Pesquisadores brasileiros desenvolveram um sistema capaz de identificar surtos de doenças antes que os casos graves comecem a lotar hospitais.
O AESOP, sigla em inglês para Sistema de Alerta Precoce para Surtos com Potencial Epi-Pandêmico, cruza dados de atendimentos nas unidades básicas de saúde do SUS com informações de vendas de medicamentos sem receita em farmácias. O objetivo é ganhar vantagem sobre a chegada de uma epidemia.
O projeto é coordenado pelo pesquisador Manoel Barral-Netto, da Fiocruz Bahia, em parceria com o COPPE/UFRJ.
O Ministério da Saúde e a Fundação Rockefeller apoiam a iniciativa. A plataforma está sendo desenvolvida para ser incorporada ao sistema de vigilância epidemiológica do governo federal.

Como o sistema detecta um surto
O AESOP trabalha com vigilância sindrômica: em vez de esperar pela confirmação laboratorial de uma doença, monitora padrões de sintomas em diferentes bases de dados ao mesmo tempo.
Um aumento repentino na procura por descongestionantes nasais ou antitérmicos nas farmácias, por exemplo, pode indicar o início de um surto respiratório dias antes de os casos aparecerem nas internações.
A principal fonte de dados vem do SISAB, sistema que registra os atendimentos nas unidades básicas de saúde. Os dados de farmácias são fornecidos pela IQVIA, empresa especializada em informações do setor de saúde. O sistema também monitora redes sociais e notícias para captar rumores sobre sintomas em circulação.
Quando detecta um padrão anormal numa região, o AESOP emite alertas para orientar equipes de vigilância na coleta de amostras clínicas. As amostras vão para sequenciamento genético, permitindo identificar o agente infeccioso com rapidez, inclusive se for um patógeno desconhecido.
A lição da pandemia
Quase 700 mil mortes pelo covid foram registradas no Brasil, e parte desse número está ligada à demora na identificação e resposta ao surto inicial. A lógica do AESOP é inverter essa dinâmica: detectar o problema quando ainda está pequeno, antes que o sistema de saúde perca o controle.
Estudos do Cidacs apontam que os dados da atenção primária conseguem captar sinais de surtos respiratórios antes mesmo que eles apareçam nas estatísticas de internação. Essa janela de antecipação é o que torna o sistema relevante para o planejamento das autoridades de saúde.
O AESOP começou voltado para síndromes respiratórias agudas e deve ser expandido progressivamente para outras doenças com potencial epidêmico, como arboviroses e síndromes diarreicas.




