A barbárie diante do indefeso: o caso de Orelha
A crueldade deliberada praticada contra um animal indefeso ultrapassa qualquer margem de erro moral
Há acontecimentos que não podem ser tolerados nem relativizados.
A crueldade deliberada praticada contra um animal indefeso ultrapassa qualquer margem de erro moral. Revela um estágio de decomposição ética que ameaça não apenas a vítima, mas a integridade da própria vida em sociedade.
Arrancar os olhos de um cão, destruir-lhe a face, fazê-lo agonizar por prazer, rir diante do horror e registrar a própria vileza como se fosse troféu: esse tipo de ato não admite eufemismo. É brutalidade em seu estado mais puro, de seres humanos delinquentes e perversos.
A violência contra quem não pode se defender encerra em si a mais baixa expressão do humano. Nada ali é instinto. Tudo é escolha.
Decisão consciente de ferir
O gesto não brota da ignorância, do apelo a um suposto não-saber, a uma ingenuidade qualquer; surge da decisão consciente de ferir o outro por prazer, por vaidade, por jogo.
A criatura torturada não representa ameaça, não disputa território, não interfere em nada. É atingida por ser fraca, por ser acessível, por não ter meios de fuga nem de resistência. Nesse gesto está concentrado o símbolo mais inequívoco da perversão moral.
A sociedade que tolera esse tipo de violência perde o sentido do que importa.
O que importa não depende de altar, nem de rito. Está na carne que sente, no olhar que clama, no corpo que não pode escapar, coagido, sem sequer entender o porquê de passar por tudo aquilo.
O crime cometido contra um cão não diz respeito apenas ao cão, mas a todos que compartilham o espaço com ele. É um sinal. Um traço daquilo que se espalha. Aquilo que hoje é feito com um animal será feito amanhã com alguém que pareça fraco o suficiente.
Juventude
A infância/adolescência, muitas vezes, é usada como escudo. Mas a juventude não anula a capacidade mínima de discernir.
A monstruosidade praticada por mãos jovens não é atenuada pelo frescor da idade. A adolescência é território de formação, e formação exige fronteiras claras.
Permitir a impunidade sob o pretexto de que são apenas jovens é alimentar a serpente que logo deixará de ser discreta.
O gesto que começa com um cão inocente de tudo pode terminar com um ser humano despedaçado. A linha que separa o sadismo do crime maior é mais frágil do que se imagina.
Nenhuma civilização se sustenta sobre a indiferença.
A omissão diante do sofrimento do outro (especialmente do outro que não fala, não revida, não denuncia) é a porta por onde entra o colapso moral. Os que assistem em silêncio colaboram. Os que relativizam participam. Os que hesitam em punir se tornam cúmplices.
A resposta necessária não é educativa. É punitiva.
A justiça, nesses casos, é corretiva. Aquele que infringe a ordem moral dessa maneira precisa sentir o peso da consequência.
Equilíbrio
Não se trata de vingança. Trata-se de equilíbrio, de justa retribuição. A dor que se impôs ao inocente deve pesar sobre quem a causou. Não para restaurar o que foi destruído (porque os olhos não voltam, o trauma não se apaga, a memória do horror não se dissolve, a morte não pode ser desfeita) mas para impedir que isso se torne padrão, repetição, norma.
A banalização da tortura é o passo anterior à normalização da selvageria.
A crueldade, especialmente quando realizada neste grau de infâmia, não tem nada de acidente. É produto de um meio onde a autoridade moral foi abandonada, onde a responsabilidade foi dissolvida em discursos sentimentais, processo educativo doméstico torpe e condescendente.
O animal indefeso não é objeto, não é lixo, não é ferramenta para diversão. É vida. E toda vida que sente, que experimenta medo, dor, angústia, é merecedora de proteção.
O agressor que rompe esse pacto não fere apenas um ser vivo, rompe os alicerces de convivência que tornam possível o próprio mundo humano.
A justiça não deve pedir desculpas por existir. Deve agir, pesadamente. Com firmeza, com clareza, com a consciência de que punir também é proteger.
Um animal foi massacrado sem apelos... como tantos outros, diariamente, neste mundo de seres estranhos, desapiedados, cruentos. Isso basta.
Não há mais nada a discutir.
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