Europa estraga a festa de Lula
Presidente petista passou a se colocar a favor do livre comércio recentemente, mas mudança de última hora pode não render frutos
Ao encaminhar o acordo UE-Mercosul para o Tribunal de Justiça da União Europeia, o Parlamento Europeu estragou a festa do presidente Lula, que pretendia usar isso em sua tentativa de reeleição este ano.
Por 334 votos a favor e 324 contra, os eurodeputados decidiram paralisar o acordo e enviar o texto ao Tribunal de Justiça do bloco, para revisar sua legalidade.
"A diferença por apenas 10 votos revela um Parlamento profundamente fraturado e vulnerável à pressão das ruas, e isso se manifestou de forma contundente nesta semana", diz Márcio Coimbra, CEO da Casa Política e colunista de Crusoé.
A análise deve durar dois anos e não é garantia de que, findo o processo, o Parlamento votará para aprovar o acordo.
E a situação política e econômica mundial ainda poderá mudar bastante até lá, gerando incertezas.
"Na prática, o envio do acordo para o Tribunal da UE representa um congelamento estratégico. Estamos falando de um rito que pode levar dois anos para ser concluído. No dinamismo do comércio internacional, dois anos de espera em um ambiente de incerteza política e pressão protecionista podem ser fatais para o fôlego do acordo", afirma.
Após atritos iniciais com o presidente americano Donald Trump, Lula passou a se colocar como alguém a favor da globalização e do livre comércio, revertendo o seu comportamento protecionista de décadas.
Mas a mudança de última hora do presidente brasileiro poderá não render frutos.
"O que assistimos não foi um avanço diplomático, mas o deslocamento do debate da esfera política para a esfera judicial — um movimento clássico para ganhar tempo diante da falta de consenso. Como ex-diretor da Apex, minha visão crítica se confirma: a prudência não é apenas recomendável, ela é obrigatória. Quem guardou a champagne francesa no gelo agiu com lucidez. Diante dessa nova barreira jurídica e da fragilidade política demonstrada no Parlamento, essa champagne corre o risco de virar gelo antes mesmo de a rolha ser tocada. O país faz bem em não celebrar o que, no fundo, é um adiamento por tempo indeterminado", diz Márcio Coimbra.
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