 5% dos minerais considerados "críticos" do mundo estão presentes em seu território.
O país possui 25 dos 34 minerais classificados como críticos pela União Europeia, incluindo grafite, lítio, titânio e urânio — todos essenciais para indústrias como a de baterias e veículos elétricos.
No entanto, especialistas alertam que o real potencial mineral da Ucrânia ainda permanece obscuro. De acordo com informações da S&P Global Commodity Insights (SPGCI), as estimativas dependem de dados coletados durante o período soviético.
Esses registros são não apenas antigos — muitos datam de 1960 a 1980 — mas também incompletos e carecem de centralização e digitalização.
Roman Opimakh, ex-diretor do Serviço Geológico Ucraniano, enfatizou que não há uma avaliação moderna das reservas de terras raras na Ucrânia: "E ainda existem restrições para a divulgação dessas informações."
Portanto, com os dados disponíveis atualmente, é impossível avaliar a viabilidade econômica ou os custos associados à exploração.
2. Alto custo e tempo necessário para a exploração
Mesmo que as estimativas sobre as riquezas minerais sejam confirmadas como precisas, pouco progresso foi feito na exploração desses recursos até o momento.
Antes da invasão russa, menos da metade dos 8 mil locais considerados viáveis para extração havia sido desenvolvida.
Nataliya Katser-Buchkovska, ex-deputada ucraniana, declarou à CNN: "A maioria dos projetos ainda está na fase de exploração, sem grandes instalações de processamento."
A extração de minerais raros é extremamente cara e requer anos de investimento inicial em infraestrutura e capacitação da força de trabalho antes que qualquer produção possa ser iniciada.
O Instituto Geológico Ucraniano (UGS) estima que a abertura das dez maiores minas conhecidas exigiria um investimento de cerca de 15 bilhões de dólares.
Para isso, o país precisaria primeiro remover minas terrestres e explosivos — uma tarefa que especialistas preveem levar mais de uma década.
Enquanto a Ucrânia aguarda ajuda imediata em termos militares e econômicos, os Estados Unidos podem demorar para colher frutos desse acordo — possivelmente com retornos inferiores às expectativas atuais.
3. Acessibilidade limitada às reservas
A fim de desenvolver novos locais minerários, a Ucrânia precisaria recuperar o controle sobre áreas estratégicas atualmente ocupadas pela Rússia.
Como já apontado por Zelensky em outubro passado: "As reservas críticas na Ucrânia são alvos primordiais para os russos neste conflito".
A revista Forbes estima que 70% do valor total dos recursos minerais da Ucrânia está concentrado nas regiões de Dnipropetrovsk, Donetsk e Luhansk — todas elas sendo disputadas ou sob domínio russo.
Por exemplo, duas das maiores reservas conhecidas de terras raras estão localizadas em Donetsk: as jazidas Azovske e Mazurivske; além disso, várias promissoras áreas ricas em lítio também estão sendo exploradas na região.
Corrupção
Outro fator complicador é que a exploração mineral é considerada uma das áreas mais corruptas da economia ucraniana.
Licenças já concedidas para extração têm sido contestadas judicialmente há anos. Para que esses recursos possam se tornar uma verdadeira vantagem para Trump e os EUA, será necessário enfrentar o problema da corrupção — uma tarefa monumental que provavelmente exigirá décadas para ser resolvida.
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