A decisão recente do governo dos Estados Unidos de endurecer as sanções ligadas ao fornecimento de petróleo a Cuba começa a mostrar seus efeitos potenciais sobre a economia da ilha e sobre a dinâmica regional.
A ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump, com participação direta do secretário de Estado Marco Rubio, filho de cubanos expatriados, atua sobre um dos pontos mais vulneráveis do país presidido por Miguel Díaz-Canel, herdeiro direto do clã Castro.
Cuba já convivia com limitações severas no acesso a combustíveis antes mesmo do anúncio. Apagões frequentes, dificuldades no transporte e gargalos na produção industrial faziam parte do cotidiano desde que a Venezuela foi impedida de fornecer petróleo à ilha. Ao reforçar punições a empresas e intermediários envolvidos no transporte de petróleo, Washington aumenta o risco para quem mantém esse tipo de relação comercial com Havana.
Diante dessa realidade, o recuo do México, que vinha se consolidando como um fornecedor importante de petróleo para a ilha, foi mais uma vitória para a estratégia de Trump. A pressão exercida pelos Estados Unidos sobre o governo mexicano reduz o já limitado espaço de manobra de Cuba e enfraquece um canal que ajudava a mitigar a crise energética.
A consequência mais imediata tende a ser um ambiente ainda mais instável no setor elétrico, com impacto direto sobre serviços básicos e por consequência sobre a atividade econômica.
No plano político, a estratégia americana aposta no desgaste interno. Menos energia significa menor capacidade de resposta do Estado cubano em áreas sensíveis, o que pode aumentar o descontentamento social.
As ramificações dessa seca são várias. Menos combustível reduz a geração nas termelétricas movidas a diesel, aumenta apagões e limita a previsibilidade do fornecimento. Isso afeta desde iluminação pública até o funcionamento de prédios estatais, escolas e repartições.
Hospitais dependem de energia contínua para equipamentos, conservação de medicamentos e funcionamento de centros cirúrgicos. Geradores aliviam parte do problema, mas também exigem diesel, que fica mais caro e mais escasso quando o petróleo falta. A logística urbana, ônibus e trens dependem diretamente de combustíveis. Com menos oferta, o governo precisa racionar, o que reduz circulação de trabalhadores, afeta empresas, frequência escolar e limita o acesso a serviços.
A produção e a distribuição de alimentos também entram nesse aperto. Energia é necessária para irrigação, processamento, refrigeração e transporte. Falhas nessa cadeia se traduzem em menor oferta e mais filas. E há o abastecimento de água. Bombas elétricas são essenciais para sua captação e distribuição. Em períodos de cortes prolongados, bairros inteiros ficam sem água por horas ou dias, aumentando problemas sanitários.
Por fim, a comunicação e os serviços digitais. Redes de telecomunicações, internet e sistemas administrativos do Estado dependem de eletricidade estável. Interrupções frequentes reduzem a capacidade de coordenação do governo e dificultam respostas rápidas a crises.
Mesmo com o cerco dos Estados Unidos, Cuba ainda consegue comprar combustível. Só que agora o país depende de fornecedores dispostos a assumir esse risco político, de tradings independentes com operações nebulosas, de compras indiretas via terceiros ou de trocas não financeiras.
Pelo maior risco que essas empresas correm, elas cobram mais caro e costumam disponibilizar volumes menores, e cada carregamento se torna mais incerto, o que impede fluxos regulares e dificulta qualquer planejamento energético de médio prazo.
Os países que mantêm algum grau de cooperação com Cuba enfrentam escolhas difíceis entre preservar relações regionais e evitar retaliações de Washington. O resultado provável é um isolamento energético maior da ilha, com efeitos diretos na vida cotidiana da população cubana e crescimento da insatisfação com o governo, justamente o que Trump parece querer.
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