Vorcaro demonstrou receio com PGR e PF ao dar depoimento
Ex-banqueiro questionou quem teria acesso aos vídeos da oitiva; Defesa de Vorcaro abriu mão com medo de vazamentos
O ex-banqueiro Daniel Vorcaro demonstrou receio que integrantes da Polícia Federal (PF), da Procuradoria-Geral da República (PGR) e outros advogados tivessem acesso ao seu depoimento.
Durante a oitiva, realizada em 28 de agosto junto ao gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, o juiz auxiliar explicou que, por questões de segurança, o depoimento seria colhido de maneira remota.
Segundo o magistrado, a medida tinha como objetivo “garantir o sigilo” da oitiva e a “segurança” de Vorcaro, após o ex-banqueiro relatar ameaças.
"A primeira providência: o senhor não foi chamado a comparecer à sede do tribunal, justamente para que o seu deslocamento e a sua presença não fossem percebidos por terceiros", afirma o juiz.
Eis o trecho:
"JUIZ ‐ Esse ato foi delegado com base no artigo 21 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, e eu esclareço que a designação dessa audiência, senhor Daniel, visa preservar sua segurança e o sigilo do depoimento. Tendo em vista as graves alegações de ameaça constantes da petição que requereu a marcação desse ato, que foi protocolado com data de ontem, em mãos no gabinete, consta dos autos a notícia de que o senhor vem sofrendo algumas ameaças. Por isso, foram adotadas as seguintes providências específicas para garantir tanto o sigilo desse depoimento quanto a sua segurança durante esse depoimento.
A primeira providência: o senhor não foi chamado a comparecer à sede do tribunal, justamente para que o seu deslocamento e a sua presença não fossem percebidos por terceiros. O ato foi trazido até aqui por essa razão. Segunda providência: essa audiência corre em segredo de justiça. O registro desse depoimento não ficará disponível para consulta pública nem será acessível a quem não esteve formalmente habilitado no processo. Eu quero dizer que a gente vai levar essas mídias direto para o gabinete e entregar em mãos ao ministro. Nessa sala estão presentes as pessoas indispensáveis à realização do ato. Como eu já citei aqui..."
PF e PGR
Vorcaro, então, interrompeu o juiz auxiliar e questionou se as gravações ficariam disponíveis para “outros advogados” e para a Polícia Federal (PF).
O juiz respondeu que o processo estava sob sigilo “nível 4”, ou seja, apenas Vorcaro, sua defesa e o relator, ministro André Mendonça, teriam acesso ao conteúdo.
"Então, a liberação de acesso a outras pessoas nesse processo, ela pressupõe uma decisão judicial que não foi deferida. Então, enquanto não for proferida uma decisão pelo ministro liberando o sigilo, o eventual sigilo, essa decisão pode ser ou pode não ser proferida, isso correrá em sigilo, nenhum outro advogado sem procuração dos autos... Todos os advogados com procuração nos autos têm acesso, mas nenhum outro advogado sem procuração nos autos vai ter acesso a esse depoimento aqui", acrescenta o magistrado.
Vorcaro insistiu e questionou, então, se a Procuradoria-Geral da República (PGR) teria acesso ao conteúdo.
"Só quem vai ter acesso a esse vídeo vai ser, por enquanto, o gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, a sua defesa e o Doutor Daniel [Bialski, advogado]", afirmou o magistrado.
Em seguida, a defesa de Vorcaro registrou que não desejava ter acesso aos vídeos para evitar que, em caso de eventual vazamento, a responsabilidade recaísse sobre os advogados.
"ADVOGADO ‐ Que fique registrado que a defesa, que eu acho que eu posso falar em nome de todos os advogados, a gente não quer ter acesso a esse vídeo justamente porque, se acontecer algum tipo de fornecimento de imagem em algum lugar, que se possa atribuir aos advogados. Então, a defesa não quer ter acesso, que fique guardado em sigilo no gabinete do ministro", diz trecho do depoimento.
Andrei Rodrigues
Durante o depoimento, o ex-banqueiro dá a entender que pretendia incluir Andrei Rodrigues, o diretor-geral da Polícia Federal, em sua delação, e diz que sofreu "ameaças".
"Eu vou dar um exemplo de situações que aconteceram, como, por exemplo, o próprio diretor‐geral, o Andrei, que viajou para eventos comigo, com namorada, teve ingressos, teve uma relação pretérita a esse caso, especificamente. E, aí, depois, os delegados que estão fazendo a colaboração, que estão escutando o que eu tenho para falar, não quiseram escutar, não quiseram fazer", disse Vorcaro no depoimento.
Na sequência, ele retoma a descrição do que chamou de "ameaças".
"Então, nesse transporte, eu sofri essa questão física. Durante os transportes ou os intervalos ali em aeroporto e transporte aéreo, eu sofri falas: 'Tá vendo? Quer mexer com... querer mexer com... querer mexer com os patrões, agora sua vida vai virar um inferno'. Nesse momento eu estava me dirigindo à Penitenciária Federal, que, me desculpe, doutor, eu sei que a decisão proferida pelo gabinete era no interesse de me resguardar, resguardar a minha vida, mas o pedido da Polícia Federal não foi para isso. O pedido foi para me deixar calado, trancafiado e isolado, inclusive dos meus advogados. Eu fiquei quase dez dias sem conseguir ter acesso até mesmo a advogados", reclamou.
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