TelamCerca de 50 mil números de celulares foram atacados ou invadidos por meio do software Pegasus

Espionagem no atacado

Com software de empresa israelense, governos invadem celulares de milhares de cidadãos, incluindo governantes, políticos, jornalistas e defensores dos direitos humanos. Saiba como o Brasil tentou entrar nessa
23.07.21

Arroubos autoritários têm sido uma ameaça constante nas mais altas esferas brasileiras. Há dois meses, o Ministério da Justiça e Segurança Pública esteve perto de comprar o software Pegasus, desenvolvido pela empresa israelense NSO Group. Vendido com a promessa de “prevenir e investigar crimes e terrorismo, para salvar milhares de vidas”, o programa está atualmente no centro do escândalo internacional que revelou seu uso por 60 agências de inteligência, policiais e militares de 40 países. Essas organizações estão sendo acusadas de atacar e invadir o celular de 50 mil pessoas, incluindo chefes de estado, de governo, jornalistas, empresários, advogados, defensores de direitos humanos e adolescentes. Foi por muito pouco que o Brasil não entrou na lista de clientes.

O alarme soou em maio, quando O Antagonista revelou que o Ministério da Justiça lançara um edital para a compra de um software que deveria atender “às necessidades operacionais da Diretoria de Inteligência da Secretaria de Operações Integradas (Seopi)”. O pregão eletrônico, com custo estimado em 25,4 milhões de reais e marcado para o dia 19 daquele mês, buscava uma solução para “pesquisar dados em redes de relacionamentos, aplicativos de chat, deepweb”.

O risco era o de que o software que estava prestes a ser adquirido fosse usado justamente para monitorar cidadãos brasileiros por razões políticas e ideológicas, violando o direito à privacidade. Várias das licenças ficariam a cargo da Seopi ,que chegou a produzir dossiês com nomes, endereços nas redes sociais e fotografias de 579 servidores federais e estaduais e três professores, identificados como membros do “movimento antifascista”. No edital, a Agência Brasileira de Inteligência, Abin, estranhamente não aparecia como beneficiária das licenças.

Dos diversos softwares aptos a participar do edital, o governo parecia ter preferência por um deles, o Pegasus. Em maio deste ano, soube-se que o vereador Carlos Bolsonaro, filho 02 do presidente da República, teria participado das negociações para que o NSO Group estivesse no pregão. O Pegasus, como revelou Crusoé nesta semana, também pode ter sido tema de reuniões feitas em Israel com a presença do ex-chanceler Ernesto Araújo e do assessor para assuntos internacionais da Presidência, Filipe Martins – isso será investigado pela CPI da Covid. Em encontro com o ex-primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, Ernesto Araújo chegou a ser cobrado por um investimento de 100 milhões de dólares do Brasil no setor cibernético.

Dida Sampaio/Estadão ConteúdoDida Sampaio/Estadão ConteúdoCarlos Bolsonaro teria tentado incluir o NSO Group, que criou o Pegasus, em pregão
Pode-se até dizer que o interesse que Carlos Bolsonaro, Ernesto Araújo e Filipe Martins tinham no Pegasus pertence ao terreno da especulação, mas o monitoramento de centenas de servidores pela Diretoria de Inteligência da Secretaria de Operações Integradas da pasta da Justiça também é um mau sinal. Pela legislação brasileira, só se pode quebrar o sigilo de alguém com autorização judicial. A questão é que o software Pegasus, de uso militar, é capaz de ler mensagens, e-mails, capturar fotos, gravar conversas e saber a localização do usuário sem que seja preciso qualquer interação do seu dono e sem deixar pistas.O problema do Pegasus é que ele não é auditável. Ou seja, é uma ferramenta de guerra, usada para obter informações dos inimigos. Ele não serve em um sistema democrático como ferramenta de investigação, seja da polícia, da Justiça ou do Ministério Público”, diz o senador Alessandro Vieira, do Cidadania.

No final de maio, Vieira entrou com uma ação popular na Justiça pedindo a suspensão do edital. A ação alertava para o perigo de o software ser usado por uma “Abin paralela”, controlada pelo presidente da República. A repercussão fez com que a empresa que representava o NSO Group no Brasil desistisse de participar do pregão.

Outros países não tiveram a mesma sorte. Desde que foi criado em 2010, o NSO Group tem ajudado a popularizar o uso de programas para vigilância e espionagem. Para que um governo possa comprar o Pegasus, é necessária uma autorização do Ministério de Defesa de Israel. É o mesmo procedimento usado para a venda de armas de guerra. Depois que a entrega é feita, o NSO ou o governo de Israel não têm mais controle sobre como o programa é usado.

Munidos do Pegasus, governos usaram a ferramenta livremente, para vigiar qualquer um. O Ministério Público do México, o primeiro cliente importante do NSO Group, adquiriu o programa com a justificativa de combater os cartéis de droga, mas entre 2016 e 2017 monitorou os celulares de pessoas próximas ao então opositor Andrés Manuel López Obrador, que é o atual presidente do país, três de seus filhos, sua esposa, diversos de seus irmãos, seu motorista, seu diretor de campanha e até seu cardiologista. Da lista de 50 mil alvos do Pegasus, obtida pela ONG francesa Forbidden Stories e pela Anistia Internacional, cerca de 15 mil estão no México. As duas organizações compartilharam o material com 17 grandes jornais do mundo, entre eles o Washington Post, o The Guardian e o Le Monde.

ReproduçãoReproduçãoO mexicano Obrador, que teve o cardiologista monitorado
O emir de Dubai, Mohammed Al Maktoum, é suspeito de ter usado o Pegasus para localizar e capturar sua filha, a princesa Latifa, que em 2018 tentou fugir de seu pai em um iate. Também se especula que a Arábia Saudita usou o programa para vigiar as mulheres e o filho do jornalista Jamal Khashoggi, que foi esquartejado no consulado saudita em Istambul, em 2018. Os aparelhos foram invadidos antes e depois do assassinato. Na Hungria, do primeiro-ministro Viktor Orbán, o Pegasus tentou invadir ou penetrou em 300 números de telefone, incluindo o de jornalistas, advogados, empresários e defensores de direitos humanos.  “Muitos países não querem confiar em uma empresa estrangeira para suas atividades de inteligência, dada a sensibilidade das informações que buscam obter”, diz Carlos Affonso Souza, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade, ITS, no Rio de Janeiro. “Mas usar um software de terceiros pode não ser um grande empecilho para países que não têm tanta capacidade. É nessa categoria que estão os clientes do Pegasus.”

No mundo da espionagem, é praxe buscar informações de líderes políticos, mesmo de países aliados. A partir das informações divulgadas por Edward Snowden em 2013, de que a Agência Nacional de Segurança americana, a NSA, vigiava pessoas no mundo todo usando ferramentas cibernéticas, descobriu-se que os americanos monitoravam a chanceler alemã Angela Merkel e a presidente brasileira Dilma Rousseff. No atual escândalo envolvendo o Pegasus, soube-se que um serviço de segurança do Marrocos incluiu na lista de alvos o celular do presidente da França, Emmanuel Macron. Marrocos e França são duas nações amigas.

O que torna o surgimento de um mercado global de espionagem cibernética mais preocupante é que, ao olhar a lista de usuários, constata-se que os mais beneficiados por essa ferramenta são regimes autoritários. Ao permitir a vigilância dos celulares dos próprios cidadãos, o Pegasus barateou o custo para se instalar ou se manter uma ditadura. Países que estão se tornando mais autoritários, como a Hungria, passaram a ter bem menos problemas para localizar e reprimir seus críticos e opositores, diz Alexandre Pires, professor de economia e relações internacionais do Ibmec, em São Paulo. O Brasil não ingressou nesse grupo.  Ao menos é o que se sabe, por ora.

Já é assinante?

Continue sua leitura!

E aproveite o melhor do jornalismo investigativo.

O maior e mais influente site de política do Brasil. Venha para o Jornalismo independente!

Assine a Crusoé

CONFIRA O QUE VOCÊ GANHA

  • 1 ano de acesso à CRUSOÉ com a Edição da Semana: reportagens investigativas aprofundadas, publicadas às sextas-feiras, e Diário, com atualizações de segunda a domingo
  • 1 ano de acesso a O ANTAGONISTA+: a eletrizante cobertura política 24 horas por dia do site MAIS conteúdos exclusivos e SEM PUBLICIDADE
  • A Coluna Exclusiva de Sergio Moro
  • Podcasts e Artigos Exclusivos de Diogo Mainardi, Mario Sabino, Claudio Dantas, Ruy Goiaba, Carlos Fernando Lima e equipe
  • Newsletters Exclusivas

Os comentários não representam a opinião do site. A responsabilidade é do autor da mensagem. Em respeito a todos os leitores, não são publicados comentários que contenham palavras ou conteúdos ofensivos.

500
  1. Excelente matéria. Um software desse é uma ferramenta excelente pra promover opressão anti democrática fácil e acessível pra qualquer tiranete. Difícil encontrar equilíbrio entre tecnologia e privacidade.

  2. A verdade é: smartphones são muito úteis, muito práticos, mas liquidaram com nossa privacidade. Se não for o tal Pegasus, será outro sistema. O que o governo fez já é, em si, um escândalo muito maior do que outros escândalos já grandes. Mais um em dezenas motivos para impeachment desse traste. O Brasil parece ser um eterno escândalo!

  3. Por não ser auditável o Pégasus é ferramenta de Guerra. O voto eletrônico não é auditável. Logo, O VOTO ELETRÔNICO É FERRAMENTA DE GUERRA. Ah, Antas...

    1. Jansen, errado está você. Nossa urna-e NÃO É AUDITÁVEL. Todos os registros que emite, se houve ERRO (bug) ou fraude, seriam nada mais que o resultado do erro ou da fraude. É por isso que nenhum país do mundo usa urnas eletrônicas sem trilhas físicas, exceto Butão e Bangladesh. A maioria das democracias nem usa urnas-e, pela dificuldade de auditar. Na esmagadora maioria dos condados dos EUA, há uso de trilhas físicas. Informe-se mais.

    2. Premissa errada, conclusão errada. A urna eletrônica permite recontagem de votos e é auditável.

  4. Silogismo básico: POR NÃO SER AUDITÁVEL, O PÉGASUS É FERRAMENTA DE GUERRA. O VOTO ELETRÔNICO NÃO É AUDITÁVEL. LOGO, O VOTO ELETRÔNICO Ê FERRAMENTS DE GUERRA. Ah, Antas...

    1. O fato de não ter papel não torna o voto não auditável. Várias coisas na nossa vida não tem papel e você confia. Parece avalie se vc apenas está repetindo algo que ouviu ou se realmente está pensando. As urnas são regularmente auditadas por qq entidade que queira. Inclusive partidos. Depois lacradas e não estao ligadas a qq rede. Após as eleições, o resultado de cada urna e impresso e colado na entrada de cada secção só então enviada Tidos os partidos acompanham

  5. Aqui no Brasil ele é desnecessário. Nossos hackers invadem livremente os celulares de qualquer autoridade, não são punidos, e o que é pior: tem suas transcrições que podem ser adulteradas aceitas pelo STF como provas.PQP.

  6. Em questões como esta, que percebemos a importância de ter um SENADOR comprometido com a VERDADE, bem como com a nossa LIBERDADE. Parabéns senador Alessandro Vieira.

  7. FAMÍLIA BOLSONARO = os EXEMPLOS EXECRÁVEIS que uma SOCIEDADE tão CORRUPTA é capaz de produzir! São DEGENERADOS MORAIS que IMPEDEM o BRASIL de AVANÇAR! Em 2022 SÉRGIO MORO “PRESIDENTE LAVA JATO PURO SANGUE!” Triunfaremos! Sir Claiton

  8. Eu acho que vcs estão esquecendo que a ABIN, como tudo o mais que faz, provavelmente pode adquirir esse software sem licitação e de forma secreta, como certamente ocorreu com outros serviços de inteligência mundo afora.

Mais notícias
Assine 7 dias grátis
TOPO