Flávio, a eleição e os limites da contestação
Não reconhecer o resultado implica em sérios riscos para o candidato, mas pode ser uma escolha justificável a depender do objetivo
O candidato derrotado à Presidência, Flávio Bolsonaro (foto), afirmou que entrará na Justiça pedindo a anulação da eleição do domingo, 25, depois da decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin de estender em duas horas o horário de votação.
"Um ministro da Suprema Corte, pela primeira vez na história, ex-advogado do Lula, dá uma canetada, a pedido de um ex-sócio dele, e muda a regra do jogo no meio do jogo", disse Flávio depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarar a vitória de Lula.
"É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram. Nós vamos usar o nosso jurídico e vamos pedir a anulação dessas eleições. Não vou aceitar que a regra do jogo tenha sido mudada em cima do jogo mais uma vez pelos amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal", afirmou.
Não reconhecer o resultado de um processo eleitoral implica em sérios riscos para o candidato, mas pode ser uma escolha justificável a depender do objetivo.
Derrota para FHC
Não legitimar um resultado eleitoral pode manchar uma carreira política.
Quando Lula foi derrotado para Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno, em 1994, o petista disse que o futuro presidente teria a credibilidade diminuída por causa das denúncias de fraude eleitoral.
Ele afirmou que o processo eleitoral seria "legal, mas ilegítimo", mas ressaltou que "o PT pode até contestar, até discordar, mas o PT aceita o processo eleitoral".
Esse comportamento de Lula, por muitos anos, fez com que ele fosse visto com alguém com pouco apreço pela democracia.
A resistência da população em relação a ele só diminuiu em 2002, quando Lula concorreu ao Palácio do Planalto com a ajuda do marqueteiro Duda Mendonça.
Aécio Neves
Em 2014, o tucano Aécio Neves reconheceu a derrota e telefonou para Dilma Rousseff para parabenizá-la pela vitória.
Mas, naquele ano, o PSDB protocolou no TSE um pedido de auditoria especial no sistema de urnas eletrônicas para verificar a lisura do processo.
Até hoje, Aécio é criticado por ter semado descrença no processo democrático.
Eleições de 2026
Flávio corre o mesmo risco de ganhar a pecha de antidemocrático com a atitude de pedir a anulação das eleições.
Ele fez ilações sem sentido sobre o processo eleitoral.
"Os nossos fiscais do PL [Partido Liberal] foram retirados de dentro da sala-cofre a partir do momento em que essa eleição foi tomada. Então tem muita coisa para ser esclarecida antes de o Brasil simplesmente reconhecer essa sacanagem que aconteceu nestas eleições", afirmou Flávio.
O TSE desmentiu a informação ainda na noite de domingo.
“Neste domingo, dois fiscais do PL estiveram no TSE para acompanhar o Teste de Integridade das Urnas, realizado no subsolo do prédio, e a totalização e divulgação dos resultados, na Sala de Totalização. Também visitaram a Sala dos Partidos Políticos, no 5º andar”, afirmou a Corte.
O TSE ainda declarou que “há registro de presença nos locais visitados, além de filmagem na Sala de Totalização, que comprovam o acesso livre dos fiscais às unidades”.
Flávio não precisava apontar fraudes que não existiram.
STF
Mas há um ponto em que Flávio tem razão, quando acusa os "amigos do Lula no Supremo Tribunal Federal" de interferência indevida nas eleições.
"Às 17h01, o ministro Zanin, que não faz parte do Tribunal Superior Eleitoral, atropelando a Justiça especializada, toma uma decisão prorrogando por duas horas as eleições. Isso nunca tinha acontecido na história do Brasil. Houve uma quebra total de isonomia entre os brasileiros de diversas cidades e diferentes estados", afirmou o senador.
A ação de Zanin não alterou o resultado final.
O TSE calcula que 5 mil pessoas tenham votado depois das 17h em todo o país. É um número insignificante comparado à vantagem de 4,4 milhões de votos de Lula.
Mas é fato que houve interferência indevida dos ministros do STF no processo eleitoral.
A decisão de Zanin pode ser vista como uma tentativa de reduzir o absenteísmo, para beneficiar Lula.
No primeiro turno, Gilmar Mendes ordenou a inclusão de Renan Santos no debate na Globo, criando problemas para Flávio, que desistiu do debate.
Flávio Dino fez o que pôde para manter no ar uma fake news contra Flávio Bolsonaro, que dizia que ele pretendia retirar o título de padroeira de Nossa Senhora Aparecida.
O senador Flávio, portanto, tem todo o direito de questionar as ações do Judiciário para beneficiar o seu rival.
Mais do que um direito, é praticamente um dever. Quando critica os aliados de Lula no STF, ele defende a democracia e a separação de Poderes.
Por causa deles, as eleições brasileiras ficarão sob suspeita por muito tempo ainda.
Mas não há motivos para apontar fraudes.
Ele poderia ter telefonado para Lula e, ainda assim, ter criticado as ações do STF.
O desafio de Flávio no domingo foi, no calor do momento, encontrar um equilíbrio entre fazer os devidos reparos ao STF e reconhecer o resultado do processo eleitoral.
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Comentários (1)
Joaquim Duran
2026-10-26 13:31:30Bolsonaro sendo Bolsonaro...