Por que as negociações entre Warner e Netflix terminaram
A possível união entre Warner e Paramount pode mudar o streaming, o cinema e estimular uma nova onda de fusões no setor de mídia
Quando a Netflix comunicou que não continuaria a negociação com a Warner Bros. Discovery, o efeito não foi apenas encerrar um acordo. A decisão mudou o formato possível do setor de entretenimento nos Estados Unidos.
Em vez de transformar a Warner em grande fornecedora de conteúdo para uma plataforma já dominante, foi aberto o caminho para a formação de um novo conglomerado de mídia.
As conversas vinham ocorrendo há meses. A proposta discutida com a Netflix previa a aquisição do catálogo, dos estúdios, coproduções e distribuição preferencial na própria plataforma. A estrutura do acordo reduziria o controle da Warner sobre a distribuição futura, podendo trazer perda de autonomia criativa e dificuldade futura para vender direitos esportivos, filmes para cinema e programação a operadoras de TV. O acordo tornaria a principal distribuição dependente de uma única vitrine.
Segundo pessoas envolvidas nas discussões, ouvidas pela imprensa, o conselho estava ciente desse risco. O grupo avaliou que, embora o pagamento inicial fosse alto, a receita recorrente ficaria concentrada na Netflix e diminuiria a capacidade de negociação da Warner em contratos posteriores. Preço menor das ações e maior risco de ter problemas com as leis antitruste também pesaram na decisão.
As conversas chegaram ao ponto de incluir cláusula de multa de 2,8 bilhões de dólares caso a Warner desistisse. A Paramount aceitou estruturar a proposta assumindo esse custo, o que facilitou a mudança de direção. A plataforma de streaming optou por não cobrir a nova oferta e encerrou a participação.
A operação apoiada pela Skydance produziria uma empresa muito diferente da que surgiria com a Netflix. Em vez de centralizar a distribuição digital, a combinação Warner-Paramount formaria um conglomerado com cinema, televisão aberta, canais pagos, esportes e streaming simultaneamente.
Se a operação avançar, o streaming passará a concentrar as principais decisões estratégicas do grupo. HBO Max e Paramount+ podem continuar existindo separadamente, mas disputando o mesmo assinante, ou no futuro dar lugar a uma oferta única que reúna o catálogo e os lançamentos sob uma só plataforma.
Com isso, enxergam-se três efeitos diretos. Primeiro, ganho de escala para negociar direitos esportivos e eventos ao vivo, área ainda dominada por grandes grupos. Segundo, aumento do poder de barganha com operadoras de TV e anunciantes. Terceiro, redução de custos com produção duplicada de séries e filmes.
Por outro lado, como Paramount e Warner Bros deixam de ser rivais, poderia haver um enxugamento de novas produções de séries e filmes, reduzindo custos e para que um estúdio não concorra diretamente com o projeto do outro, canibalizando resultados.
David Zaslav, presidente da Warner Bros. Discovery, afirmou a investidores que deseja boa relação com a Netflix, mas prefere a proposta da Paramount. A leitura é que o streaming isolado deixou de ser suficiente para sustentar investimentos crescentes em conteúdo. A nova estrutura tenta equilibrar bilheteria de cinema, publicidade e assinaturas digitais.
Caso a integração de fato ocorra, estúdios médios e redes de TV podem ser estimulados a buscar parcerias ou fusões semelhantes para evitar competir sozinhos contra empresas de tecnologia com caixa muito maior.
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