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Edição Semana 382

Os bastidores maquiavélicos da política

O Brasil de hoje repete, em escala nacional, o manual descrito em Florença no século 16: medo, imagem, inimigos escolhidos, conveniência e manipulação popular

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Wilson Pedroso
4 minutos de leitura 29.08.2025 03:30 comentários 4
Os bastidores maquiavélicos da política
Nicolau Maquiavel. Inteligência artificial Whisk
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Há mais de quinhentos anos, Nicolau Maquiavel escreveu O Príncipe para explicar como o poder se conquista e, sobretudo, como se mantém.

Muito além de um manual de governantes, a obra tornou-se um retrato atemporal dos bastidores da política.

Quem a lê com atenção percebe que pouca coisa mudou. O jogo é o mesmo, apenas com novos personagens e cenários.

No Brasil de hoje, vivemos um enredo que Maquiavel reconheceria de imediato.

Governos tentam controlar narrativas, opositores exploram fragilidades e a sociedade, em muitos momentos, é reduzida à condição de massa de manobra diante de estratégias cuidadosamente calculadas.

Um dos ensinamentos mais célebres do pensador florentino é a ideia de que governar pelo medo costuma ser mais eficaz do que governar apenas pelo amor.

O medo mobiliza, disciplina e garante autoridade. Esse recurso é visível na política contemporânea: ameaças de caos econômico, de inimigos externos ou da volta de antigos adversários ao poder funcionam como instrumentos para manter bases unidas e silenciar críticas.

Maquiavel também advertia que parecer virtuoso pode ser mais importante do que efetivamente ser. A política atual comprova isso.

Discursos ensaiados, gestos públicos coreografados e postagens planejadas nas redes sociais constroem uma imagem de moralidade e eficiência, que raramente corresponde à prática.

O político que domina a comunicação larga na frente, ainda que a realidade nos bastidores seja outra.

Outro princípio essencial é a necessidade de inimigos. Nenhum governante se sustenta sem eles.

Criar, identificar ou demonizar adversários sempre foi um expediente clássico.

Hoje, as narrativas políticas se apoiam em antagonismos permanentes: de um lado, o “inimigo da pátria”; de outro, o “salvador da nação”.

A lógica é simples: dividir para governar. Enquanto a população se perde em brigas, o poder se concentra.

Maquiavel ainda afirmava que o governante não deveria se prender à moral, mas sim à conveniência do momento.

A virtude política, para ele, não estava na bondade, mas na capacidade de agir conforme as circunstâncias exigissem.

Isso explica a formação de alianças improváveis, a transformação de inimigos históricos em parceiros ocasionais e a quebra constante de promessas. O que conta, no fim, é a sobrevivência.

Outro ensinamento importante é que nenhum poder se sustenta apenas na elite: é preciso conquistar o povo, ainda que por meio de ilusões.

Programas sociais, narrativas emocionais e a exploração da esperança ou da indignação popular tornam-se ferramentas para garantir legitimidade, mesmo quando a gestão falha em resultados concretos.

O ponto mais incômodo é constatar que esse jogo só funciona porque grande parte da sociedade prefere não enxergar.

É mais confortável acreditar em salvadores da pátria do que encarar a realidade nua e crua: a política é disputa de poder, não conto de fadas.

E, como já alertava Maquiavel, a disposição do povo para acreditar em ilusões é a arma mais valiosa de qualquer governante.

Maquiavel não escrevia para agradar, mas para advertir. Mostrou que quem desconhece os mecanismos do poder acaba sendo manipulado por eles.

O Brasil de hoje repete, em escala nacional, o manual descrito em Florença no século 16: medo, imagem, inimigos escolhidos, conveniência e manipulação popular.

Abrir os olhos significa reconhecer esse padrão e não se deixar levar por discursos prontos.

A política não se move por gestos de bondade, mas por estratégias frias de poder. Só quem entende isso consegue se proteger, cobrar mudanças reais e participar de forma consciente.

O resto é ser peça no tabuleiro dos outros.

Wilson Pedroso é consultor eleitoral, analista político e sócio da Real Time Big Data

X: @wilsinhopedroso

Instagram: @wilsinhopedroso

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista

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Wilson Pedroso

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Comentários (4)

Sandra

2025-09-12 13:33:40

O texto pode ser bom, mas de que adianta todo o povo entender se quando chega as eleições nós apresentam um Lula e um Bolsonaro como opções. Nem vale contar com Ciro ou Tabet porque seriam mais do mesmo.


Sandra

2025-09-03 14:55:14

A montagem da foto com Maquiavel, Brasília e O Antagonista está ótima!


Alessandro Pereira

2025-08-31 09:27:14

Texto claro e lúcido.


Marcelo Tolaine Paffetti

2025-08-29 11:03:04

Eqto a gente briga, Brasila se deleita...


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Comentários (4)

Sandra

2025-09-12 13:33:40

O texto pode ser bom, mas de que adianta todo o povo entender se quando chega as eleições nós apresentam um Lula e um Bolsonaro como opções. Nem vale contar com Ciro ou Tabet porque seriam mais do mesmo.


Sandra

2025-09-03 14:55:14

A montagem da foto com Maquiavel, Brasília e O Antagonista está ótima!


Alessandro Pereira

2025-08-31 09:27:14

Texto claro e lúcido.


Marcelo Tolaine Paffetti

2025-08-29 11:03:04

Eqto a gente briga, Brasila se deleita...



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