Nenhuma outra cidade brasileira concentra tantos apostadores esportivos, proporcionalmente, quanto o Rio de Janeiro, que despontou como o epicentro nacional desse mercado.
Levantamento do Ministério da Fazenda revela que, apenas no mês de junho, 1,8 milhão de moradores da capital fluminense fizeram apostas esportivas.
Isso significa que mais de um quarto dos habitantes da cidade, 26,89%, apostou nesse período.
Já São Paulo, apesar de ter uma população quase duas vezes maior, apresentou um índice bem inferior no mesmo mês: 15,75% dos moradores apostaram.
A diferença não está apenas nos números absolutos, mas também na proporção: o Rio tem uma das maiores concentrações de apostadores entre os grandes centros urbanos.
Saiba qual a cidade e por que ela possui o maior número de apostadores do país
A Secretaria Municipal de Saúde do Rio criou um protocolo específico para identificar o transtorno do jogo.
Durante os atendimentos, os profissionais perguntam aos pacientes se já sentiram vontade de apostar e se precisaram mentir sobre esse comportamento.
Uma resposta afirmativa pode levar ao encaminhamento para tratamento especializado.
O órgão diz que as pessoas normalmente não chegam às unidades de saúde em busca de tratamento para o vício em jogos.
A doença é difícil de tratar porque costuma estar associada a ansiedade, insônia, depressão e outros problemas.
Com a triagem, a prefeitura busca antecipar o diagnóstico do transtorno, evitando que ele avance e comprometa ainda mais as finanças, os laços familiares e a vida profissional de quem sofre com o vício.
Os atendimentos iniciais permitiram desenhar um panorama dos pacientes: homens somam quase 60% do total, e mais da metade (53%) tem entre 18 e 39 anos.
Já entre os familiares atingidos pelo problema, a grande maioria, 85%, é formada por mulheres acima de 40 anos, sobretudo mães e esposas dos apostadores.
Fatores econômicos que explicam o fenômeno
Não há uma única explicação para o número elevado de apostadores no Rio, segundo avaliação do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Fatores econômicos ajudam a explicar o fenômeno: a renda média carioca, inferior à paulista, pode levar parte da população a ver nas apostas uma alternativa para escapar de dificuldades financeiras.
O mercado de trabalho marcado pela informalidade também contribui para essa dinâmica, assim como o número de servidores públicos com acesso a crédito consignado a juros reduzidos.
A Defensoria Pública critica o marketing agressivo das bets e afirma que elas cresceram entre 2018 e 2024 sem controle dos riscos, enquanto o poder público não regulou adequadamente o setor.
O acesso simplificado a crédito alimenta a espiral de perdas recorrentes. Quando sofre derrotas, o apostador recorre aos empréstimos disponíveis para voltar a apostar.
Assim, cada tentativa de recuperar o dinheiro perdido pode levar a dívidas ainda maiores.
Essa dinâmica é particularmente intensa entre pessoas de menor renda e com acesso facilitado a linhas de crédito consignado.







