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Edição Semana 408

O choque entre duas emoções no conflito israelo-palestino

Negociações de paz deveriam abordar também as dimensões psicológicas dos conflitos mundiais

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Maristela Basso
4 minutos de leitura 20.02.2026 03:30 comentários 3
O choque entre duas emoções no conflito israelo-palestino
Soldados israelenses em Gaza. Foto: FDI
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O conflito entre israelenses e palestinos é tradicionalmente analisado sob lentes estratégicas: segurança, fronteiras, soberania, terrorismo, ocupação, reconhecimento estatal.

No entanto, uma dimensão frequentemente subestimada ajuda a explicar a persistência do impasse: a arquitetura emocional que sustenta as decisões políticas de ambos os lados.

O filósofo israelense Micah Goodman sugere que o conflito pode ser compreendido como um choque entre duas emoções coletivas estruturantes.

Entre os israelenses, o sentimento predominante é o medo.

Entre os palestinos, a humilhação.

Essa leitura desloca o debate da pura racionalidade estratégica para a esfera da psicologia política.

Medo

O medo israelense não é circunstancial. Ele é constitutivo da identidade estatal.

Está enraizado em uma memória histórica marcada por perseguições e culminando no trauma do Holocausto.

Trata-se de um medo existencial — o temor de que a falha na autoproteção possa significar não apenas derrota política, mas aniquilação.

Na psicologia social, o medo coletivo gera três respostas recorrentes: hipervigilância, ação preventiva e legitimação moral da segurança reforçada.

Políticas de controle territorial, barreiras físicas, inspeções constantes e restrições de circulação são percebidas, nesse contexto, como instrumentos racionais de sobrevivência.

Entretanto, aquilo que para um grupo é mecanismo de autopreservação, para o outro pode ser experiência de desvalorização.

Humilhação

É aqui que emerge a segunda emoção estruturante: a humilhação palestina.

A humilhação não deriva primariamente do medo físico imediato, mas da percepção reiterada de inferiorização, perda de status e negação de dignidade.

Medidas de segurança — ainda que justificáveis sob a lógica do risco — são vividas cotidianamente como sinais de subordinação coletiva.

Reconhecimento

A teoria do reconhecimento de Axel Honneth ajuda a iluminar essa dinâmica.

Para Honneth, conflitos sociais emergem quando indivíduos ou grupos percebem que lhes foi negado reconhecimento nas esferas fundamentais da vida social — respeito jurídico, estima social e integridade moral.

A ausência de reconhecimento gera experiências morais de injustiça que podem se converter em mobilização política.

Nesse sentido, a humilhação não é apenas um sentimento subjetivo; é uma reação moral à percepção de desrespeito institucionalizado.

Espiral emocional

Forma-se, então, uma espiral emocional.

O medo gera políticas de proteção.

As políticas de proteção produzem experiências de humilhação.

A humilhação alimenta ressentimento e radicalização.

A radicalização confirma o medo inicial.

Trata-se de um circuito de retroalimentação que transforma decisões defensivas em catalisadores de instabilidade.

O impasse central pode ser formulado em termos simples e profundos.

Israel busca um acordo que não comprometa sua segurança existencial.

Os palestinos buscam um acordo que não perpetue sua condição de inferiorização.

Ambas as demandas são legítimas. O problema reside na forma como, na prática, a satisfação de uma tende a corroer a outra.

Paz

Negociações tradicionais concentram-se na divisão territorial, na definição de fronteiras e em garantias militares.

Mas raramente incorporam explicitamente a dimensão do reconhecimento simbólico e da segurança psicológica.

Sem tratar essas variáveis, acordos tendem a ser tecnicamente sofisticados e politicamente frágeis.

É nesse ponto que o debate contemporâneo sobre “peace engineering” — a construção deliberada de arranjos institucionais capazes de produzir confiança sustentável — ganha relevância.

A paz não é apenas cessação de hostilidades. É a criação de mecanismos jurídicos e políticos que reduzam o medo de um lado e restaurem o reconhecimento do outro.

Sem segurança, não há estabilidade.

Sem reconhecimento, não há legitimidade.

Enquanto medo e humilhação permanecerem como emoções estruturantes do sistema, qualquer acordo será vulnerável à próxima crise.

O conflito israelo-palestino é, evidentemente, geopolítico. Mas também é um conflito por reconhecimento. E talvez só avance quando for tratado como tal.

Maristela Basso é professora de direito internacional na USP

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista

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Maristela Basso

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Comentários (3)

Carlos Renato Cardoso da Costa

2026-02-24 12:21:13

Some-se a isso décadas de ressentimento, vingança e crimes de ambas as partes e temos uma paz impossível


Márcio Roberto Jorcovix

2026-02-22 10:56:09

Nunca pensei o conflito sobre esta ótica . Se estes dois sentimentos realmente fizerem parte do dia a dia de israelenses e palestinos, o conflito fica Praticamente sem solução. Muito difícil


Avelar Menezes Gomes

2026-02-20 11:33:47

A solução lógica e simples para o conflito, que seria a coexistência dos dois estados, fica bem complicada sob esse prisma.


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Comentários (3)

Carlos Renato Cardoso da Costa

2026-02-24 12:21:13

Some-se a isso décadas de ressentimento, vingança e crimes de ambas as partes e temos uma paz impossível


Márcio Roberto Jorcovix

2026-02-22 10:56:09

Nunca pensei o conflito sobre esta ótica . Se estes dois sentimentos realmente fizerem parte do dia a dia de israelenses e palestinos, o conflito fica Praticamente sem solução. Muito difícil


Avelar Menezes Gomes

2026-02-20 11:33:47

A solução lógica e simples para o conflito, que seria a coexistência dos dois estados, fica bem complicada sob esse prisma.



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