Maurício da Cruz chegou à China pela primeira vez aos 11 anos, quando o pai foi transferido pelo trabalho para Pequim, a capital chinesa. De lá para cá, o Brasil ficou para trás. Em 2012, ele fez as malas de vez e oficialmente trocou a terra do futebol pela superpotência asiática.
Hoje, aos 37 anos, Maurício mora em uma das chamadas “favelas” chinesas, no centro histórico de Pequim, e paga o equivalente a R$ 30 por mês de aluguel por uma casa de 28 metros quadrados. E esse é um dos motivos do “ex-brasileiro” estar viralizando nas redes, não só por documentar seu dia a dia na China, mas pela sua casa.
O segredo da “Mini casa”
Apelidado de “cativeiro” pelos seguidores de Maurício, o imóvel onde ele vive faz parte de um sistema que remonta às décadas finais do século 20 na China. As chamadas “unidades de trabalho”, conhecidas como danwei, eram estruturas que organizavam não só o emprego, mas também aspectos básicos da vida urbana, incluindo moradia.
Empresas estatais e órgãos públicos distribuíam apartamentos a seus funcionários como benefício, com aluguéis muito abaixo do preço de mercado. O acesso estava vinculado ao vínculo empregatício e, ao longo do tempo, acabou sendo mantido dentro das famílias.
A mãe da esposa de Maurício trabalhou em uma empresa estatal durante os anos 1990 e adquiriu o direito de morar no imóvel. Esse direito passou para o casal, que hoje paga o valor simbólico que tornou a história do brasileiro conhecida nas redes sociais.
Como era o bairro antes?
O local onde Maurício vive fica em uma área que antes era ocupada por famílias ricas de Pequim. As casas tinham pátios internos, os chamados siheyuan, onde uma única família controlava vários cômodos ao redor de um espaço central.
Após a tomada de poder pelo Partido Comunista, essas propriedades foram confiscadas ou redistribuídas. Com o tempo, os pátios foram subdivididos para acomodar mais moradores, muitos ligados às empresas estatais. Adaptações informais também surgiram para compensar a falta de espaço e infraestrutura.
“Minha casinha antes não tinha banheiro até fazerem uma construção meio irregular, que é comum nesse tipo de área”, conta Maurício. Segundo ele, quem conseguiu ampliar o imóvel ganhou algum conforto, mas ainda há vizinhos que vivem em espaços de 10 a 15 metros quadrados, sem banheiro próprio.
Menos privacidade e mais segurança
Para Maurício, a maior diferença em relação à vida no Brasil é a limitação de espaço e privacidade. Ao sair de casa, ele já se depara com a porta da vizinha. Ainda assim, ele diz que vive tranquilo.
Mauricio também diz que a segurança do bairro chama a atenção. “O que a gente compra na internet fica na porta, e mesmo assim ninguém mexe”, conta. Ele observa que ainda existem grades nas janelas, resquício de uma época em que a China era menos segura, mas afirma que hoje esse detalhe parece fora de contexto.
Por dentro, o imóvel passou por reforma e tem ar-condicionado, acabamento moderno e tudo o que o casal precisa. No entanto, o visual por fora segue sem manutenção: paredes revestidas de isopor e uma aparência que mostra o desgaste do tempo e a história do local.
Do desemprego às redes sociais: conheça a rota de Maurício
Maurício perdeu o emprego de tradutor de jogos eletrônicos com o avanço da inteligência artificial. Foi a partir daí que ele passou a investir na produção de conteúdo sobre a vida na China. Em um mês, ganhou 300 mil seguidores no Instagram. Depois de resolver um problema técnico no Facebook, acumulou mais 120 mil em pouco tempo.
Hoje, ele soma mais de 1 milhão de seguidores nas diferentes plataformas. A monetização começou a girar um valor que já ajuda a manter o custo de vida.
O próximo passo é transformar toda essa audiência em um negócio mais sólido. Maurício abriu uma empresa no Brasil durante uma visita recente e planeja lançar uma agência de turismo chamada China Sem Fim, com o objetivo de trazer grupos de brasileiros para conhecer o país.
“Sabe quando você viaja e fica maravilhado com tudo? Eu sinto isso até hoje. Como se a minha viagem nunca tivesse acabado”, diz.




