Lula adota chavismo-janonista na comunicação
Petista fará transmissões semanais para falar direto com o povo, no estilo do programa "Alô, Presidente" do venezuelano
O presidente Lula (foto) adotou uma nova forma de comunicação para falar diretamente com o povo, sem intermediários.
Em uma live com o deputado federal André Janones na noite da quinta, 5, o petista afirmou que fará transmissões semanais pela internet.
É o mesmo modelo que vigorou com o ditador venezuelano Hugo Chávez, que apresentava o programa dominical Alô, Presidente, transmitido ao vivo por rádio e televisão.
"Minha relação com as redes digitais vai mudar. Eu aprendi a importância dela num curto espaço de tempo. Eu sei o que representou, nas eleições, no segundo turno, e eu vou utilizar mais a rede digital para conversar com esse povo. Eu não vou esperar um novo governo, não. Eu vou começar ontem a trabalhar isso. Eu não vou permitir mais que a imprensa interprete o que eu falar. Eu vou começar a falar diretamente para que o povo não precise de ninguém para interpretar o que eu tô pensando", afirmou Lula.
No seu discurso após a vitória no segundo turno, em 25 de outubro, Lula já tinha dito uma frase parecida: "Não vou permitir que o jornalista seja interpretado com má-fé. Não vou. Eu vou dizer o que eu penso, o que eu faço".
Ao falar diretamente ao povo e se colocar como o seu único representante legítimo, Lula cumpre o manual do líder populista.
Na live com Janones, aliás, o presidente afirmou: "Todas as políticas públicas que nós fomos capazes de fazer, nada veio da minha cabeça. Não vim do movimento social. Eu sou muito ligado ao movimento de comunidade de saúde, de curto de vidas. Sou ligado ao movimento sem teto, aos sem terra, aos quilombolas, sabe? Eu então tudo que a gente coloca em prática do ponto de vista de política pública é reivindicação do povo. É o povo que coloca".
Difícil acreditar que a promessa de canetas emagracedoras no SUS tenha saído do MST ou coisa parecida.
Na live, Lula revelou uma visão perigosa da política.
O populista que se acredita empoderado pelo povo não aceita críticas, interpretações de jornalistas, ideias contrárias. Ele passa por cima da oposição, da imprensa, das instituições. Foi o que fez Chávez.
Um populista só aceita a bajulação.
A live de Janones foi puxa-saquismo do começo ao fim.
No final de sua participação, a ministra da Cultura e cantora Margareth Menezes disse ao presidente: "Você é demais".
Em momento algum Lula se referiu às negociações que terá de fazer com outros políticos e partidos para governar o quarto mandato.
O presidente foi incapaz de esmiuçar a PEC da Segurança Pública, que permitirá a criação de um ministério. Quando o tema apareceu, Lula só insistiu no slogan: "Para o trabalhador, proteção. Para o bandido, prisão".
Quando fez referência aos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta, ao final da live, Lula disse que iria falar com eles para "criar coisa nova".
É como se o Congresso não servisse para nada. Parlamentares podem jogar no lixos seus projetos de lei. Basta que o presidente se reúna com os líderes das duas Casas e comecem a ter ideias brilhantes.
E o pior de tudo. Um populista não vê motivos para mudar sua conduta quando é confrontado por técnicos e economistas.
Lula falou de "economia verde", de "economia criativa", "economia digital", mas não falou da economia real, em que o descontrole dos gastos joga os juros para cima, anula investimentos e joga os brasileiros no vermelho.
Jornalistas vão continuar interpretando as falas do Lula, como nesse artigo. A dúvida será em que condições isso será feito.
Lula vai atacar quem o criticar? Vai usar as concessões de canais de televisão para pressionar os veículos? Vai comprar cobertura amiga com verbas da Secretaria de Comunicação da Presidência, a Secom, como já vem fazendo?
Com lives semanais na companhia de Janones, Lula começa a imitar o estilo chavista.
E vale lembrar que Chávez sempre contou com o apoio de Lula.
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