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O título desta coletânea de artigos escritos para a revista Crusoé — "Me odeie pelos motivos certos” — é o mesmo de um dos textos incluídos no livro. Ele tenta dar conta do Zeitgeist atual em relação à imprensa. O espírito de época apresenta-se, mais do que nunca, hostil ao jornalismo no Ocidente e adjacências (o Brasil é uma dessas adjacências). A culpa, para variar, é também da imprensa. Ela paga o preço da progressiva ideologização das redações, processo que, por aqui, se acentuou bastante desde a entrada em cena do Partido dos Trabalhadores, há quarenta anos.

Se a operação ideológica no noticiário passou a ficar clara, do outro lado do balcão, o dos leitores, a situação é nublada e sujeita a pancadarias. Muitos são levados a acreditar que tudo o que a imprensa publica é fruto de visão deturpada ou opinião indevida — e, assim, dão vazão aos instintos mais primitivos em relação a jornalistas. Trata-se de erro tão perigoso quanto crer piamente em interpretações ideológicas publicadas em jornais como se fossem notícia pura. Fato é fato, saibamos reconhecê-los, e acreditar em desmentidos oficiais como se fossem sempre expressão da verdade é fechar olhos, tapar ouvidos e engolir qualquer balela que tentam nos enfiar goela abaixo. Trata-se igualmente de operação ideológica, só que com sinal trocado.

Talvez seja uma imprudência publicar neste momento uma coletânea de artigos. É a segunda vez que a cometo. A primeira, lançada em 2016 pela editora Record, trazia textos veiculados em newsletters de O Antagonista, quando o batalhão anti-imprensa já começava a encorpar-se. A imprudência é dupla, visto que artigos jornalísticos são, na essência, mercadoria extremamente perecível. Se o jornalismo é o primeiro rascunho da história, frase que ganhou fama na década de 50 do século passado graças ao americano Phil Graham, então publisher do Washington Post, o artigo e a crônica não passam de notas de rodapé garatujadas. São rascunhos de rascunhos. Com isso, quero dizer que, uma vez relidas a alguns anos de distância, elas invariavelmente se revelam ainda mais inexatas, incompletas ou inteiramente erradas na leitura da realidade imediata e nas suas projeções.

Por que, então, publicar em livro o que tem data de validade tão estreita quanto a de um laticínio, do ponto de vista histórico? Deixando de lado a vaidade autoral, componente inextirpável de jornalistas e escritores, variando só no grau, artigos e crônicas ajudam a compor o Zeitgeist a ser estudado lá adiante, nem que seja como parte do pó que encardiu a moldura do quadro. Em resumo, se tudo der certo e no futuro houver um ou dois leitores para os artigos aqui reunidos, esses seres extremamente pacientes poderão me odiar pelos motivos certos.

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