O combate ao Ebola na República Democrática do Congo (RDC) enfrenta obstáculos que vão muito além da própria doença. As autoridades de saúde mundiais apontam que grupos armados, desinformação e uma crise humanitária de grande escala dificultam o controle do surto, que já é o 17º registrado no país desde que a doença foi identificada, em 1976.
Segundo boletim divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no começo de julho, o surto atual soma 1.481 casos confirmados, sendo 1.460 na própria RDC, 20 em Uganda e um na França, ligado a um profissional de saúde que atuou na região afetada. Ao todo, já são 454 mortes confirmadas, incluindo duas em Uganda.
Conflitos armados dificultam o rastreamento de casos
De acordo com o Centro Global para a Responsabilidade de Proteger, operam na RDC pelo menos 120 milícias e grupos armados, o que compromete o rastreio de casos e o controle de contatos, estratégias consideradas essenciais para conter o avanço do vírus. A OMS já denunciou ataques a unidades de saúde na região.
Marie Roseline Belizaire, responsável pela gestão do surto pela OMS na África, relatou durante um encontro da associação e cobertura de saúde da Universidade de Harvard que ataques de grupos armados chegaram a impedir seu deslocamento entre cidades da região afetada.
Segundo Belizaire, episódios assim acontecem quase diariamente e afetam diretamente a resposta ao surto.
Nova cepa não tem vacina
Neste ano, a doença é causada pela espécie Bundibugyo do vírus Ebola, para a qual ainda não existe vacina nem tratamento específico aprovado, diferentemente da espécie Zaire, responsável por surtos anteriores e que já conta com imunização. Segundo Belizaire, isso exige um trabalho extra de comunicação com as comunidades locais.
Como alternativa, a OMS anunciou que vai recrutar voluntários na RDC para avaliar se moléculas já existentes, como o antiviral Remdesivir, aprovado para tratamento da Covid-19, podem aumentar as chances de sobrevivência de quem teve contato com o vírus.
Desinformação também atrapalha
O especialista em impactos da desinformação Christopher Nehring, que preparou levantamento sobre o tema para a fundação alemã Konrad Adenauer Stiftung, avalia que informações falsas circulam amplamente na região, a ponto de fazer parte da população duvidar da própria existência da epidemia.
Segundo Nehring, essa descrença leva pessoas a frequentar hospitais e velórios sem os cuidados necessários, favorecendo a disseminação do vírus.



