O fim da patente da semaglutida no Brasil promete ampliar o acesso às chamadas “canetas emagrecedoras”, mas especialistas alertam que maior acessibilidade não significa que o medicamento é para qualquer pessoa. A decisão sobre usá-las vai muito além de querer perder peso.
A recomendação oficial vigente no Brasil autoriza o tratamento para pessoas com obesidade, no caso de ter o Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 30, com ou sem outras doenças associadas. O outro caso seria para pessoas que têm o IMC acima de 27 combinado a pelo menos uma comorbidade, como dor articular, depressão, apneia, distúrbios cardiovasculares ou metabólicos.
“Essas são as pessoas que serão mais beneficiadas porque tratarão a obesidade e uma outra doença. É como acertar dois alvos de uma vez”, explica o endocrinologista Roberto Zagury, membro do Departamento de Diabetes, Exercício e Esporte da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).
Quem deve ficar longe das canetas
O endocrinologista Marcio Mancini, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Regional São Paulo, diz que quem está dentro do peso, sem sobrepeso leve ou não apresenta nenhuma comorbidade deve evitar o uso das canetas.
O médico diz que esses grupos nunca foram estudados nos ensaios clínicos das canetas e os efeitos nesse perfil de paciente são desconhecidos, destacando que pode haver efeitos colaterais nocivos ao paciente.
“Parte significativa das pessoas que usam ou querem usar essas drogas é movida apenas pela estética. Isso pode lhes custar mais caro do que o preço da caneta”, alerta Mancini.
A endocrinologista Priscila Sousa também reforça que a pressão social pelo emagrecimento leva muita gente a buscar as canetas sem indicação clínica. “Muita gente quer voltar a ter o corpo dos 30, mesmo estando com 60 e ainda dentro de um peso aceitável. As canetas parecem a solução, mas essas drogas não foram desenvolvidas nem estudadas para isso”, diz.
João Salles, presidente da SBD, vai ainda além e alerta especialmente para o uso em clínicas sem o acompanhamento adequado. “São drogas para tratar uma doença, distúrbios metabólicos. Não são meros procedimentos estéticos. Isso sem falar nos manipulados e aplicações em clínicas. Isso é muito perigoso, receita para problema de saúde.”
IMC como critério
Um dos debates atuais na área é o fato do IMC ser o único critério e as possíveis limitações dessa forma de avaliação. Segundo alguns especialistas, o índice não mede onde a gordura está concentrada, e isso muda tudo na avaliação do risco. Pessoas musculosas podem ter IMC elevado sem qualquer problema de saúde, enquanto indivíduos com peso considerado normal, mas com barriga proeminente, podem apresentar risco alto de doenças metabólicas.
João Marcello, clínico geral e professor de hepatologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que a circunferência da cintura é um dos elementos usados para avaliar a elegibilidade ao tratamento. Homens com mais de 94 cm de cintura já entram na faixa de risco moderado. Acima de 102 cm, o risco é considerado muito aumentado. Para mulheres, os limites são 80 cm e 88 cm, respectivamente.
O que os médicos recomendam fazer antes de começar
Antes de iniciar qualquer tratamento com semaglutida (Ozempic) ou tirzepatida (Mounjaro), uma avaliação médica completa é obrigatória. Os exames variam de acordo com o perfil de cada paciente, mas alguns são padrão: hemograma, glicemia em jejum, hemoglobina glicada, função renal, função hepática, lipidograma, eletrólitos, função tireoidiana, além de amilase e lipase para avaliação de risco de pancreatite. Ultrassonografia abdominal e da tireoide também pode ser solicitada.





