Quando a psicologia se torna militância
Sem parâmetros objetivos e universalizáveis, a defesa dos direitos humanos converte-se em seletividade política
Um relatório feito pelos republicanos no Congresso dos Estados Unidos, divulgado no final de outubro, acusa dirigentes da Associação de Psicologia Americana (APA) de tolerar antissemitismo, marginalizar profissionais judeus e permitir que disputas ideológicas contaminem a instituição.
Após os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, a Amena-Psy, associação de psicólogos de origem árabe, do Oriente Médio e do Norte da África, foi consultada sobre a declaração da APA e recomendou retirar a expressão “ataques terroristas”, que não figurou na versão publicada.
Reconhecer o sofrimento dos civis palestinos é indispensável, mas não exige subordinar a descrição de ataques contra civis a conveniências políticas.
Essa entidade, Amena-Psy, tornou-se interlocutora em matéria de antissemitismo, inclusive na revisão da resolução de 2007.
Já o Comitê de Assuntos de Minorias Étnicas teria condicionado seu apoio à criação de uma associação de psicólogos judeus à adoção de medidas relativas à Palestina e ao fortalecimento da própria Amena-Psy.
A assimetria é eloquente: uma organização sem mandato para representar judeus era ouvida sobre antissemitismo, enquanto os psicólogos judeus encontravam resistência para se organizar.
Mais perturbadoras são as mensagens atribuídas à direção. Diante de queixas de psicólogos judeus, uma dirigente da diversidade reagiu com um suspiro de impaciência. Outra dirigente referiu-se aos “judeus tão zangados conosco”, sugerindo que suas denúncias alimentariam o ódio.
Quem acolhe o sofrimento de uma minoria quando a estrutura incumbida de combater preconceitos trata suas reclamações como inconvenientes?
Psicologia decolonial
O relatório dos parlamentares questiona vertentes da chamada "Psicologia decolonial" e um artigo que falou em “psicologias sionistas” sem oferecer, quando instado, referências.
Nem toda crítica ao sionismo ou a Israel é antissemitismo, e perspectivas decoloniais não são, por si sós, suspeitas.
A distinção está no rigor científico e na ética: não converter identidades coletivas em categorias patológicas, preconceitos ideológicos em evidências clínicas ou convicções políticas em premissas terapêuticas.
A nova resolução, de fevereiro de 2026, condena a hostilidade contra judeus e reconhece como antissemitas a responsabilização coletiva por atos de Israel e a presunção de dupla lealdade.
Mas adverte contra a “instrumentalização do antissemitismo” e incorpora a Declaração de Jerusalém, alternativa à definição da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).
Para o relatório, isso enfraqueceu garantias — e o texto foi aprovado sem o aval do grupo de psicólogos judeus convocado a assessorá-lo.
O risco é que a ressalva sirva para desacreditar denúncias. Proteção contra o preconceito e liberdade intelectual não se excluem. Cabe garanti-las, sem converter autoridade científica em alinhamento geopolítico.
A politização da psicologia
O caso americano ilumina o brasileiro. No artigo “A politização da psicologia”, de 30 de outubro, examinei manifestações do Conselho Federal e de conselhos regionais de Psicologia sobre Israel e Palestina que ultrapassaram a defesa humanitária para adotar categorias da militância internacional.
Não se trata de negar aos psicólogos o debate público, mas de distinguir a liberdade política de seus integrantes das competências de órgãos incumbidos de fiscalizar a profissão.
A distinção pesa quando tais entidades recorrem a qualificações como genocídio. No processo movido pela África do Sul, a Corte Internacional de Justiça reconheceu, para fins de medidas provisórias, a plausibilidade de direitos protegidos pela Convenção sobre Genocídio e o risco de prejuízo irreparável.
Não declarou, contudo, que Israel tenha cometido genocídio, nem estabeleceu a intenção específica exigida. O mérito segue pendente. Distinguir cautela de conclusão não é preciosismo jurídico, mas dever de quem fala com autoridade técnica.
Exige-se também coerência. A Cruz Vermelha aponta cerca de 130 conflitos armados em curso. Pretendem os Conselhos pronunciar-se sobre todos?
Se o critério for a repercussão no Brasil, como explicar o silêncio sobre o Hezbollah no Líbano, sobre as práticas ditatoriais e fascistas do Hamas contra a população de Gaza, denunciadas pelos moradores de Gaza, sobre o sofrimento de armênios e sírios — ou sobre a guerra da Rússia na Ucrânia, cuja comunidade no Brasil é expressiva?
Por que um conflito se torna imperativo ético da profissão, e outros, com muito mais vítimas, não?
Sem parâmetros objetivos e universalizáveis, a defesa dos direitos humanos converte-se em seletividade política.
Os dois casos revelam um problema que transcende o Oriente Médio: instituições profissionais comprometem sua legitimidade ao substituir critérios técnicos por preferências ideológicas. Sua credibilidade não se mede pela intensidade de seus posicionamentos políticos, mas pela fidelidade e coerência às suas finalidades legais e estatutárias.
Clarita Maia é consultora legislativa do Senado e doutora em Direito pela Universidade de São Paulo
Instagram: @claritamaia
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