Quem vai defender as mulheres?
Forças políticas que reivindicam o monopólio da pauta feminina costumam se posicionar contra medidas como o endurecimento de penas para crimes violentos
Mais uma vez, Erika Hilton (foto) volta ao centro do debate público, apresentando-se como uma representante das mulheres brasileiras.
Agora, na condição de presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.
Recentemente, também foi escolhida “Mulher do Ano” pela revista Marie Claire, ocupando um espaço que deveria representar mulheres e seus desafios cotidianos.
Esse movimento reforça algo que já analisei em outro texto: a tentativa de transformar a pauta feminina em um símbolo vazio, apropriado por uma agenda política que pouco dialoga com os problemas concretos enfrentados pelas brasileiras.
Não entrarei aqui no mérito da discussão sobre uma mulher trans ocupar esse espaço.
Esse debate, aliás, tornou-se interditado no Brasil depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu equiparar a transfobia ao crime de racismo.
Na prática, o tribunal acabou criando um novo tipo penal por decisão judicial.
E as consequências dessa decisão são sintomáticas.
Após assumir a presidência da Comissão da Mulher, Erika Hilton pediu a suspensão por um mês de um programa de televisão de repercussão nacional, o programa do Ratinho, por conta da opinião do apresentador.
Por isso, prefiro olhar para outro ponto: afinal, o que a Comissão da Mulher deveria fazer e o que de fato está sendo feito?
A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher foi criada em 2016 com o objetivo de acompanhar políticas públicas voltadas aos problemas femininos, debater propostas legislativas e enfrentar problemas como violência doméstica e segurança pública. São desafios cruciais.
O Brasil segue registrando números alarmantes de feminicídio. Em 2025, sob o governo Lula, o país registrou o maior número de casos da última década, com mais de 1.500 mulheres assassinadas.
Todos os dias surgem novas manchetes que expõem a brutalidade desses crimes. No entanto, quando se observa a atuação de setores da esquerda que dominam esse debate dentro do Congresso, há uma clara contradição.
Um exemplo foi o posicionamento do Psol, partido de Erika Hilton, que votou contra propostas para endurecer penas para crimes como estupro e feminicídio.
Enquanto o discurso afirma proteger mulheres, a prática caminha na direção diametralmente oposta.
Existe um padrão nessa estratégia política.
A esquerda tenta sequestrar para si a pauta feminina, como se fosse necessariamente um projeto ideológico de esquerda.
Esse discurso se apoia em uma narrativa de que o protagonismo feminino depende de agendas identitárias.
Em certa medida, trata-se de uma adaptação da lógica marxista da luta de classes.
Se Marx colocava operários contra patrões como motor da história, parte da esquerda contemporânea tenta transportar essa lógica para o campo social, substituindo o conflito de classe por uma disputa de homens contra mulheres. Os opressores e as oprimidas.
O problema é que, fora da teoria, as necessidades mais urgentes das mulheres ficam em segundo plano.
Combater feminicídios exige punição severa a criminosos.
Garantir autonomia feminina exige segurança pública e liberdade para que mulheres possam se proteger.
As mesmas forças políticas que reivindicam o monopólio da pauta feminina, no entanto, costumam se posicionar contra medidas como o endurecimento de penas para crimes violentos e contra instrumentos que poderiam ampliar a capacidade de defesa das próprias mulheres.
Outro ponto central é a independência econômica.
Mulheres se tornam verdadeiramente livres quando vivem em uma economia dinâmica, com oportunidades de trabalho e crescimento.
Em momentos de crise econômica, são frequentemente as primeiras a perder empregos e as que carregam maior responsabilidade dentro de casa.
Ainda assim, a esquerda insiste em políticas que travam o crescimento econômico, aumentam a rigidez nas relações de trabalho e dificultam a geração de empregos.
Propostas como o fim da escala seis por um, liderada por Erika Hilton, pode parecer popular no discurso, mas ignora os efeitos econômicos que recaem justamente sobre quem tem menos estabilidade no mercado de trabalho. Historicamente, essas são as mulheres.
Transformar a pauta feminina em instrumento de marketing político é uma distorção.
Em um país onde mulheres trabalham duro, enfrentam violência e lidam com desafios econômicos, o debate público deveria ser muito mais sério.
Defender a pauta feminina não pode ser apenas um slogan de campanha ou um rótulo progressista para conquistar aplausos nas redes sociais.
Significa compromisso com segurança, liberdade econômica e punição rigorosa para quem comete crimes contra elas.
Quando essa pauta é reduzida a um símbolo ideológico, quem perde são justamente elas.
O resultado é uma comissão esvaziada de propósito, mais um espaço institucional que pouco contribui para enfrentar os problemas reais das brasileiras.
E, mais uma vez, Erika Hilton não nos representa.
Anne Dias é advogada, mestranda em Ciência Política, comentarista e presidente do Instituto Amplifica
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Instagram: @sigaannedias
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Comentários (1)
Marcos
2026-03-13 13:05:05É UM ESCÁRNIO COM AS MULHERES.