As "torturas" que Vorcaro alega ter sofrido
Ex-banqueiro deu a entender que pretendia delatar diretor-geral da Polícia Federal em depoimento ao gabinete de Mendonça
No depoimento prestado ao gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça na semana passada, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro (foto) disse que sofreu "torturas" em sua prisão preventiva no caso do Banco Master.
"Eu não sou uma pessoa com mania de perseguição, não sou uma pessoa que tem qualquer tipo de problema de poder exagerar qualquer coisa, mas eu temi pela minha vida, temi de verdade. Por quê?", disse o ex-banqueiro, para detalhar:
"Nos transportes, desde a primeira vez, não somente com questões físicas, de torturas, de me deixarem em um caixote por seis horas, sem ar, suando, um transporte, para pegar um transporte aéreo. E, aí, quando eu abro a porta, eu já recebo uma fala: 'Isso que dá, você vai querer falar disso, do chefe? Vai acontecer isso'. Isso, em um transporte, quando eu saí de São Paulo, que ia vir para Brasília", relatou.
Questionado sobre quem teria dito isso a ele, Vorcaro disse que quem o recepcionou "era da Polícia Federal".
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Andrei Rodrigues
Durante o depoimento, o ex-banqueiro dá a entender que pretendia incluir Andrei Rodrigues, o diretor-geral da Polícia Federal, em sua delação, e diz que sofreu "ameaças".
"Eu vou dar um exemplo de situações que aconteceram, como, por exemplo, o próprio diretor‐geral, o Andrei, que viajou para eventos comigo, com namorada, teve ingressos, teve uma relação pretérita a esse caso, especificamente. E, aí, depois, os delegados que estão fazendo a colaboração, que estão escutando o que eu tenho para falar, não quiseram escutar, não quiseram fazer", disse Vorcaro no depoimento.
Na sequência, ele retoma a descrição do que chamou de "ameaças".
"Então, nesse transporte, eu sofri essa questão física. Durante os transportes ou os intervalos ali em aeroporto e transporte aéreo, eu sofri falas: 'Tá vendo? Quer mexer com... querer mexer com... querer mexer com os patrões, agora sua vida vai virar um inferno'. Nesse momento eu estava me dirigindo à Penitenciária Federal, que, me desculpe, doutor, eu sei que a decisão proferida pelo gabinete era no interesse de me resguardar, resguardar a minha vida, mas o pedido da Polícia Federal não foi para isso. O pedido foi para me deixar calado, trancafiado e isolado, inclusive dos meus advogados. Eu fiquei quase dez dias sem conseguir ter acesso até mesmo a advogados", reclamou.
PCC ou Comando Vermelho?
"Naquele momento, ali, eu fui colocado numa cela em que a luz não apagava. A luz ficava luz intermitente, não apagava, dia e noite, 24 horas, sem acesso a qualquer pessoa. Não tinha nada, nem ninguém, de não saber nem por que eu estava ali. Não tive nem mesmo a chance de conversar com qualquer advogado ou saber a decisão por que eu estava fazendo aquele... aquela... tendo aquele transporte, aquele movimento todo e todas aquelas mazelas que eu sofri, que eu vou detalhar mais depois ao final, desde a minha chegada. Porque a entrada no Presídio Federal... Uma pessoa que nem sabe o que aconteceu, nem sabe por que foi no Presídio Federal", seguiu Vorcaro, acrescentando:
"Eu tive humilhações grandes, grandes, doutor. Quando eu cheguei, primeira coisa: imagina você não saber pra onde está indo, por que está indo. Eu cheguei, todo despido, todo rapado, e a primeira pergunta que me fazem é [para] qual pavilhão que eu quero ficar, se o pavilhão do Comando Vermelho ou do PCC. Qual que eu tinha... Se eu tinha algum problema com um dos dois. Eu, na hora, mencionei: eu nunca conheci ninguém de qualquer facção, não tenho o menor contato com ninguém. Antes de ter sido preso, nunca nem sabia que existia esse tipo de procedimento ou esse tipo de presídio com essas duas... nesses dois pavilhões."
Vorcaro disse que ficou duas semanas sem acesso a seus advogados e relata que, quando foi transportado para a Polícia Federal de novo, voltou a ser intimidado:
"Na Polícia... durante o transporte da Polícia Federal, de novo, eu sofri intimidações. Eu fui colocado no helicóptero, me colocaram aqueles óculos igual o do Maduro, naquele transporte que o Maduro fez da Venezuela pros Estados Unidos, com dez pessoas. E eu, no helicóptero, eu fui, de certa maneira, estava com uma equipe especializada, que eu nem sei o nome, uma equipe especializada da Polícia, armamento pesado. E ali, a todo momento, eu sofria falas: ʺEstá vendo? Foi fazer merda.ʺ Desculpa o termo, mas era pelo eu me lembro. E, de novo, eu vou, dentro do possível aqui, depois, se for de interesse, eu vou falar de maneira breve, mas eu posso me lembrar de mais detalhes. Estava sob forte..."
"Calabouço"
Na sequência, ele relatou o que teria ouvido de agentes: ʺFoi fazer merda, agora vê se faz alguma coisa e fica quieto, não sei o que, e tal, tal, tal.ʺ
"Aí o outro ia e comentava: 'É mais fácil, de repente, jogar ele daqui'. Estava no helicóptero; isso, no ar. Então, essa foi a outra oportunidade que eu temi ali pela vida. E foi durante todo o trajeto, durante todo o tempo, eu sofrendo esse tipo de intimidação", completou.
O ex-banqueiro disse que foi colocado em um "calabouço" na sede da PF.
"E ali também sofri algumas intimidações, fui privado de comida, de água, por um dia, e toda hora alguma pessoa passava para falar alguma coisa", descreveu.
"E, aí, durante esse período da colaboração, diversas, por diversas vezes, diversos interlocutores e advogados me passavam mensagens, enquanto eu estava construindo ali a colaboração, de que eu não deveria seguir nesse caminho, de que as pessoas estavam falando que eu deveria ficar quieto porque que eu tinha família, que tinha não sei o quê, que iria piorar a situação, 'se você continuar nisso, vai piorar a situação'. E acabou que aconteceu isso, piorou minha situação. Depois disso, meu pai foi preso, meu primo foi preso, eu tinha mais exposição. Foi criada uma narrativa, que eu vou contar para vocês agora, que não é verdade", alegou Vorcaro.
Na verdade, as prisões de seu pai e seu primo tinham sido interpretadas, até agora, como pressão para ele delatar, e não o contrário.
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