Os parabéns da Onu ao Irã
Mensagem de rotina enviada pela ONU ao Irã num momento geopoliticamente delicado gera repercussão negativa
Ao parabenizar o governo iraniano pelo 47º aniversário da Revolução Islâmica de 1979, o secretário-geral da ONU, António Guterres, produziu um efeito político que a organização costuma tentar evitar.
A carta enviada privadamente ao presidente Masoud Pezeshkian e divulgada publicamente pela agência estatal IRNA foi redigida como mensagem de rotina, protocolar, mas apareceu em um cenário de guerra regional e acusações diretas contra Teerã.
O conteúdo era previsível. Desejos de prosperidade, cooperação e diálogo. O problema não foi a fórmula diplomática, e sim o destinatário e o momento. O Irã é acusado há anos por financiar e armar o grupo terrorista Hamas.
Há ainda farto histórico de apoio logístico iraniano a milícias igualmente terroristas na Síria, no Iraque, além do Hezbollah no Líbano e dos Houthis no Iêmen. Dentro do próprio Irã, organizações de direitos humanos relatam prisões, tortura, repressão e denúncias demais de 6 mil de mortes de cidadãos nos protestos que ocorrem desde 2022 e que ganharam força no começo de 2026.
A divulgação pública da carta pelo governo iraniano a transformou em instrumento político. Autoridades israelenses e parlamentares europeus passaram a tratar o gesto como uma legitimação indireta do regime. Comentários em jornais britânicos e israelenses seguiram na mesma linha.
A mensagem deixou de ser comunicação diplomática e virou peça de propaganda para um governo que enfrenta embargos econômicos, isolamento internacional e a pressão crescente dos Estados Unidos por um acordo nuclear mais abrangente, com o risco de uma escalada militar no horizonte.
Nessa semana, o presidente Masoud Pezeshkian emitiu um pedido público de desculpas ao povo iraniano pela repressão violenta aos protestos recentes, mas não reconheceu o papel das forças de segurança iranianas no derramamento de sangue nem se comprometeu a não repetir o morticínio caso os protestos voltem às ruas.
Acuada, a ONU respondeu que envia notas semelhantes a todos os Estados-membros. O argumento é correto, mas politicamente frágil. Protocolos funcionam enquanto são invisíveis. Quando se tornam manchete, passam a carregar outro significado.
A neutralidade institucional depende não apenas do que a organização faz, mas do modo como seus atos são percebidos em meio a conflitos.
É fato que a ONU precisa manter canais abertos com todos os governos que a integram, inclusive os que critica, para negociar libertação de presos, acesso humanitário e temas nucleares, só que qualquer gesto simbólico pode ser explorado por uma das partes como reconhecimento político. Foi o caso.
As rotinas diplomáticas perderam a proteção do silêncio burocrático. A carta mostrou que, hoje, até um cumprimento oficial pode produzir consequências estratégicas e levar a questionamentos sobre a autoridade moral da própria instituição. Não teria sido melhor, ao menos agora, o silêncio?
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