Wassef, hambúrguer e pedido de fuga: a "festa" de pós-derrota de Flávio Bolsonaro
Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, chegou a ligar para pessoas prevendo retorno ao Brasil; o senador foi aconselhado a deixar o Brasil
Estava tudo pronto para uma festa que deveria atravessar a madrugada.
Havia um palco, uma parrilla argentina, hambúrgueres artesanais, uma barraca de cachorro-quente e cerveja suficiente para uma longa noite. Para as mulheres, espumantes brut de vinícolas de Bento Gonçalves, Rio Grande do Sul. Era uma estrutura de festa. O ambiente lembrava mais uma reunião de amigos ante um jogo da seleção brasileira do que uma celebração política de final de segundo turno.
Quase todos vestiam a camisa amarela da seleção. Pablo Marçal fazia as vezes de animador da torcida. Quando Flávio Bolsonaro ultrapassou Lula, às 19h46, com 13,65% das seções apuradas, Marçal puxou o coro:
“Fora, petista, bolivariano...”
Por alguns minutos, aquilo pareceu suficiente.
Eduardo Bolsonaro, que estava nos Estados Unidos, telefonou para amigos reunidos na prévia da festa. A mensagem, segundo relatos de pessoas que estavam no local, era simples: era hora de voltar.
A festa durou 35 minutos.
Lula virou a disputa. A euforia deu lugar à apreensão.
O que até então era uma torcida passou a acompanhar a tela em silêncio. O otimismo deu lugar ao medo. Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, o advogado Frederick Wassef e o deputado federal eleito Lucas Pavanato estavam entre os que tentavam entender o que estava acontecendo.
As pessoas continuavam bebendo. A cerveja, porém, já não tinha o mesmo propósito, nem o mesmo gosto. Cada gole parecia servir menos à comemoração do que à tentativa de atravessar aquela noite. Era um sabor amargo.
A palavra “roubo” começou a circular entre todos.
No QG da campanha, instalado no Lago Sul, uma das regiões mais valorizadas de Brasília, Flávio começou a acompanhar a apuração no principal hall junto aos seus convidados. Passou boa parte da noite de mãos dadas com a mulher, Fernanda.
À medida que a vantagem de Lula aumentava, Flávio segurou o choro. Parecia não acreditar no que via. Os convidados ao redor também não.
Por volta das 20h45, quando a vitória de Lula começava a se tornar uma possibilidade cada vez mais concreta, Flávio deixou a sala principal. Subiu para um espaço reservado com Rogério Marinho (PL-RN), seu coordenador de campanha, Deltan Dallagnol, Pablo Marçal, o deputado e senador eleito José Medeiros (PL-MT) e Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara.
Ficaram isolados por cerca de duas horas.
Era o momento de esfriar a cabeça, mas também de decidir o que fazer a partir dali. Reconhecer a derrota? Questionar o resultado? Judicializar a disputa? Ou aceitar que a campanha havia terminado?
Flávio escolheu o confronto.
Outros, que não participaram da reunião, imaginavam o futuro. Cleitinho, governador eleito em Minas Gerais, temia o pior. Temia ser retaliado por Lula a partir de agora. Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo, idem. Com a cara abatida, tentava amenizar a frustração. “Isso é democracia”, disse ele a amigos.
Quando deixou o isolamento, Flávio ouviu de aliados uma sugestão mais radical: que fosse para os Estados Unidos e não permanecesse no Brasil. Flávio não disse nem sim nem não.
Enquanto isso, a festa continuava — agora sem festa, sem música, sem alegria.
Os mesmos homens que algumas horas antes discutiam a vitória e como seria um eventual governo Flávio passaram a discutir o que aconteceria depois da derrota. Entre eles, começou a circular uma espécie de lista informal de pessoas que, na avaliação dos aliados de Flávio, poderiam ser alvo de investigações ou medidas do Supremo Tribunal Federal.
O próprio Flávio aparecia no topo.
Depois vinham outros nomes, entre eles o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, e influenciadores digitais que haviam passado a campanha atacando o Supremo. Políticos eleitos neste ano, como o senador Deltan Dallagnol, temem agora terem seus mandatos cassados.
Naquela altura, a comida continuava sendo servida.
Havia hambúrgueres. Havia cachorro-quente. Havia cerveja. Havia espumante.
O palco permanecia montado para uma festa que nunca aconteceu.
O que deveria ser uma celebração da vitória terminou como uma espécie de velório político — um velório peculiar, abastecido com comida de festa e bebidas em quantidade.
Talvez não houvesse imagem mais adequada para aquela noite: uma celebração americana, com hambúrgueres e hot dogs, transformada, antes mesmo da madrugada, em um funeral.
Quem perdeu foi Flávio, mas por tudo que se viu na campanha, quem de fato morreu foi a democracia brasileira.
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