Acordo de Trump com Irã é pior que o de Obama
Trump abandonou o acordo nuclear de Obama prometendo algo melhor. Anos depois, entregou um pacto mais frágil e muito mais caro
Durante anos, Donald Trump descreveu o acordo nuclear firmado pelo governo Barack Obama com o Irã como um desastre histórico. Segundo ele, o pacto era fraco, favorecia Teerã e colocava o país mais perto de obter armas nucleares.
O presidente retirou os Estados Unidos do entendimento em 2018, prometendo negociar algo mais rígido e permanente. O acordo preliminar anunciado agora, porém, está sendo comparado justamente ao pacto que ele passou anos condenando.
A primeira diferença está no grau de detalhamento. O acordo firmado por Obama em 2015 foi resultado de mais de 18 meses de negociações entre Irã, Estados Unidos, União Europeia, China, Rússia, Reino Unido, França e Alemanha. O documento final estabelecia limites precisos para o programa nuclear iraniano e criava mecanismos de fiscalização internacional.
Pelo pacto, o Irã poderia enriquecer urânio apenas até 3,67% durante 15 anos. O país também aceitou eliminar cerca de 98% de seu estoque de urânio enriquecido, reduzir significativamente o número de centrífugas utilizadas no processo e permitir inspeções conduzidas pela Agência Internacional de Energia Atômica.
Quando abandonou o acordo em 2018, Trump afirmou que ele era “horrível”, “defeituoso em sua essência” e uma “estrada para uma arma nuclear”. O presidente argumentava que as inspeções eram insuficientes, que os limites expirariam com o tempo e que o pacto não abordava questões como mísseis balísticos e a atuação regional do governo iraniano.
O entendimento negociado agora é muito mais limitado. Trata-se de um memorando com menos de duas páginas, criado para interromper os combates recentes, reabrir o Estreito de Ormuz e estabelecer uma janela de até 60 dias para novas negociações.
O texto afirma que o Irã não buscará armas nucleares, mas não define de forma detalhada quais restrições serão impostas ao enriquecimento de urânio, ao número de centrífugas, aos estoques já existentes ou aos mecanismos de inspeção. Todos esses pontos permanecem em aberto.
Essa é uma das maiores diferenças entre os dois acordos. Enquanto o pacto de 2015 especificava exatamente o que o Irã deveria reduzir, desmontar ou permitir que fosse fiscalizado, o novo memorando deixa as questões centrais para uma etapa futura.
A questão financeira também expõe semelhanças que Trump costumava criticar. Durante anos, o presidente afirmou que Obama havia entregado enormes quantias ao Irã em troca de concessões insuficientes. Em diversas ocasiões, citou valores não comprovados de até 150 bilhões de dólares e criticou a devolução de recursos iranianos congelados no exterior.
Autoridades do governo Obama estimavam que os recursos efetivamente utilizáveis após o acordo estavam mais próximos de 50 bilhões de dólares. Ainda assim, Trump transformou o tema em um dos principais símbolos de sua oposição ao pacto.
Agora, o novo memorando também prevê alívio de sanções e acesso a ativos iranianos bloqueados. O texto estabelece que os Estados Unidos trabalharão para remover sanções ligadas ao programa nuclear e tornar disponíveis fundos congelados caso o Irã cumpra os compromissos assumidos.
Nesta quarta, 18, Trump reconheceu que parte desses recursos provavelmente terá de ser devolvida. O presidente afirmou que os Estados Unidos congelaram dinheiro iraniano no passado, mas acrescentou que “não é nosso dinheiro, é deles”.
O acordo também prevê que Washington trabalhe com parceiros regionais em um plano estimado em pelo menos 300 bilhões de dólares para reconstrução e desenvolvimento econômico do Irã. A Casa Branca afirma que o valor não viria diretamente dos contribuintes americanos.
Outro ponto central envolve o que cada lado recebeu em troca. O acordo de Obama concedeu alívio econômico significativo, mas obteve compromissos nucleares concretos, redução de estoques de urânio, limitações operacionais e inspeções internacionais.
No caso do memorando atual, boa parte dos benefícios econômicos foi oferecida em troca da reabertura do Estreito de Ormuz e do compromisso de continuar negociando. A reabertura da rota marítima representa, em grande medida, apenas um retorno à situação anterior à guerra.
O futuro da passagem permanece incerto. O memorando prevê que, após um período inicial de 60 dias, o Irã e Omã discutam a administração futura do estreito. A possibilidade de cobranças ou novas restrições não foi descartada.
A diferença de contexto também pesa na comparação. Obama chegou ao acordo após um longo processo diplomático. Trump negociou depois de ataques americanos e israelenses contra instalações nucleares iranianas e meses de conflito regional.
Segundo dados oficiais, a guerra já custou mais de 25 bilhões de dólares aos Estados Unidos e provocou a morte de 13 militares americanos. O fechamento do Estreito de Ormuz ameaçou uma rota responsável por aproximadamente 20% do petróleo transportado no mundo, aumentando os riscos econômicos para diversos países.
Trump justificou o novo entendimento afirmando que queria evitar uma crise econômica mais ampla. Ao comentar o acordo nesta quarta, 18, declarou que os mercados reagiam positivamente sempre que surgia a perspectiva de paz e admitiu preocupação com os impactos econômicos de uma guerra prolongada.
Outro objetivo frequentemente citado por Trump ao abandonar o acordo de Obama era impor restrições ao programa de mísseis balísticos iranianos. Só que o novo memorando não contém exigências concretas nessa área importante. O tema ficou em aberto, transferido para negociações paralelas futuras.
Ao longo dos últimos anos, Trump prometeu substituir o acordo de 2015 por um entendimento mais rigoroso. A comparação mostra que o pacto negociado por Obama continha limites nucleares definidos, cronogramas detalhados e mecanismos de fiscalização já estabelecidos. O acordo atual oferece alívio econômico semelhante, surge após uma guerra custosa e deixa as principais restrições nucleares para negociações que ainda não aconteceram.
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