O que os sírios pensam do novo governo
Levantamento inédito da The Economist revelou otimismo, apesar das divisões sectárias e desafios econômicos

A revista britânica The Economist realizou uma pesquisa inédita sobre o sentimento dos sírios em relação aos quatro primeiros meses do novo governo, liderado por Ahmed al-Sharaa.
Apesar da divisão sectária histórica no país, 81% dos entrevistados aprovam as medidas adotadas.
O passado de Sharaa como líder do grupo terrorista Hay'at Tahrir al-Sham (HTS), que derrubou a ditadura de Assad, é considerado negativo para 22%.
O levantamento ouviu 1.500 sírios de todas as províncias e grupos sectários.
Liberdade
Segundo a reportagem, o simples fato do levantamento ter sido realizado é um sinal positivo para o país.
"Que a pesquisa pudesse ser conduzida é um bom sinal em uma região onde os autocratas árabes normalmente proíbem pesquisas de opinião independentes", diz trecho da reportagem.
A maior aprovação do novo governo é vista na província de Idlib, antigo reduto do HTS, onde 99 a cada 100 sírios expressaram otimismo.
Em Tartus, onde houve um massacre dos grupos alauítas do qual Assad fazia parte, o nome de Sharaa é rejeitado por 23%.
Economia
Por décadas sob o jugo de Assad, os sírios tinham medo de responder às pesquisas de opinião.
Mais da metade dos entrevistados afirmam que o cenário econômico estagnou ou piorou com o novo governo.
Desde que assumiu o posto máximo da Síria, Al-Sharaa tem tentado derrubar as sanções impostas à Síria.
Além disso, o novo governo busca unificar o país e reestruturar os postos de trabalho.
"Suas decisões de reavaliar tarifas sobre importações e permitir a troca irrestrita do dólar geram apoio. Mas a maioria dos salários do governo não foi paga desde que ele assumiu o poder. O dinheiro está escasso", escreve a revista.
Estrangeiros
A maioria dos sírios rejeita a política de Sharaa de incorporar combatentes, entre os quais os curdos, em seu novo exército.
Para 60% dos entrevistados, eles deveriam ser deportados.
"Há pouco consenso sobre como processar crimes cometidos sob o antigo regime", afirma The Economist.
Sectarismo
O levantamento levou em consideração as diferenças étnicas e religiosas presentes na Síria.
Os pesquisadores ouviram separadamente os curdos, drusos, cristãos, sunitas, xiitas e alauítas.
Apenas 6% dos sunitas são pessimistas quanto ao futuro, enquanto 40% dos alauítas expressam pessimismo sobre os próximos anos.
As comunidades curdas, drusas e cristãs se sentem mais pobres, menos livres e menos seguras do que os árabes sunitas.
Lei islâmica
A pesquisa apontou que mais de 90% dos sunitas apoiam a restauração total ou parcial da lei islâmica, a sharia.
Entre as mulheres, somente 39% são a favor da lei islâmica, enquanto 40% se dizem contra.
Apenas 7% desejam um sistema legal totalmente secular, que significa a separação entre as leis e a religião.
Entre drusos e cristãos, 86% defendem um sistema secular.
Para 73% dos curdos, a secularização legal seria o melhor caminho.
Relação com Israel
A maioria dos sírios não deseja ver o país em confronto com Israel, cujas Forças de Defesa já tomaram centenas de quilômetros quadrados das Colinas de Golã.
Dois terços são a favor da diplomacia com o país vizinho, enquanto apenas 10% são favoráveis a uma luta armada.
Nos últimos dias, o exército israelense destruiu arsenais militares deixados pelo regime de Assad.
O governo de Netanyahu não quer deixar o armamento nas mãos das novas forças interinas.
Além disso, enviou um sinal para a Turquia, principal financiador da insurgência contra o regime deposto, que não deixará ter mais influência.
Leia mais: "Forças curdas e governo sírio assinam acordo de integração "civil e "militar"
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