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A porta giratória de Downing Street

Com a saída de Starmer, o Reino Unido bate recorde: 7 primeiros-ministros em 10 anos. O que explica essa instabilidade política?

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José Inácio Pilar
4 minutos de leitura 22.06.2026 10:46 comentários 0
A porta giratória de Downing Street
Imagem: IA por José Inácio Pilar
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Na manhã desta segunda-feira, 22 de junho de 2026, Keir Starmer anunciou que deixará o cargo de primeiro-ministro e líder do Partido Trabalhista em questão de semanas, menos de dois anos após ser eleito em uma vitória histórica. Com isso, a Grã-Bretanha caminha para ter seu sétimo líder em dez anos. O número impressiona e deixa a dúvida: por que isso está acontecendo de novo?

Tudo começou com o Brexit. Em junho de 2016, o trabalhista David Cameron, que havia convocado o referendo em parte para neutralizar pressões internas de parlamentares eurocéticos, renunciou na manhã seguinte ao país votar 52% a 48% pela saída da União Europeia. Cameron havia feito campanha pela permanência no grupo europeu e disse não ter condições de liderar um processo que ele próprio havia se oposto.

Theresa May, a sucessora do Partido Conservador, renunciou em 2019 após sucessivas derrotas parlamentares em torno do acordo de saída do Brexit. Boris Johnson, do mesmo partido, caiu em 2022 após uma série de escândalos e uma onda de demissões ministeriais que solaparam seu governo. Liz Truss, a breve, deixou o cargo em 2022, após apenas 49 dias, em meio ao caos de mercado gerado por seu plano econômico. Ela também era do Partido Conservador.

O caso Truss merece destaque. Seu "mini-orçamento" de setembro de 2022, que propunha cortes tributários não financiados, desencadeou uma crise no mercado de títulos, derrubou a cotação da libra a mínimas históricas frente ao dólar e forçou o Banco da Inglaterra a intervir emergencialmente para evitar o colapso de fundos de pensão. Truss reverteu quase todas as medidas fiscais e renunciou em 20 de outubro de 2022.

Rishi Sunak deixou o poder após os conservadores sofrerem pesada derrota nas eleições gerais de 2024. Starmer venceu com uma maioria parlamentar histórica, mas o ciclo se repetiu: as fortunas políticas do trabalhista despencaram após escândalos, erros de política e resultados catastróficos nas eleições locais de maio de 2026, quando o Reform UK, do nacionalista de direita, Nigel Farage, obteve ganhos históricos.

O que explica essas quedas? Alguns fatores estruturais.

Primeiro, o sistema parlamentar britânico permite que um partido no poder substitua seu próprio líder e, portanto, o primeiro-ministro, por meio de um voto interno, sem necessidade de convocar uma nova eleição nacional. Segundo, o Brexit fraturou profundamente os dois grandes partidos, tornando qualquer coalizão interna instável. Terceiro, crises econômicas e escândalos éticos têm encontrado governos enfraquecidos demais para absorvê-los.

Além disso, a fragmentação do eleitorado britânico, com o avanço de forças como o Reform UK nas regiões do Norte e Midlands, e a crescente insatisfação com a economia regional e os serviços públicos sobrecarregados, tem erodido as bases tradicionais de trabalhistas e conservadores.

Essa polarização cultural e geográfica, intensificada pela velocidade das redes sociais e do noticiário contínuo, transforma desafios conjunturais em crises existenciais para os líderes, independentemente do partido.

Antes de 2016, o Reino Unido viveu longos períodos de liderança estável: Margaret Thatcher governou por 11 anos, John Major por quase 7 e Tony Blair por 10. A era pós-Brexit representa um desvio histórico dessa norma. O país que inventou o parlamentarismo moderno parece, por enquanto, incapaz de domá-lo. Veremos se o principal cotado para suceder Starmer em setembro, o ex-prefeito de Manchester, Andy Burnham, vai conseguir quebrar essa tendência recente.

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