O Ministério Público do Trabalho acusa a Uber de cobrar antecipadamente um Passe para eliminar taxas de corrida.
O órgão considera a prática abusiva, e a cobrança está no centro de um processo judicial contra a empresa.
Motoristas pagam adiantado por um pacote batizado de “Passe para Motoristas”, que promete corridas sem desconto de serviço durante certo período ou até um teto de ganhos.
Aplicativo de transporte cobra taxas indevidas de motorista e terá que responder processo na justiça
A Procuradoria Regional do Trabalho da 5ª Região apresentou a ação, que corre na 9ª Vara do Trabalho de Salvador, com pedido de alcance nacional.
Segundo o procurador do Trabalho Luiz Antonio Nascimento Fernandes, responsável pela ação, o programa é obrigatório e contratado automaticamente.
O órgão argumenta que o modelo empurra parte do risco financeiro da atividade para quem dirige, criando dependência que se aproxima de servidão por dívida.
O MPT pede a devolução integral dos valores pagos, a suspensão do programa e R$ 321 milhões por danos morais coletivos.
O órgão também pediu multa diária de R$ 1 milhão caso a suspensão não ocorra em até 48 horas.
Funcionamento do Passe para Motoristas da Uber
Lançado em maio de 2026 em 12 cidades, o programa foi expandido e está disponível em 29 cidades, mudando a lógica tradicional de desconto por corrida.
Em vez de a plataforma reter uma fatia de cada viagem, quem dirige antecipa o valor de um Passe que zera a taxa de serviço por tempo determinado ou até um limite de faturamento.
Duas modalidades coexistem: o pagamento fixo dá acesso a corridas ilimitadas por 24 ou 72 horas, enquanto a outra libera o motorista da taxa até um teto de ganhos.
O prazo máximo é de 180 dias, e um exemplo citado no processo mostra que o pagamento de R$ 240 garante a ausência de cobrança até R$ 1.050 acumulados.
Ofertas menores, como R$ 35 por um dia ou R$ 94, também são oferecidas aos motoristas. Dependendo da frequência de uso, o gasto mensal pode somar entre R$ 940 e R$ 1.050.
O Passe é ativado automaticamente após a primeira corrida elegível, com desconto direto na carteira virtual do motorista.
Sem saldo disponível, a cobrança vira débito, que é abatido das próximas corridas. O MPT considera o mecanismo obrigatório e imposto sem consentimento explícito.
A Uber promete aos motoristas o repasse integral do valor das viagens durante a validade do Passe.
Mas a Uber continua distribuindo as corridas por meio de seu algoritmo, sem compromisso com um volume mínimo.
Essa lacuna preocupa a Procuradoria, porque o motorista pode não recuperar o valor pago antes de rodar.
Dependência financeira e endividamento
Quando falta saldo para cobrir o Passe, o valor é descontado automaticamente dos ganhos futuros, conforme os termos do programa.
Para o MPT, esse mecanismo cria um ciclo em que o motorista precisa continuar trabalhando para quitar uma dívida contraída justamente para acessar as condições de trabalho.
Segundo o órgão, esse círculo pode caracterizar estruturas de servidão por dívida e trabalho análogo à escravidão, avaliação que depende de análise judicial.
O processo não busca reconhecer vínculo empregatício nem indenizar cada motorista individualmente.
A meta declarada é barrar uma prática considerada ilegal em escala nacional.
O caso também não trata de eventual responsabilização criminal, embora os fatos apurados possam seguir para outras esferas de investigação, segundo o próprio órgão.
O Ministério Público do Trabalho também quer entender os critérios usados para distribuir corridas e definir preços e, por isso, solicitou acesso ao código-fonte do sistema da Uber.
A empresa já expandiu o programa: o Passe está disponível para motoristas de moto em todo o território nacional.
Em resposta, a Uber informou que contesta as conclusões do órgão e vai apresentar à Justiça esclarecimentos sobre o funcionamento da plataforma.
O juiz Luciano Carreiro, encarregado do caso, apontou a necessidade de cautela e prudência processual.
Segundo ele, questões como endividamento, retenção de créditos futuros e efeitos concorrenciais requerem investigação, mas não podem ser consideradas fatos definitivamente estabelecidos sem contraditório.
Enquanto o processo avança na Justiça baiana, motoristas seguem decidindo se vale a pena antecipar o pagamento de um Passe sem garantia de corridas suficientes para compensá-lo.








