O Corinthians é antifrágil?
Time do Parque São Jorge foi o que se saiu melhor, pelo menos nos títulos, entre todos os gigantes do futebol brasileiro entregues à desordem
Nassim Nicholas Taleb define como antifrágil tudo aquilo que se beneficia com a desordem e o caos. O sistema imunológico, por exemplo, se fortalece diante de provações, e os músculos se desenvolvem quando estressados.
"Fundamentalmente, se a antifragilidade é uma propriedade de todos os sistemas naturais (e complexos) que sobreviveram, privá-los de volatilidade, aleatoriedade e fatores de estresse os prejudicará. Eles enfraquecerão, morrerão ou entrarão em colapso. Temos fragilizado a economia, nossa saúde, a vida política, a educação, quase tudo… suprimindo a aleatoriedade e a volatilidade… e os fatores de estresse”, diz Taleb em Antifrágil: Coisas que se Beneficiam com o Caos (Objetiva).
Segundo ele, "grande parte do nosso mundo moderno e estruturado tem nos prejudicado com políticas e mecanismos impostos de cima para baixo que fazem exatamente isso: um insulto à antifragilidade dos sistemas” e "esta é a tragédia da modernidade: assim como acontece com pais neuroticamente superprotetores, aqueles que tentam ajudar muitas vezes são os que mais nos prejudicam”.
Campeão dos campeões
O Corinthians passou por uma de suas maiores crises em 2025, com a deposição de um presidente por impeachment em meio a investigações da Polícia Federal. Mesmo assim, o clube conseguiu levantar duas taças, a do Campeonato Paulista, contra o Palmeiras, seu maior rival, e a Copa do Brasil, contra o Vasco, fechando a temporada brasileira.
O clube do Parque São Jorge foi o que se saiu melhor, pelo menos no que diz respeito aos títulos, entre todos os gigantes do futebol brasileiro que, a exemplo do time de Memphis Depay e Garro, atravessam um momento de desordem total.
O São Paulo, outrora referência do futebol nacional, flerta com o impeachment do presidente Júlio Casares. O dirigente tenta sanear as contas do clube, mas frustrou a torcida na temporada passada ao dar a ideia de que seria possível brigar por títulos apertando os cintos, e agora virou alvo de investigação sobre desvios em vendas de jogadores.
Tradição e glórias mil
O Vasco, derrotado pelo Corinthians na final da Copa do Brasil, ainda busca um comprador para sua SAF após o fracasso da 777 e, mesmo em processo de recuperação judicial, seguiu contratando para reforçar o time na temporada passada.
Internacional e Atlético-MG são outros que terminaram o ano flertando com o rebaixamento no Campeonato Brasileiro e também enfrentam problemas financeiros, cada um ao seu modo.
O Botafogo, que parecia ter resolvido a vida com John Textor, também navega em meio a incertezas pela briga do americano com os sócios, e os problemas de caixa levaram a um transfer ban, por causa da falta de pagamento pela compra de Thiago Almada.
Salve o Corinthians
Aliás, o outro clube grande do Brasil que está proibido de fazer transferências no momento é o… Corinthians. O principal segredo do sucesso do clube na temporada passada foi ser ainda mais irresponsável que seus adversários, gastando o que não tem e pedalando dívidas.
Isso já tinha ocorrido em 2024, quando os corintianos se salvaram do rebaixamento na reta final do Brasileirão e viram cair o Cuiabá, para quem o Corinthians ainda deve pela contratação do volante Raniele — o clube pagou parcela atrasada nesta semana para se livrar de um transfer ban nacional, mas o transfer ban da Fifa segue em vigor, por causa da compra do zagueiro Félix Torres.
O Corinthians é hoje o time mais endividado do Brasil.
O clube mais brasileiro
Não se pode dizer, portanto, que a desordem fortaleceu o clube, a ponto de equipará-lo a Flamengo e Palmeiras do ponto de vista da gestão e da organização financeira. Longe disso.
O Corinthians apenas cavou mais fundo o buraco no qual se meteu, e que levou a Caixa Econômica Federal a bloquear metade do prêmio de 77 milhões de reais da Copa do Brasil, para pagar parte da dívida da Arena Corinthians, hoje Neo Química Arena.
“A antifragilidade vai além da resiliência ou da robustez. O resiliente resiste aos choques e permanece o mesmo; o antifrágil melhora”, diz Taleb.
Não é possível dizer que o Corinthians está melhorando, por melhor que pareça dentro de campo.
Rodolfo Borges é jornalista
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