Arquivo pessoal"Milhares de integrantes do EI foram mortos. Era esse o objetivo das duas alianças formadas para combatê-los"

O mapa do terror

O cientista político israelense Ely Karmon diz que, apesar dos recentes ataques na Europa, classificados por ele como “primitivos”, ações de inteligência frustraram a montagem de células terroristas. A preocupação maior é com países da África, além de Iraque e Venezuela
04.12.20

O cientista político israelense Ely Karmon é um dos maiores especialistas em terrorismo do mundo. É pesquisador no Instituto Internacional de Contraterrorismo em Herzlyia, cidade israelense do distrito de Tel Aviv, ministra aulas sobre terrorismo e guerrilha na principal universidade local, foi conselheiro do Ministério de Defesa de seu país e participou dos preparativos de segurança para as Olimpíadas de Atenas, em 2004, e de Pequim, em 2008.

Em entrevista a Crusoé pelo telefone, Karmon afirmou que as medidas tomadas pelos governos nos últimos dois anos reduziram o raio de ação dos grupos terroristas, como o Estado Islâmico e a Al Qaeda. Na Europa e na América do Sul, segundo ele, diversas tentativas de montar uma infraestrutura para realização de ataques foram frustradas graças a bem-sucedidas ações de inteligência. O especialista se diz preocupado, no entanto, com o aumento das atividades terroristas na África. Karmon também pede atenção a Trinidad e Tobago, de onde saíram muitos extremistas para lutar no Oriente Médio, e permanece de olho na aliança estratégica entre a Venezuela e o Irã. “Sabemos que algumas autoridades do governo de Caracas deram passaportes e talvez tenham permitido atividades terroristas dentro do território venezuelano”, disse.

Sobre a sucessão nos EUA, o israelense acredita que o democrata Joe Biden, após tomar posse em janeiro, pode tentar um novo acordo nuclear com o Irã, mas, em sua avaliação, a tentativa sofrerá resistências. Ele entende que as sanções econômicas e as medidas tomadas contra a Guarda Revolucionária do Irã pelo governo de Donald Trump serão mais difíceis de serem removidas. “Israel, países do Golfo e o Egito pressionarão os americanos nesse ponto para impedir que acabem assumindo uma posição de fraqueza”, prevê Karmon.

França, Áustria e Suíça registraram atentados nas últimas semanas. Há uma nova onda terrorista?
As ações que foram noticiadas recentemente são muito primitivas. As que ocorreram na França foram realizadas com facas ou machados. Isso acontece porque seus autores não conseguem ter acesso a armas ou bombas. Não há células com quatro ou seis terroristas, como havia antigamente. É por isso que os líderes da Al Qaeda e do Estado Islâmico, quando falam para os seus apoiadores, dizem que atentados com armas simples podem ser suficientes. Felizmente, os governos nacionais e suas agências de segurança estão muito vigilantes e têm tomado várias medidas.

Após a decapitação do professor Samuel Paty por um refugiado checheno, o presidente Emmanuel Macron disse que a França deveria continuar defendendo a liberdade e o secularismo. Foi a reação correta?
O governo francês foi obrigado a tomar medidas duras contra os radicais em defesa dos valores históricos seculares do regime republicano. Decidiu expulsar 230 terroristas presos, que têm dupla nacionalidade. O país tem a maior comunidade muçulmana da Europa e quase 2 mil jihadistas de origem francesa lutaram na Síria e no Iraque. Foi o maior contingente europeu. A reação de Macron, além de necessária, também tem um cunho eleitoral. O presidente precisa levar em consideração a crescente influência do eleitorado de extrema-direita antes das eleições presidenciais de 2022.

ReproduçãoReprodução“Muitas mulheres se tornaram guerreiras e poderiam cometer atentados”
A pandemia teve algum impacto no terrorismo?
As medidas de restrição de circulação reduziram a possibilidade de atentados. Mas o golpe mais relevante contra os terroristas ocorreu há dois anos, com a derrota do Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Milhares de seus integrantes foram mortos. E era exatamente esse o objetivo das duas alianças que foram formadas para combatê-los: aquela liderada pelos Estados Unidos e a comandada pela Rússia. Os terroristas que não perderam suas vidas foram presos. Hoje, centenas estão vivendo em campos na Síria, na região do Curdistão, onde os americanos ainda estão presentes. Ao mesmo tempo, a maioria dos países europeus fechou as portas para impedir o retorno de quase 6 mil terroristas que viajaram para treinar e cometer crimes no Oriente Médio. Esse bloqueio também barrou as mulheres. Muitas delas não são perigosas e viajaram apenas para se casar com jihadistas. Mas muitas mulheres se tornaram terroristas e poderiam cometer atentados, como o que aconteceu na quarta-feira, 25, em Lugano, na Suíça.

Existe algum lugar do mundo em que o terrorismo esteja aumentando perigosamente?
Há duas frentes na África. Uma delas está ligada à Al Qaeda e outra, ao Estado Islâmico. Os dois competem por influência no continente. Na Argélia, na Líbia e na Tunísia, temos a velha guarda da Al Qaeda do Magreb islâmico. Também temos visto a Al Shabab, que é ligada à Al Qaeda, defender territórios na Somália. Outra frente, a do Estado Islâmico, age na África Central. Eles estão em Burkina Faso, Camarões e República do Congo. São grupos novos, que têm avançado muito nos últimos anos. Em Moçambique, os terroristas derrotaram até mesmo mercenários russos. Os estrangeiros foram mortos e decapitados. Os que escaparam tiveram de sair do país. A África precisa urgentemente da ajuda de outros países.

O sr. não mencionou a América Latina ao citar as regiões em que o terrorismo tem crescido. Qual é a chance de novos ataques, como os que o Hezbollah executou na Argentina em 1992 e 1994?
A única ameaça séria do terrorismo sunita é em Trinidad e Tobago, perto da costa da Venezuela. Há uma comunidade muçulmana lá e mais de duzentas pessoas foram lutar na Síria e no Iraque. Eles foram treinados por grupos terroristas e mais da metade voltou para Trinidad e Tobago. Na América do Sul, o problema maior é o Hezbollah, que é muçulmano xiita. Diversos países, como Argentina, Paraguai e Honduras já o classificaram como organização terrorista. O Brasil não fez isso ainda, mas está discutindo a questão. Operações contraterroristas têm sido bem-sucedidas. No Peru, o Hezbollah tentou uma operação terrorista em 2014, mas o homem enviado para a missão foi detido e condenado em um tribunal. Em março de 2017, as forças de segurança bolivianas frustraram uma conspiração de agentes do Hezbollah nos subúrbios de La Paz, descobrindo duas toneladas e meia de explosivos e um veículo que seria usado como carro-bomba. Desse modo, eles frustraram planos de ataque na Bolívia, no Chile e no Peru. Em julho deste ano, Assad Ahmad Barakat, que era o operador do Hezbollah na Tríplice Fronteira, foi extraditado pela segunda vez do Brasil para o Paraguai, onde está sendo julgado.

A ditadura de Nicolás Maduro, na Venezuela, tem ajudado o Hezbollah na América Latina?
Há uma aliança estratégica entre o regime de Maduro e o governo do Irã. É uma relação construída no mais alto nível hierárquico. Por causa desse pacto, os iranianos estão mandando gasolina para a Venezuela. Mas os Estados Unidos já ameaçaram interromper o fluxo de navios. Sabemos que algumas autoridades do governo de Caracas, como o ministro do Petróleo, Tarek el Aissami, deram passaportes e talvez tenham permitido atividades terroristas dentro do território venezuelano. Este é o ponto mais perigoso, pois o Hezbollah quer ter uma base para lançar ataques em outros países.

Arquivo pessoalArquivo pessoal“Não acho que o governo argentino vá permitir o Hezbollah novamente”
Cristina Kirchner, atual vice-presidente da Argentina, já foi acusada de obstruir a Justiça para ocultar a autoria do Hezbollah nos dois atentados em Buenos Aires. Desde que ela e Alberto Fernández tomaram posse, há um ano, alguma coisa mudou?
O Hezbollah foi considerado organização terrorista pelo governo anterior, de Mauricio Macri. Desde então, juízes argentinos têm impedido o fluxo de dinheiro para o grupo e tentam congelar seus ativos financeiros. É importante lembrar que Alberto Fernández visitou Israel no começo do ano. Então, parece que as relações diplomáticas entre Israel e a Argentina melhoraram. Não acho que o governo argentino vá permitir o funcionamento do Hezbollah novamente. Mas a embaixada iraniana na Argentina continua muito ativa. Para que um atentado ocorra, basta que uma decisão seja tomada pelos líderes do Irã.

O Brasil tem feito a sua parte para conter o Hezbollah?
No momento, não temos visto uma infraestrutura bem montada para cometer ataques. O que existem são ações criminosas. Em 2014, a Polícia Federal concluiu que o Hezbollah fez acordos com o Primeiro Comando da Capital, o PCC. Eles têm um interesse comum, que é o contrabando. A preocupação maior é com a Tríplice Fronteira. A comunidade libanesa xiita de Ciudad del Este, no Paraguai, e de Puerto Iguazu, na Argentina, mantêm redes de contato com o Hezbollah. Também há casos de empresários que são obrigados a mandar dinheiro para o grupo porque são extorquidos. Era assim também com outras organizações terroristas do passado. Na Irlanda, o IRA controlava as vendas de álcool, os cabarés e os bares. No País Basco, na Espanha, o ETA dominava as atividades criminosas.

O que pode acontecer se o governo de Donald Trump retirar soldados do Afeganistão?
Uma possibilidade é a de que o Talibã assuma o controle do país e lute contra as forças do Estado Islâmico em algumas regiões. Eles competem entre si. Há algum tempo, o Estado Islâmico recrutou membros do Talibã que estavam descontentes com suas lideranças. Minha opinião pessoal é a de que o Talibã, que é mais forte, vai tentar destruir o Estado Islâmico.

Fala-se que Joe Biden, após tomar posse, voltará a negociar um acordo nuclear entre as potências mundiais e o Irã, retirando sanções econômicas. Isso poderia ter impacto no terrorismo?
Essa é a grande questão. Israel e os países do Golfo e o Egito estão muito preocupados com o retorno dos Estados Unidos ao acordo nuclear. Alguns dos assessores nomeados por Biden participaram das negociações em 2015 com os iranianos. Está muito claro hoje que o problema com o Irã inclui mísseis de longo alcance, o financiamento de atividades terroristas e atos subversivos na Síria, no Iraque e no Iêmen. Mesmo que o novo governo americano queria fazer um novo pacto com o Irã, será preciso apertar os aiatolás sobre os mísseis de longo alcance e as atividades terroristas. Israel, países do Golfo e o Egito pressionarão os americanos nesse ponto, para impedir que acabem numa posição de fraqueza. Não dá muito para prever no que essas conversas vão dar.

O cientista responsável pelo projeto nuclear do Irã, Mohsen Fakhrizadeh, foi morto na sexta, 27, perto de Teerã. Ações como essa podem retardar a produção da bomba atômica iraniana?
Não acho que elas possam deter o projeto iraniano, mas podem fazer com que o desenvolvimento do seu aspecto militar leve mais tempo sim. Afinal, era essa a especialização e o objetivo desse cientista. Sua morte também pode ajudar a dissuadir outros cientistas que trabalham para o mesmo projeto. Foi uma operação muito mais ousada que a do assassinato de Osama Bin Laden, pelos americanos, no Paquistão. Ali, os soldados americanos agiram de noite e perderam um helicóptero. Nesse caso recente no Irã, tudo aconteceu em plena luz do dia, em um país que é um terrível inimigo para quem perpetrou a ação. Acho que essas circunstâncias tiveram um efeito desmoralizante para as forças de segurança e defesa iranianas e para os comandantes responsáveis pela segurança de Fakhrizadeh. Todos eles provavelmente pagarão um preço alto. Em relação ao momento em que o assassinato aconteceu, acho que o objetivo foi aproveitar as últimas semanas de Donald Trump no poder.

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  1. A extrema-esquerda brasileira é muito simpática a esses grupos terroristas. Certas "autoridades constituídas" também. Para não falar nas facções criminosas.

  2. Olhem.. será que o governo brasileiro mantém qqer vigilância e controle sobre grupos terroristas prontos para agir em nossoterritório? Eu mesmo respondo: NÃO! A tríplice fronteira Brasil x Paraguai X Argentina é "coalhada" de militantes terroristas árabes, iranianos, muçulmanos de Trinidad-Tobago, disfarçados de refugiados. Isto não é mais segredo pras forças de segurança brasileiras. apscosta/df

  3. Excelente artigo precisamos ser melhor informados sobre os desafios do terrorismo BOLSONAROmais uma fez acerta ao estreitar nossos laços com a outra grande potência tecnológica e democrática do mundo; ISRAEL

  4. Vamos falar de Brasil. Um enorme perigo para nós será se a extrema esquerda chegar no poder, com PT, PCdoB, PSOL, etc. Essa cambada não pensará duas vezes para se aliar a esses terroristas em nova tentativa de se manter no poder. Não nós esqueçamos que o nine fings quando presidente, recebeu com honras o presidente iraniano em nosso país.

    1. Petralhista = Bozista. Os dois grupos são ameaças sérias à sociedade brasileira!

    2. Ué.. qual o problema em dizer "nove dedos".. que historia é essa de "nine fingers".. eu hemm? apscosta/df

    3. Você quis dizer “ 9 fingers “ em referência ao merdinha do Lula?

  5. Excelente entrevista! Acredito que no caso do nosso país, temos de abrir nossa mentalidade e perceber que o terrorismo aqui já é vigente há bastante tempo. Quando observamos bandos com armas de guerra enfrentando a polícia nos morros cariocas, se trata de terrorismo. O mesmo vale para assaltos a bancos onde os criminosos fazem barreiras humanas e atacam quarteis da polícia! Ou seja, cada país com os seu problemas, mas o nosso está embaixo do nosso nariz há décadas e não combatemos!

    1. Aqui a bagunça é enorme, não há “inteligência terrorista” que resista.

  6. Imagina o cenário destes terroristas chegarem a Brasília e destruírem tudo? Vai ser só alegria, pode vir pessoal o Brasil agradece.

  7. Muito boa entrevista!! Isso nos dá a dimensão da realidade que nos cerca!! Que a inteligência brasileira que até agora só sabe brincar através da ABIN se prepare para o que vem pela frente!!!

  8. A idiotice impera nas terras tupiniquim, o desconhecimento da história pelo brasileiro faz desconhecer o presente, graças as Forças Armadas fiéis a constituição, não somos uma Venezuela, mas a bandidagem ganha força com a garantia do STF, acho que os milhares de bandidos, recentemente posto em liberdade estão causando terror em várias cidades do Brasil com ataque aos bancos, a grande ironia é que um dos ministros responsáveis pela soltura, já apelidou do novo cangaço é urgente abdet

  9. No Brasil o maior grupo terrorista são os Bozistas. Eles distribuem fake news sobre a pandemia para confundir as pessoas e, com isso, aumentar o estrago social e econômico causado pela doença. Já mataram mais de 180 mil pessoas agindo assim. Nenhum outro grupo terrorista no mundo teve tanto sucesso em suas ações. Infelizmente, no Brasil, os terroristas estão no poder!

    1. Ouvi bozistas zurrando aqui. Como zurram os bozistas. Desde quando falar a verdade é destilar ódio? Somente na cabeça doente e psicopata dos bozistas.

    2. Que babaca, esse é terrorista! O Brasil não precisa desse tipo de gente, não consegue ver um palma na frente do nariz, acorda PTralha.

    3. Zé...Zé.... continuas dizendo besteiras e destilando ódio... vai mijar pra dormir, guri

    4. Andre — Você não precisa exagerar. O Bozo não criou o vírus porque a única coisa que ele criou na vida foi a rachadinha. O que ele fez foi propagar o vírus tal como o Trump fez. Os resultados estão aí. Estados Unidos e Brasil são os países onde mais morreram pessoas. O Trump até que se conteve por causa das eleições, mas no Brasil cada morte tem as digitais do Bozo. Isso você não pode negar!

    5. Certíssimo os bozistas criaram o vírus, soltaram na China para incriminar o país. Na Europa também mataram centenas de milhares, nas américas todas matam centenas de milhares. Mas não morre ninguém na Coreia do Norte, Cuba, Venezuela., Irã e demais comunas. Na Argentina ainda bem que mudou o governo e os progressistas voltaram ao poder, proporcionalmente à população a mortalidade lá é maior do que aqui, deve ser culpa do Bozo também. As Torres gêmeas foi o bozo Atentados na França.. Bozo

  10. Ora, porque não deixam ou incentivam Estado Islâmico combater o Talibã ? Iriam se matar entre eles, e e o mundo se livraria de uma montanha de terroristas.

  11. Excelente análise global do terrorismo. Devemos estar atentos a esses grupos que destroem os valores humanos, culturais e religiosos das sociedades organizadas sob a égide de poderes corrompidos. O flagelo, a miséria e a desolação da condição de vida e liberdade são o resultado de suas ações.

    1. quem matou o cientista nuclear Iraniano, foram eles mesmos para jogar a culpa em Israel e USA

  12. Bah. Que entrevista. A melhor que já li de vocês. Eu achei. E sem enrolações. O entrevistado é franco direto e implacável. É luz nas sombras. Eu intuo o que Moro visualizou quando foi para o Ministério de Justiça.

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