Não tem cartinha que resolva
Jair Bolsonaro pode escrever uma mensagem por semana, mas segue tendo dificuldade em atrair outros partidos, os empresários e as mulheres
A segunda carta enviada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro para impulsionar a pré-candidatura de seu filho Flávio Bolsonaro não muda em nada a disputa presidencial este ano.
Os brasileiros já sabem — desde a primeira carta, divulgada em dezembro — que o pai escolheu seu filho mais velho, preterindo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e a esposa, Michelle Bolsonaro.
Em vez de apoiar nomes com maiores chances de vencer Lula no segundo turno, o patriarca fez a escolha consciente de tentar submeter a direita brasileira ao seu clã.
Não há novidade alguma na carta divulgada por Flávio no sábado, 11, portanto.
Partidos
A carta também não convencerá partidos do Centrão a aderirem à candidatura de Flávio.
"O momento é de arregaçar as mangas, deixarmos de lado as possíveis diferenças, e cada um se empenhar pelo nosso pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento", escreveu Jair Bolsonaro.
Mas seis meses já se passaram desde a primeira carta e nenhum partido do Centrão optou por se juntar a Flávio. O PL segue sozinho.
Os caciques dos partidos não têm visto ganhos em incluir Flávio nos santinhos de seus candidatos, sendo que o senador ainda aparece fraco em um segundo turno contra Lula e se enrolou no escândalo do banco Master.
No final de semana, notícias de que o Republicanos se juntariam ao projeto de Flávio em troca de uma promessa de indicação de Marcos Pereira, presidente da sigla, ao Supremo Tribunal Federal (STF), foram desmentidas por ambos os lados.
"Pelas sondagens iniciais, o presidente Marcos Pereira detectou, preliminarmente, um sentimento de frustração à pré-candidatura de Flávio e uma indicação de preferência pela neutralidade nestas eleições", diz uma nota oficial do Republicanos.
O PSD vai de Ronaldo Caiado e, como vice, Gilberto Kassab.
União e PP, os aliados mais próximos, seguem recalcitrantes.
Mulheres
A nova carta de Jair Bolsonaro também não conseguirá levar Michelle para o mesmo barco de Flávio.
A ex-primeira-dama tem se mantido de fora da campanha do enteado, o que lhe custou diversos ataques do grupo bolsonarista no exterior.
A publicação do vídeo em que ela afirmou ter sido maltratada por Flávio foi uma afronta aos demais membros da família e afugentou eleitoras mulheres.
Na semana passada, a ex-primeira-dama ainda lançou o movimento "Imparáveis" nas redes sociais e manteve sua candidatura ao Senado pelo Distrito Federal.
Empresários
Desde o início do ano, Flávio tem tentado se mostrar mais moderado para os empresários e investidores brasileiros, com visitas constantes à Faria Lima.
Mas não empolgou ninguém.
Os tropeços da família, com declarações equivocadas sobre o Pix e apoio à adoção de sanções americanas contra o Brasil, demonstraram falta de conhecimento da economia e excessiva disposição para contentar o presidente americano Donald Trump.
Jair Bolsonaro pode escrever uma terceira carta. E depois uma quarta.
Pode escrever carta todo mês, toda semana.
Mas ele não tem o poder de alterar esse cenário.
Leia em O Antagonista: Outra carta do pai de Flávio
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