6 motivos para "Vale Tudo" não valer nada
Como o que era uma boa novela da TV Globo acabou virando o “filme institucional da ONG”

A estreia da novela “Vale Tudo” foi boa, pois a autora decidiu começar muito fiel ao original.
Mesmo assim, acredito que esse remake será um fracasso.
Falo isso com tristeza, pois torço pelo sucesso.
A TV Globo é uma empresa importante e seria ótimo ter uma novela debatendo o Brasil. Mas não acredito que isso irá acontecer.
O principal erro foi a escolha da autora Manuela Dias.
Em telenovela, o autor é o principal responsável pelo sucesso de uma obra. A escolha da Globo não poderia ter sido pior.
“Vale Tudo” é uma novela que trabalha nos limites éticos da dramaturgia.
Nos dias de hoje, os autores de “Vale Tudo” seriam todos cancelados.
Já, Manuela é a autora mais politicamente correta e woke dos dias atuais.
Ela pode funcionar para obras caretas e didáticas para público segmentado. Mas não é autora certa para fazer “Vale tudo”.
Leia em O Antagonista: Vale Tudo decepciona Globo e estreia com audiência baixa
Dilema global
A Globo de hoje vive um dilema.
Seu público é cada vez mais conservador e a maioria de seus autores são radicais progressistas wokes e identitários.
Essa distância acaba se manifestando em obras lacradoras que afastam o público.
É como se a Globo estivesse usando as novelas para incutir no público conservador as ideias progressistas do Guilherme Boulos.
A partir de 2025, com a crise da ideologia woke nos EUA, essa turma começou a disfarçar a propaganda. Mas eles não enganam mais ninguém.
Em entrevista que a autora deu para a Folha de S. Paulo no fim do ano passado, quando já tinha um terço dos capítulos escritos, ela deixou claro que trabalha para irradiar a ideologia woke.
Sem dizer essa palavra, é claro, pois todo woke legítimo nega a existência da ideologia woke.
Para eles, o wokismo não é uma ideologia, é apenas a verdade absoluta, o bem encarnado.
Ficou claro ainda que ela, como toda ativista de esquerda, prioriza a propaganda ideológica em vez da boa dramaturgia.
Vamos então tomar a liberdade de adentrar no “lugar de fala” dessa autora para entender os caminhos que ela seguirá no “Vale Tudo Woke”.
Agora vou listar 6 motivos para o provável fracasso desse remake:
1) Viver na bolha
Manuela disse que Odete Roitman não vai mais falar tão mal do Brasil. Segundo ela: “Estamos saturados de falar mal do Brasil”.
“Falar que o Brasil é uma porcaria não traz nada hoje em dia”, afirmou.
Eu realmente não sei em que Brasil essa roteirista vive. Ou sei: é a bolha do Leblon.
Um autor deve ser uma antena social do povo. Mas quem vive nessa bolha há 30 anos tem grande dificuldade em entender a mudança de público.
Na Globo antiga , Roberto Marinho (pai) garantia a liberdade de seus autores, até mesmo para falar mal do regime militar.
Hoje a Globo é a TV oficial do sistema e, como funcionária exemplar dessa agência de publicidade governamental, Manoela Dias tem a intenção de minimizar as críticas ao Brasil.
Até daria um bordão bom: “O Brasil tá ótimo. O resto é fake news”.
E nem a vila pode falar mal dele!
2) Medo de ter vilão
Ainda falando de Odete Roitman, Manuela Dias afirma: “O autor também fala através de seus personagens”.
E, por fim: “Eu amo o Brasil, não sou Odete!”.
Ao que tudo indica ela tem dificuldade de entender algo básico para roteiristas: o fato de que o vilão não costuma expressar o ponto de vista do autor.
A dificuldade de construir vilões fortes é uma característica de autores politicamente corretos que têm medo de ser cancelados.
3) Autora ativista
Manuela diz: “Eu também escrevo para mudar o mundo”.
“Vivemos um colapso climático.”
“O novo é encontrar maneiras de transformação.”
Ou seja, de repente “baixou” a comunista Manuela D'ávila na roteirista Manuela Dias.
Se a novela for um fiasco, Manu já pode ser a nova vice do Haddad. Ninguém vai nem perceber a diferença.
Essa postura ativista segue uma nova tendência na Globo: os autores que parecem — e muitas vezes são mesmo — donos de ONGs wokes.
4) Superioridade moral
“A geração da Fátima não lida bem com a desigualdade”. É o que diz a roteirista "desperta" (woke), quase iluminada.
Aqui, ela revela outra matriz de pensamento woke: a superioridade moral, o monopólio da virtude.
O que ela diz poderia ser traduzido como: “minha geração lida bem com a desigualdade, pois somos politicamente corretos e temos compaixão pelos excluídos”.
Desde, é claro, que o excluído seja de esquerda. Pois se for de direita é fascista.
Essa sensação permanente de superioridade moral em relação aos coroas é outra característica dos wokes.
Afinal, os wokes são os despertos e os velhos são todos machistas, racistas, feios e chatos.
Sem contar que os coroas fascistas comem carne (e ela, eu posso apostar, é vegetariana), em vez de comer orgânicos para fugir do agronegócio.
Arrogância moral é o pior pecado que um roteirista pode cometer.
Pois assim ele deixa de ser artista, deixa de entender as pessoas e se torna um pregador de sua ideologia.
5) Falta de noção
Viver na bolha e se sentir superior faz qualquer um perder a noção.
Isso fica claro quando a autora explica que, para fazer uma eco-lacração, botou consciência ecológica em Afonso, o rico que agora será eco-woke.
Segunda a autora, o personagem não vai mais andar tanto de jato particular e vai ser ligado à “governança ambiental”.
Ufa.
Finalmente alguém decidiu alertar o povo brasileiro para nós pararmos de andar tanto de jatinho particular.
Eu mesmo, só de ler a entrevista, tomei consciência na hora e decidi só usar meu jatinho aos sábados.
Ufa.
Agora vamos salvar o planeta.
O público vai adorar essa campanha de consciência ecológica: menos jatinhos gente! Menos jatinhos!
6) Lacração em vez de drama
Para Manu, a personagem de Heleninha bebia “pois era uma pinguça que bebia pois tinha vontade”.
Essa frase mostra que a autora não entendeu a personagem e nem a reação do público da novela original.
Como todo woke que tem preconceito com o passado, Manu parece acreditar que o público antigo era um bando de sádicos inconscientes, que riam da desgraça alheia por simples maldade.
A roteirista não entende como a personagem de Heleninha despertou a consciência real do problema do alcoolismo.
E, como ela quer ser autora bem politicamente correta, ajudar a “causa” e ganhar prêmios de ativista, ela vai tratar o alcoolismo de Helena Roitman de outra forma, evitando a possibilidade de “parecer cômico”
Essa é outra característica de autores politicamente corretos: eles não entenderam Nelson Rodrigues.
Não conseguem mais fazer cenas chocantes, pois não entendem como funciona uma tragédia e, em particular, uma tragicomédia, gênero de grande sucesso no Brasil.
O público, nesse gênero, alterna entre o riso e o desespero.
Podemos rir de Heleninha, mas logo em seguida a cena nos entristece e nos faz refletir.
Os wokes têm medo de misturas em geral e, em arte, evitam a mistura de gêneros.
Por isso, odeiam a tragicomédia e, como toda ideologia puritana, abordam os problemas sociais como drama social didático.
Resumindo, o que era uma boa novela, vira o “filme institucional da ONG”.
O que era uma cena forte que despertava emoções diversas e catalisava acirrados debates públicos, vira uma cena institucional lacradora dando lições que todos concordamos.
Branca de neve
Concluindo. Manuela foi escolhida pois ela vai fazer com “Vale Tudo” o que a Disney fez com “Branca de Neve”: uma releitura de um clássico para os valores wokes.
Vivemos um mundo do 1984 de George Orwell, em que o sistema quer reescrever o passado para se adequar aos valores que eles querem impor ao povo.
O problema dessa aposta é que é impossível ter um “Vale Tudo woke”.
Pois “Vale tudo” era livre e o wokismo, ao contrário, é um mundo cheio de regras.
Esse “Woke Tudo” dificilmente conquistará o público e, se não tomar cuidado, não vai valer nada.
Newton Cannito é autor roteirista. Para a Globo fez Cidade dos Homens e a novela Joia Rara. Já ganhou o Emmy, APCA, Premio ABRA e Contigo. É presidente da Artistas Livres.
Assista ao Papo Antagonista com Newton Cannito:
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Comentários (4)
MARCOS
2025-04-03 09:46:03A MIM DESPERTA A PENA DESSES COMUNISTAS WOKISTAS. TADINHOS, SÃO TÃO ILUDIDOS PELOS CANALHAS COMUNISTAS QUE NÃO CONSEGUEM ACORDAR PARA A REALIDADE. A ELES EU SUGIRO: VÃO MORAR EM CUBA OU NO AFGANISTÃO, OU IRÃ, OU VENEZUELA. VÃO JÁ E NÃO VOLTEM.
Fachineli Comunicação Ltda.
2025-04-02 20:25:33O "wokismo" não se sustenta em lugar nenhum!
Guilherme Rios Oliveira
2025-04-02 15:20:33Parabéns pela análise!!!
JOAN
2025-04-02 14:24:55Análise perfeita. Faltou pedi música no "fantártico"!