O Departamento de Justiça dos Estados Unidos planeja abrir ao menos 250 processos para revogar a cidadania de americanos naturalizados até 30 de setembro, fim do ano fiscal do país.
Um funcionário do órgão confirmou o plano à CNN nesta semana, e a Casa Branca não comentou publicamente o número.
A meta nasce de um memorando interno assinado em junho de 2025 pelo subprocurador-geral Brett Shumate, que orienta os advogados da Divisão Cível do Departamento de Justiça a perseguir o máximo possível de ações de desnaturalização permitidas por lei.
O documento lista dez categorias de prioridade: pessoas ligadas a terrorismo, espionagem ou exportação ilegal de tecnologia sensível, autores de crimes de guerra ou violações de direitos humanos, integrantes de organizações criminosas transnacionais e responsáveis por fraudes contra programas de saúde pública.
Como funciona o processo
A desnaturalização pode seguir dois caminhos bem diferentes: o criminal exige condenação por obter cidadania de forma ilegal, prevista na lei federal, nesse caso, a perda da cidadania é consequência automática da sentença.
Já a via civil, priorizada pelo memorando de 2025, dispensa júri, não garante advogado pago pelo governo e não tem prazo de prescrição: o processo pode mirar uma naturalização concedida décadas atrás.
Para revogar a cidadania pela via civil, o governo só precisa provar, por evidências claras e convincentes, que a naturalização foi obtida de forma ilegal ou por meio de informação falsa relevante.
A volta de um mecanismo
Essa ferramenta de desnaturalização foi usada com frequência durante o macarthismo, nos anos 1950, contra supostos comunistas, e voltou a crescer no primeiro mandato de Trump, quando o Departamento de Justiça criou, em 2020, uma seção dedicada exclusivamente a esses casos.
A seção foi desfeita durante o governo Biden e, até agora, não foi formalmente recriada, embora o memorando de 2025 amplie o alcance dos casos considerados prioritários.
Levantamento do Transactional Records Access Clearinghouse, da Universidade de Syracuse, mostra que o ritmo de abertura de processos já mudou: somente nos dois primeiros meses de 2026, o Departamento de Justiça protocolou 29 novos casos, contra uma média histórica de 11 ações por ano entre 1990 e 2017.
Quem pode ser afetado
A medida atinge apenas pessoas nascidas fora dos Estados Unidos que depois se naturalizaram americanas, hoje cerca de 24 milhões de pessoas no país.
Quem nasceu em solo americano não pode perder a cidadania por esse mecanismo. Se a ação civil for bem-sucedida, a pessoa volta ao status migratório anterior à naturalização, normalmente o de residente permanente, e pode enfrentar deportação para o país de origem.




