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Felca e Os Demônios
Felca. Reprodução/redes sociais
Diários 21.10.2026 11:44 8 minutos de leitura

Felca e Os Demônios

Sob a convicção de agir em nome do bem, indivíduos podem ser arrastados por uma dinâmica coletiva que transforma causas legítimas em pretextos para a perseguição e a crueldade

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Clarita Maia

No ano em que completaria 28 anos, Fiódor Dostoiévski foi preso por integrar o Círculo de Petrashévski, grupo de intelectuais que discutia socialismo, liberdade de imprensa e o fim da servidão. Vivia-se ainda em uma Rússia czarista, convulsionada pela ação de células terroristas e grupos de insurreição social. Após um simulacro de fuzilamento, Dostoiévski teve a pena comutada em quatro trabalhos forçados na Sibéria e anos de serviço militar obrigatório.

A experiência inspirou alguns de seus mais notáveis livros, mas, sobretudo, mudou o autor: o antigo simpatizante socialista tornou-se crítico do radicalismo revolucionário, do materialismo e das ideologias impostas pela violência. Essa ironia histórica encontra sua expressão mais contundente em Os Demônios (1872).

Aos 28 anos, o influenciador Felca viu-se submetido a uma espécie de tribunal moral das redes sociais, não pelo que efetivamente disse ou fez, tampouco por uma suposta recusa em se pronunciar sobre o que quer que seja, mas por ter escolhido abordar precisamente um tema consabidamente sob seu escopo de interesse no Dia de Combate ao Bullying.

Sua escolha por um recorte temático específico foi interpretada como omissão política e, por conseguinte, elevada à condição de falta moral imperdoável.

Os ataques que se seguiram revelaram perturbadora indiferença ao risco, concreto e potencialmente trágico, de que alguém marcado por experiências traumáticas, ao ser novamente submetido à violência psicológica, possa ser levado ao desespero e, em circunstâncias extremas, dê cabo à própria vida. Somente um mês após o Setembro Amarelo.

Legião é o meu nome porque somos muitos

Os Demônios é um romance que foi inspirado em um crime real. Em novembro de 1869, em Moscou, o revolucionário Serguei Netchaiev organizou o assassinato do estudante Ivan Ivanov, membro de seu próprio círculo que entrara em conflito com o grupo.

Netchaiev, cujas ideias parecem derivar do Catecismo do Revolucionário (de autoria debatida, mas associada a Bakunin, líder anarquista), defendia a manipulação, a violência e a eliminação de dissidentes como meios legítimos.

Ele foi o inspirador da personagem Piotr Verkhoviénski, líder de uma organização secreta fundada na obediência e na intimidação. Stepan Trofímovitch, pai de Piotr, é o liberal da geração de 1840, a geração do próprio Dostoiévski. O romance é, assim, um acerto de contas do autor com o seu passado e a projeção de como a conivência de sua geração gestou monstros.

O pano de fundo é a Rússia dos anos 1860: a emancipação dos servos não resolvera as desigualdades, e uma geração radicalizada contestava religião, autoridade e moral.

Dostoiévski via ali uma crise não só política, mas espiritual. O autor russo denunciava os abusos do regime, mas também a superficialidade e o oportunismo das elites revolucionárias.

A estratégia do personagem Piotr Verkhoviénski é semear conflitos, desacreditar instituições e espalhar o caos, pois a revolução, para ele, depende menos de convencimento racional do que da desagregação moral da sociedade.

O clímax da obra é o assassinato de Ivan Chátov, ex-integrante que se afastara das ideias do grupo. Piotr o organiza não só para eliminar um possível delator, mas para amarrar os demais conspiradores pela culpa e pelo medo.

A violência torna-se cimento organizacional e a fidelidade ideológica passa a valer mais que os laços humanos.

O título original, Besy, remete aos espíritos malignos da tradição cristã, citados pelos autores de três dos quatro evangelhos do Novo Testamento: Marcos, Lucas e Mateus. A epígrafe, de Marcos, narra os demônios expulsos de um homem e lançados a uma manada de porcos que se precipita no abismo: imagem da possessão ideológica.

Os demônios não são os revolucionários em si, mas as forças que os movem e deles se servem: a vaidade, o ressentimento, o niilismo e a ambição de poder. Afinal, diz o velho adágio, o caminho para o inferno é pavimentado de boas intenções, sobretudo quando a promessa de redenção coletiva se converte em justificativa para a destruição.

Nascido como sátira política, o projeto virou um romance filosófico. Sua pergunta central é se uma sociedade preserva a liberdade quando a certeza de possuir a verdade absoluta dispensa seus membros de respeitar a consciência alheia.

O caso Felca

Em agosto de 2025, Felca (Felipe Bressanim Pereira) publicou o vídeo "Adultização".

Nele, denunciava influenciadores que expõem crianças e adolescentes e mostrava como o algoritmo entrega esse conteúdo a pedófilos.

O alvo principal era Hytalo Santos. O vídeo uniu direita e esquerda no Congresso e acelerou o ECA Digital, que depois foi regulamentado. Felca recebeu ameaças, e um homem chegou a ser preso por isso.

Em fevereiro de 2026, o Tribunal de Justiça da Paraíba condenou Hytalo a 11 anos e 4 meses e o marido dele, Israel Vicente, a 8 anos e 10 meses, por exploração de conteúdo pornográfico com adolescentes.

Após cerca de sete meses afastado das redes sociais, Felca retornou, em 20 de outubro, com um vídeo sobre fobia social, bullying na adolescência e abuso de álcool, sem qualquer referência às eleições.

Parte do público, que aguardava uma manifestação contra Flávio Bolsonaro, reagiu com frustração, ironia e até agressividade.

A surpresa causa espécie diante da biografia e da trajetória pública do influenciador, que jamais ocultou, como fatos altamente marcantes de sua vida pessoal, os abusos sofridos na infância e na adolescência, fazendo do combate ao bullying uma de suas causas.

A ironia é tão evidente quanto cruel: justamente aqueles que dele esperavam uma postura moralmente exemplar acabaram por reproduzir, contra alguém cuja trajetória pessoal foi profundamente marcada pelo bullying, as mesmas práticas de hostilidade, intimidação e humilhação que ele sempre combateu e que, agora, com renovada razão, voltou a denunciar.

E o fizeram sob o manto de uma pretensa superioridade moral, para a qual a história reservou diferentes nomes e justificativas: missão evangelizadora, missão civilizatória, catecismo revolucionário, cruzada ideológica.

Mudam os vocabulários, as doutrinas e as causas; permanece, contudo, a mesma pretensão paternalista de tutelar a consciência alheia, como se a convicção de possuir a verdade conferisse a alguns o direito de determinar o que os outros devem pensar, dizer ou silenciar.

Sob o pretexto de emancipar, arrogam-se a prerrogativa de constranger. Em nome da justiça, autorizam-se a suspender a empatia, desconsiderar a dignidade individual e instrumentalizar o sofrimento humano.

Assim, convertendo uma causa política em imperativo moral absoluto e a divergência em transgressão irretratável, terminam por reproduzir precisamente as formas de intolerância, coerção e autoritarismo que proclamam combater.

A causa capturada

Em Os Demônios, as ideias deixam de servir à verdade e à justiça social para se converterem em instrumentos de poder nas mãos daqueles que pretendem monopolizar sua interpretação moral.

A exigência de que o influenciador “escolha um lado” reproduz a lógica de Piotr Verkhoviénski, para quem o valor de cada indivíduo se mede exclusivamente por sua utilidade à causa. A autonomia da consciência torna-se suspeita. A neutralidade, uma forma de traição. O silêncio, uma culpa a ser punida.

O contágio moral evoca a narrativa bíblica que inspira Os Demônios, de Dostoiévski.

Os espíritos malignos expulsos de um homem possuído entram na manada de porcos de Gerasa, que, em seguida, se precipita no abismo.

A alegoria encerra uma advertência inquietante. Sob a convicção de agir em nome do bem, indivíduos podem ser arrastados por uma dinâmica coletiva que transforma causas legítimas em pretextos para a perseguição e a crueldade.

Quando isso ocorre, ninguém precisa comandar a manada para que ela avance, por conta própria, em direção ao precipício.

 

Clarita Maia é consultora legislativa do Senado e doutora em Direito pela Universidade de São Paulo

Instagram: @claritamaia

 

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista


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Comentários (1)

DUILIO RIBEIRO BARBOSA

2026-10-21 12:42:33

Texto brilhante! Obrigado.


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