O chefe do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da África (Africa CDC), Jean Kaseya, emitiu nesta semana um alerta afirmando que o atual surto de Ebola na República Democrática do Congo (RDC) tem o potencial de se tornar o pior de todos os tempos, superando a epidemia da doença que afetou a África Ocidental em 2014.
De acordo com Kaseya, com mais de 800 casos confirmados e pelo menos 192 mortes registradas até o momento, a crise já é a maior já documentada envolvendo a cepa Bundibugyo do ebola.
Ainda segundo o alerta, a principal preocupação das autoridades está no fato de que essa cepa está se propagando com mais velocidade que a Zaire, cepa mais conhecida do ebola, e também com a ausência total de vacinas ou tratamentos específicos para esta variante do vírus.
“Se não interrompermos o surto muito em breve, ele será pior do que o que tivemos na África Ocidental e no leste da RDC”, declarou Kaseya durante uma reunião virtual de chefes de Estado africanos no Burundi.
Corrida contra o tempo
Diferente dos surtos anteriores na região, causados predominantemente pela cepa Zaire, para a qual existem vacinas eficazes e terapias com anticorpos monoclonais, a cepa Bundibugyo deixa as equipes de saúde de mãos vazias no quesito prevenção farmacêutica.
De acordo com o Africa CDC, os principais problemas enfrentados atualmente são:
- Ausência de contramedidas: Não há vacinas licenciadas nem tratamentos antivirais aprovados para a cepa Bundibugyo. A resposta depende inteiramente de medidas clássicas de saúde pública, como isolamento, rastreamento de contatos e enterros seguros.
- Sintomas e letalidade: O vírus provoca febre alta, fraqueza severa, vômitos, dores abdominais e hemorragias. A taxa de letalidade da cepa Bundibugyo varia entre 25% e 50%, embora dados iniciais deste surto mostrem flutuações devido à subnotificação.
- Falha no rastreamento: Kaseya revelou que apenas 12% dos contatos dos casos confirmados estão sendo monitorados atualmente, muito abaixo dos 90% necessários para quebrar a cadeia de transmissão.
Conflitos armados pioram a situação
Vale reforçar também que a RDC passa por um momento marcado por conflitos armados, deslocamento populacional e sistemas de saúde frágeis nas províncias de Ituri, Kivu do Norte e Kivu do Sul. Todos esses casos acabam agravando ainda mais o combate das entidades internacionais e nacionais da saúde contra a doença.
A violência na região impede o acesso de equipes médicas a várias zonas de saúde. Além disso, agentes relatam que desinformação e superstições vêm alimentando um sentimento de desconfiança da comunidade afetada pelo surto, o que tem levado a ataques verbais e físicos contra trabalhadores humanitários, incluindo equipes da Cruz Vermelha.




