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Edição Semana 401

Até aqui tudo bem, mas e a aterrissagem?

O diagnóstico aqui é claro: sem mudança de rumo, teremos problemas

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Roberto Ellery
5 minutos de leitura 02.01.2026 03:30 comentários 1
Até aqui tudo bem, mas e a aterrissagem?
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Em uma passagem famosa, Keynes avisa que “no longo prazo estaremos todos mortos” e que, portanto, o longo prazo é um guia enganoso para os assuntos atuais.

O alerta anima há décadas discussões entre economistas e políticos.

Mais do que explorar o conselho keynesiano, quero examinar o contrário: será o curto prazo um bom guia para o longo prazo?

Creio que essa é a pergunta central quando pensamos nas perspectivas da economia brasileira em 2026.

Os indicadores de curto prazo estão, digamos, confortáveis. A inflação segue em trajetória de queda e o mercado espera 4,4% ao fim de 2025, dentro do intervalo da meta.

O desemprego atingiu 5,4% em outubro, o menor da série histórica.

Calcula-se que o PIB tenha crescido cerca de 2,25% em 2025, menos que nos anos anteriores, mas nada desprezível num país de produtividade quase estagnada.

No entanto, quem viu o filme O Ódio (La Haine), de Mathieu Kassovitz, lembra da parábola que abre a obra: um homem cai do 50º andar de um prédio e, a cada andar que passa, repete “até aqui, tudo bem”.

O importante, porém, não é a queda; é a aterrissagem. Os bons números convivem com alertas vermelhos.

A inflação só está domada porque a Selic está em 15%. Por quanto tempo essa taxa é sustentável?

A história brasileira ensina que reduzir juros sem fundamentos fiscais costuma reacender a inflação e exigir, depois, altas ainda mais fortes.

Poucos economistas discordam que o principal fundamento a ser consertado é o fiscal.

Segundo o Tesouro, a dívida bruta deve fechar 2026 em 82,2% do PIB, recorde histórico fora o pico pandêmico de 2020.

Dívida alta pressiona os juros, que por sua vez aceleram a dívida. É uma espiral da qual só se sai com ajuste fiscal sério, exatamente o que o governo Lula já demonstrou não estar disposto a fazer.

Quando perguntam “mas quando isso vai estourar?”, respondo com outra pergunta: "você já perguntou ao seu médico, depois de ouvir que precisa parar de beber, comer doce e fazer exercício, em que ano exatamente virá o infarto?".

Previsão de data é diferente de diagnóstico. O diagnóstico aqui é claro: sem mudança de rumo, teremos problemas.

Os maus hábitos da economia brasileira não se limitam ao problema fiscal. Tem coisa mais séria.

Há décadas a produtividade do Brasil apresenta um crescimento pífio, praticamente estagnada.

Sem produtividade não há crescimento de sustentado de longo prazo, algo que o país precisa desesperadamente.

A literatura indica que má alocação de capital tem um papel relevante para explicar baixa produtividade.

Investimentos ruins prendem capital e trabalho em projetos de baixa produtividade, o retorno às vezes não é suficiente nem para pagar o que foi investido, muito menos dinamizar a economia gerando mais investimentos e mais riqueza.

A experiência brasileira mostra que políticas industriais com base em protecionismo, generosos subsídios e benesses fiscais acabam por direcionar capital e trabalho para projetos de baixa produtividade.

Isso também acontece quando o investimento das estatais é destinado a empreendimentos com mais capacidade de agradar políticos e grupos de interesse do que de gerar ganhos de produtividade ou sociais.

Todos esses “erros do passado” estão sendo repetidos no governo Lula.

Da neoindustrialização à expansão da refinaria Abreu Lima, da crise dos Correios à volta do BNDES estamos vendo um filme que já vimos antes. Não há razão para esperar que desta vez seja diferente.

A deterioração das instituições, ilustrada, por exemplo, no orçamento secreto ou nas relações de ministros do STF com empresários que respondem processos em nossa mais alta corte, também é mal sinal para o crescimento de longo prazo.

Como se o cenário econômico não traga problemas suficientes, temos os desafios da política interna e externa.

Ano de eleições traz incertezas, coisa que o mercado abomina, e é um convite a mais liberalidade fiscal.

O comportamento do mercado sugere que o a expectativa é que o Brasil aguente esperar pelo ajuste até 2027, mas nunca se sabe.

No campo externo a incerteza vem do governo Trump, cujas tarifas e humores podem bagunçar o comércio e os juros globais.

Confesso aqui uma pequena história.

Pedi ao Grok que me ajudasse a lembrar o filme da parábola do homem que cai.

Ele não só achou La Haine como trouxe a frase original: “L’important, c’est pas la chute, c’est l’atterrissage”. Traduzi “atterrissage” como “aterrissagem”. O Grok traduziu como “tombo”. Parece que IA viu mais longe do que eu. Talvez o Brasil até consiga uma aterrissagem controlada, mas, pelo rumo atual, o mais provável é mesmo outro tombo. Resta saber quando.

Roberto Ellery é economista

X: @RobertoElleryJr

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Comentários (1)

Clayton De Souza pontes

2026-01-04 08:20:20

A crise dos Correios é emblemática: precisou de empréstimo de 12 bilhões para ter que precisar de mais 8 bilhões no próximo ano. Se fosse empresa privada estaria falida


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Clayton De Souza pontes

2026-01-04 08:20:20

A crise dos Correios é emblemática: precisou de empréstimo de 12 bilhões para ter que precisar de mais 8 bilhões no próximo ano. Se fosse empresa privada estaria falida



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