Enquanto o Brasil viveu 54 anos de monopólio da Rede Globo na transmissão de Copas do Mundo, a Argentina passou por uma experiência radicalmente diferente: entre 2009 e 2016, o próprio governo argentino assumiu o controle das transmissões de futebol, em um programa batizado de Fútbol Para Todos.
Criado pela então presidente Cristina Kirchner, o programa foi o único caso no mundo de estatização completa das transmissões esportivas.
Até aquele momento, a empresa Torneos y Competencias detinha os direitos de transmissão do Campeonato Argentino desde 1985, mas perdeu o contrato quando o governo ofereceu à AFA (Associação do Futebol Argentino) um valor de 600 milhões de pesos, superior à proposta que a iniciativa privada estava disposta a pagar.
Por trás da decisão
Para os apoiadores da medida, o Fútbol Para Todos democratizava o acesso ao esporte mais popular do país, permitindo que qualquer pessoa assistisse aos jogos de graça, sem depender de assinatura de TV paga.
Já os críticos viam o programa como uma forma de usar dinheiro público para favorecer os clubes, além de uma retaliação do governo Kirchner ao Grupo Clarín, principal opositor político da família Kirchner e antigo parceiro da Torneos y Competencias.
O tamanho do gasto público
Entre 2009 e 2014, o governo argentino gastou cerca de US$ 1 bilhão com o programa.
O contrato com a AFA também previa a veiculação de publicidade oficial durante as transmissões: somente em 2013, foram exibidas 90 horas de propaganda institucional ao longo dos jogos, o equivalente a três dias e meio ininterruptos de conteúdo sobre a gestão de Cristina Kirchner.
O Fútbol Para Todos foi encerrado em 2016, já sob o governo do presidente Mauricio Macri, que buscava reduzir gastos públicos e via o programa como incompatível com sua agenda liberal.
Mesmo assim, Macri manteve a transmissão gratuita dos jogos até 2019, atendendo a uma promessa eleitoral. Os direitos de TV do Campeonato Argentino foram vendidos para as empresas Fox e Turner, por um valor quase o dobro do que o governo pagava, encerrando o experimento estatal.
Um contraste que ainda ecoa na região
O episódio argentino segue como uma referência incomum no debate sobre a concentração dos direitos de transmissão esportiva na América do Sul, especialmente em um momento em que o Brasil discute, pela primeira vez em décadas, a divisão dos direitos da Copa do Mundo entre mais de uma emissora, sem que o Estado brasileiro em nenhum momento tenha cogitado um modelo semelhante ao argentino.








