De Disney a Taylor Swift: como é barato corromper no Brasil
Daniel Vorcaro gastou muito pouco para obter benefícios gigantescos
Uma das coisas que salta aos olhos na quebra de sigilo do caso Master é o valor baixo necessário para se corromper alguns funcionários públicos e parlamentares no Brasil.
Ao se confirmarem os indícios revelados, Daniel Vorcaro gastou muito pouco para obter benefícios gigantescos.
Os relatórios da Polícia Federal apontam que mensagens do dia 30 de janeiro de 2024 dão a entender que Vorcaro ajudou no custeio de uma viagem à Disney para Paulo Sérgio Neves de Souza e sua família, com guia turístico.
Paulo Sérgio era nada menos que chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária do Banco Central. Tinha um poder imenso nas mãos.
De acordo com dados do Portal da Transparência do Governo Federal, sua remuneração básica bruta era de 39 mil reais. Em janeiro, ele recebeu 61 mil reais devido à gratificação natalina e férias.
É um salário mais do que suficiente para arcar com o custo de uma viagem aos Estados Unidos. Mesmo assim, Paulo Sérgio aceitou um mimo de Daniel Vorcaro.
A suspeita da PF é que Paulo Sérgio orientava Daniel Vorcaro sobre os argumentos que deveria apresentar em reuniões com o então presidente da autarquia, Roberto Campos Neto.
Ele seria um "consultor informal", que também antecipava posicionamentos internos do BC a Vorcaro.
Informações de extremo valor, que custaram um preço ridículo.
Leia em Crusoé: Por que homens públicos querem ser milionários?
Taylor Swift
Outro exemplo deprimente nessa linha foi o pedido do senador Jaques Wagner a Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro no banco Master.
O petista pediu a Lima cinco ingressos para o show da cantora americana Taylor Swift em São Paulo.
"Se não for criar problema para você, acabou que minha filha me ligou e disse que teria uma amiga da filha dela com a mãe que queriam ir. Então, se ainda for possível manter os cinco, agradeço. Me dê um toque. Obrigado", disse o senador ao empresário em um áudio.
À época, Jaques Wagner era ninguém menos que líder do governo Lula no Senado. Seu salário era de 46 mil reais.
Os dois casos mostram como a régua moral de alguns políticos e servidores brasileiros é baixa.
Paulo Sérgio e Jaques Wagner também são suspeitos de receberem valores muito maiores de Vorcaro e ainda terão o direito de se defender na Justiça.
Mas vale lembrar que o crime, para se configurar, não depende do valor gasto pelo corruptor.
"Não é só uma viagem para a Disney. Quando o presente é dado com a finalidade de buscar a prática de atos de ofício, ainda que eles não se realizem, é corrupção. Não tem para onde correr. O ato de corrupção não se caracteriza pelo tamanho da vantagem, e sim pelo fato de estar solicitando ou aceitando uma vantagem indevida para deixar de praticar ou praticar um ato de ofício", diz o advogado criminalista Yuri Carneiro Coelho.
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