Thiago Lontra/Alerj

‘Ofereceram tudo o que você possa imaginar’, diz presidente da Alerj sobre esforço de Witzel contra impeachment

01.08.20 14:33

Nas últimas semanas, o ex-juiz Wilson Witzel tem se movimentado para tentar se manter no cargo de governador do Rio de Janeiro em meio ao processo de impeachment na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, no qual é acusado de crime de responsabilidade por possíveis irregularidades na contratação de empresas para ações de enfrentamento ao coronavírus. De um lado, na Justiça, ele tenta travar o andamento do processo com recursos às cortes superiores.

Na segunda-feira, 27, Witzel conseguiu uma vitória: o ministro Dias Toffoli mandou a Alerj dissolver a comissão responsável por julgar o governador. No campo político, além de escancarar as portas do governo para indicações de apadrinhados de deputados, Witzel renomeou o experiente ex-deputado André Moura para a Casa Civil, com a tarefa de conduzir a articulação política e engajar uma base capaz de barrar seu afastamento do cargo. Moura havia sido exonerado em maio, dois dias depois de Witzel ser alvo de busca da Polícia Federal na Operação Placebo, que investiga os repasses de uma empresa que seria ligada ao empresário Mário Peixoto para o escritório da primeira-dama, Helena Witzel, .

O presidente da Alerj, o deputado petista André Ceciliano, responsável por colocar o pedido de cassação em votação, acredita que o retorno de Moura à arena política “não resolverá o problema do impeachment”. Ceciliano afirma que Witzel vem reproduzindo no estado o que o presidente Jair Bolsonaro tem feito no plano nacional: “oferecendo tudo o que se possa imaginar”. Mas, de acordo com ele, ao menos no Rio o toma-lá-da-cá não deve surtir efeito. “Não conseguiram nada. Até hoje o governo não tem um líder aqui. Precisa ter confiança e credibilidade”. Previsões dessa natureza, no entanto, exigem cautela. O próprio Ceciliano reconhece que as votações na Assembleia são marcadas pelo imponderável. “Votação é votação, não tem como prever”, admite.

Apesar de falar sobre a necessidade de o governo ter “credibilidade”, a casa, no geral, não tem sido digna de crédito nos últimos tempos. O próprio Ceciliano é um dos personagens do famoso relatório do Conselho de Controle da Atividade Financeira, o Coaf, que mostrou como assessores de 22 gabinetes movimentaram milhões de maneira atípica seguindo um padrão característico do esquema de “rachid”, que está na origem do caso Fabrício Queiroz. Hoje, assim como o senador Flávio Bolsonaro, ex-chefe de Queiroz, o petista é alvo de uma  investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro. Dois de seus assessores movimentaram 49 milhões de reais. O deputado falou a Crusoé. A seguir, os principais trechos da conversa.

O Rio de Janeiro teve cinco ex-governadores envolvidos em escândalos. Teremos agora um impeachment?
Nós recebemos 14 pedidos de impeachment, onze contra o governador e três contra secretários. É uma coisa nova para o Rio de Janeiro. Estamos assegurando o direito de defesa do governador, fizemos um rito e criamos um critério com base na lei, que diz que a comissão tem que ter no mínimo um representante de cada partido. Foi o que fizemos. Temos 25 partidos e colocamos um de cada na comissão. Tem um questionamento jurídico, ganhamos no Tribunal de Justiça e agora veio essa liminar do STF. Vamos recorrer.

Os problemas do Witzel começaram quando ele declarou intenção de ser presidente?
Dizem que, antes da posse, ele já falava (em ser candidato à Presidência). Nós temos uma relação boa aqui. De 2019 para 2020 aprovamos emenda para que ele pudesse movimentar 1,5 bilhão de reais de fundos estaduais e aprovamos a mudança no fundo de combate à pobreza que rendeu mais 1,1 bilhão para o governo. A Assembleia viveu no olho do furacão em 2017 e 2018, mas sempre fez seu papel, com suas virtudes e defeitos.

A relação dele com a Alerj degringolou quando?
O governador, brinco, não é do ramo. Uma vez eleito, tinha todas as chances do mundo, poderia ter feito diferença. Mas essa coisa da candidatura em 2022 atrapalhou muito. O governo não tem uma marca. O que o governo tem que fazer para evitar o impeachment? Gestão, governar. Tivemos uma crise séria em 2019. Um secretário de estado mandou para o líder do governo um cachorrinho defecando. Nunca se deu atenção ao Parlamento. Precisa ter diálogo.

Ainda há tempo para Witzel reverter a situação e evitar o impeachment?
Em junho, quando tivemos um embate, foi 58 a zero. Nós votamos o fim de um decreto que deu benefício para empresas instaladas aqui, e o governo teve 4 votos. O governo nunca cuidou nem das pessoas próximas do governador. Ele nunca teve uma base.

Ele renomeou agora o ex-deputado André Moura para a articulação e abriu espaço para indicações políticas no governo. Isso resolve?
O governo fez um movimento ao empoderar ainda mais o Lucas Tristão (ex-secretário de Desenvolvimento Econômico). Tristão chegou a dizer que comprar deputado era igual comprar jujuba na esquina. Ele tentou montar uma base. Ofereceram tudo que o você possa imaginar. Secretarias das mais diversas, órgãos do governo, e não conseguiram nada. Até hoje o governo não tem um líder aqui. Precisa ter confiança e credibilidade. Votação é votação, não tem como prever. Agora, o André Moura abre possibilidade de diálogo, melhora o relacionamento dos últimos meses, mas não resolve o problema do impeachment, na minha opinião.

A Alerj nos últimos anos se viu envolvida em vários escândalos e dez deputados foram presos. Isso não passa para a sociedade a impressão de que ela também é parte do problema?
Esse fenômeno é nacional, não é só no Rio de Janeiro. Os políticos chegaram ao fundo do poço. E daí não adianta ser de direita ou esquerda. O senso comum é o de que todos são iguais. Nós tivemos problemas em 2017, em 2018. Eu não fujo do problema. Por isso, a Assembleia teve renovação de 50% na eleição de 2018. Temos virtudes e mazelas.

Em outubro de 2019, a Alerj decidiu soltar cinco deputados que ainda estavam presos desde as operações Cadeia Velha e Furna da Onça. Atitudes como essas não transmitem uma mensagem inversa?
A Constituição diz que a Assembleia tem que ser consultada. Foi um ano de prisão e nenhum deles (os deputados) foi ouvido. Veio a decisão da ministra Cármen Lúcia mandando a Alerj votar se soltava ou não os cinco. Nós votamos.

O sr. é investigado por suspeita de “rachid”. Dois assessores do senhor são os que mais movimentaram dinheiro, segundo a investigação. No seu gabinete existia o esquema?
Imagina se o filho de um banqueiro estivesse no gabinete meu e de outro deputado e movimentasse milhões em suas contas. Eu, como deputado, não posso responder sobre o CPF e o CNPJ do assessor, se são 46 ou 49 milhões de reais. O que posso dizer é que no meu gabinete não tem rachadinha.

Esses dois assessores seus têm negócios fora do gabinete?
Sim, claro. Mas não tem depósito com habitualidade para o outro, não tem saque em dinheiro.

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  1. Vocês não perdem a oportunidade de pôr o nome do bolsonaro no meio de qualquer reportagem estão igualzinho a Globo lixo.. Não comparar o presidente com esse lixo de Governador? Cada vez mais baixos e mais rasos

  2. Serapião, toma vergonha na cara. Ceciliano afirma que o Witzel vem reproduzindo no estado.... o resto é da sua cabeça. Uma coisa é oferecer cargos com critérios puramente técnicos, outra é oferecer para poder roubar a vontade. Imbecil.

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