Uma revisão publicada na revista científica The Lancet Psychiatry analisou 5.774 estudos sobre canabinoides produzidos entre 1980 e maio de 2025, período de 45 anos. Desse total, apenas 54 ensaios clínicos randomizados atenderam aos critérios de qualidade científica exigidos pelos autores, somando 2.477 participantes ao todo.
A conclusão: faltam evidências confiáveis para sustentar o uso da substância em transtornos como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático.
O trabalho chega poucos meses antes de três resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre plantio e cultivo de cannabis entrarem em vigor no Brasil. Desde 4 de agosto, empresas e instituições de pesquisa já podem solicitar autorização para cultivar Cannabis sativa no país com fins medicinais e científicos, primeira via regulada desse tipo no Brasil.
Nenhum estudo testou a substância para depressão
Os pesquisadores não encontraram efeitos clinicamente significativos dos canabinoides no tratamento de ansiedade, anorexia nervosa, transtornos psicóticos como a esquizofrenia, transtorno obsessivo-compulsivo, estresse pós-traumático e transtorno por uso de opioides. Em um achado específico, o uso de canabinoides aumentou o desejo de consumir cocaína entre os participantes, comparado ao grupo que recebeu placebo.
Chama atenção outro dado da revisão: não existe nenhum ensaio clínico randomizado que avalie canabinoides especificamente para depressão, uma das condições mais citadas para justificar a prescrição de cannabis medicinal.
Evidências sólidas existem para casos raros de epilepsia
Nem todas as indicações da cannabis medicinal carecem de comprovação. Outros estudos já demonstraram eficácia de derivados da planta em condições específicas, como as síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut, formas raras e graves de epilepsia.
Para a maioria das demais indicações associadas à cannabis medicinal, especialmente na psiquiatria, a revisão da Lancet Psychiatry aponta que as evidências seguem insuficientes.
O mercado legal global de cannabis medicinal movimenta cerca de US$ 38,5 bilhões por ano e pode chegar a US$ 47,5 bilhões até 2030, segundo a consultoria BDSA. No Brasil, o setor ainda é pequeno perto de países como Estados Unidos e Canadá, mas a nova regulamentação da Anvisa deve impulsionar o mercado nacional nos próximos anos.







