Efeito Trump vai da guerra ao risco dólar
Quando a principal referência de estabilidade mundial passa a operar sem previsibilidade, o sistema não quebra de uma vez
Quando o bufão alaranjado — e cada vez mais inacreditavelmente o comandante em chefe da maior potencial militar do planeta —, Donald Trump, ameaçou varrer da face da Terra a civilização iraniana, ao contrário do que, outrora, causasse verdadeira comoção mundial e pânico generalizado nos mercados globais, praticamente não despertou grande reação internacional.
Não houve alinhamento imediato de aliados — nem de inimigos —, não houve cúpulas emergenciais e clamores de países pelo globo, e nem mesmo a previsível, costumeira, protocolar e inútil reprimenda institucional da ONU resolveu dar as caras.
O dado relevante é esse — ou isso tudo. Quando uma ameaça dessa magnitude é absorvida sem qualquer custo político, para não dizer completamente ignorada, é sinal de que a deterioração da credibilidade dos EUA encontra-se em estágio muito mais que avançado.
Um fio de estabilidade
Os Estados Unidos sustentaram por décadas sua influência global, combinando poderio militar, expansão econômica e cultural, com previsibilidade jurídica e política. Em 1947, o Plano Marshall reorganizou as economias europeias sob a liderança americana. Em 1949, a OTAN consolidou um sistema de segurança coletivo. Tais movimentos combinados asseguraram o início do maior período de paz e prosperidade já experimentado pela humanidade - a despeito de tantas tragédias e bilhões de pobres pelo mundo.
Mesmo decisões controversas, como a invasão do Iraque em 2003 sob George W. Bush, foram apresentadas dentro de um arcabouço institucional mínimo, com justificativas formais e articulação diplomática prévia. O mesmo se viu após os ataques de 11 de setembro de 2001 contra alvos civis em solo americano. Mas o que se observa agora é a perda completa desse enquadramento.
A diplomacia não decorre mais de uma doutrina identificável nem de um processo decisório transparente como de costume. Hoje, um ególatra, narcisista e tresloucado atua como uma espécie de Nero do século XXI.
Quando o chefe de Estado de uma potência nuclear como os Estados Unidos recorre a palavrões gritados em rede social em pleno domingo de Páscoa, e utiliza-se de termos como “extermínio”, ainda que no plano retórico, ele reduz a zero o espaço de previsibilidade que sustentou sua nação e mesmo a ordem internacional nas últimas décadas.
Mundo em reconfiguração
O impacto imediato dessa condução lunática aparece na confiança, ou melhor, na desconfiança. O dólar não se manteve como principal moeda global porque é bonito. Desde os acordos de Bretton Woods, existe um pacto global baseado na estabilidade institucional americana. Esse pacto não depende da simpatia do mundo pelo Mickey ou por hambúrguer com batata frita; depende de cálculo estrutural e racional sobre riscos e previsibilidade.
China e União Europeia já ampliaram acordos bilaterais em moedas locais, reduzindo a exposição ao dólar. Bancos centrais diversificaram reservas em outras moedas e ativos como ouro e prata — e até Bitcoin. Não há uma ruptura drástica no modelo de reservas em dólares americanos, mas há um claro deslocamento estratégico. E a cada episódio em que a política externa americana mostra-se guiada por impulsos psicopatas, e não por estratégia de longo prazo, o risco e o custo de se manter essa estrutura de poder do dólar aumenta substancialmente.
A história recente mostra que decisões disruptivas até podem ser absorvidas quando há credibilidade acumulada. Em 1971, Richard Nixon rompeu unilateralmente o vínculo do dólar com o ouro. O sistema sofreu abalos, é verdade, mas permaneceu funcional porque havia confiança no comando político e institucional do país. Hoje, o cenário é distinto. Não há uma ruptura formal, eu repito, mas há um tremendo de um mal estar — constante! — que corrói a base dessa confiança.
À beira do abismo
Um outro efeito relevante ocorre também fora da economia. A banalização das ameaças trumpistas altera o comportamento de outros atores. Vladimir Putin, por exemplo, não precisa reinterpretar normas internacionais quando observa que a principal potência também relativiza seus próprios limites — retórico ou não.
Durante a Crise dos Mísseis de Cuba, em outubro de 1962, John F. Kennedy e Nikita Khrushchev operaram sob máxima tensão nuclear. Ainda assim, a comunicação pública e entre os países foi calibrada para evitar uma escalada fora de controle, que culminaria com o fim da vida. Havia, portanto, consciência de que certas formulações, ainda que verbais, produzem efeitos reais.
Esse tipo de disciplina desapareceu do centro do sistema quando Donald Trump venceu as eleições novamente. Sua retórica irresponsável passou a atender à lógica doméstica, mas sem o necessário filtro externo. O resultado é este ambiente cada vez mais instável, no qual ameaças perdem valor porque se tornam frequentes, e decisões passam a ser interpretadas sob maior incerteza.
Estrada bananeira
Não há evidência de colapso imediato da ordem internacional nem de substituição rápida do dólar. O que existe é um processo de erosão acelerado, que ocorre de forma incremental, acumulando episódios que, isoladamente, até parecem administráveis. Somados, porém, alteram a percepção e o cálculo de risco de governos, investidores e instituições.
Não é à toa o forte declínio do dólar frente às demais moedas. Tampouco o “nem te ligo, farinha de trigo”, dos líderes mundiais acerca do que o doidão diz.
Quando a principal referência de estabilidade mundial passa a operar sem previsibilidade, como se fosse uma biruta de aeroporto sob tormenta tropical, o sistema não quebra de uma vez.
Primeiro, ele se protege e se reconfigura. E, nesse processo, como o custo da incerteza se distribui globalmente, o caminho da estabilidade e do crescimento global passa a ser tortuoso e esburacado, tal qual uma estrada bananeira. Ou brasileira. Tanto faz.
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