Sem combustível, crise cubana se aprofunda
Sem petróleo de Venezuela e México, Cuba enfrenta racionamento, transporte reduzido e impacto no turismo em plena alta temporada
A longa fila de carros diante de um posto em Havana virou rotina nas últimas semanas. O país passou janeiro inteiro sem receber petróleo importado, algo que não ocorria há uma década, depois que o México suspendeu os embarques que haviam substituído parte do fornecimento venezuelano.
A interrupção ocorreu num momento em que Washington aumentou a pressão sobre parceiros de Havana e ameaçou impor tarifas a países que mantivessem vendas de petróleo e derivados para a ilha.
A Venezuela já havia parado de enviar cargas após o bloqueio a navios ligados ao seu setor petrolífero, e o México decidiu recuar para evitar represálias comerciais.
Sem combustível, a crise passou a aparecer no cotidiano. Há racionamento, redução do transporte público e cortes frequentes de eletricidade, enquanto hospitais e serviços básicos operam com limitações.
O turismo, uma das principais fontes de moeda estrangeira, também foi atingido. Autoridades informaram companhias aéreas que não poderiam abastecer aeronaves, levando a Air Canada a suspender todos os voos para a ilha e deixando milhares de viajantes afetados.
Outras empresas passaram a estudar escalas técnicas em países vizinhos para continuar operando, enquanto hotéis foram temporariamente fechados, concentrando os hóspedes em menos estabelecimentos para poupar energia.
Essa falta de combustível aprofunda um problema estrutural. Historicamente a produção interna não cobre a demanda e o sistema elétrico depende de óleo combustível importado para gerar eletricidade. Com reservas estimadas para poucas semanas, autoridades reduziram jornadas de trabalho e interromperam atividades universitárias.
Economistas veem o episódio como um choque externo clássico. A economia cubana se organizou durante anos ao redor de acordos políticos de fornecimento subsidiado, primeiro com a União Soviética e depois com Caracas.
A retirada quase simultânea desses apoios deixa o país exposto ao mercado internacional, como falamos aqui, justamente quando tem pouca capacidade de pagamento e acesso limitado a crédito.
A intenção política por trás dessa realidade é clara. Donald Trump declarou interesse em mudanças no regime, enquanto Havana afirma estar aberta a diálogo, mas desde que sem condições prévias.
O resultado imediato são apagões, transporte irregular e escassez de combustíveis, que passaram a organizar o ritmo diário da ilha e tornaram a energia o principal tema econômico e social do país, que poderá se ver novamente envolto em ondas de protestos.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)