O maior showmício de todos os tempos
Desfile teve cardápio eleitoral completo: mito de origem, resgate emocional, frase de efeito, assinatura de marca, inimigo sugerido e um refrão que funciona como aqueles jingles que grudam na memória
O desfile da Acadêmicos de Niterói (foto) não foi apenas uma homenagem cultural ao Lula. Todos sabemos disso.
Foi a montagem de uma biografia de um agente político ainda no cargo, em ano eleitoral, com escolhas narrativas típicas de promoção.
Cardápio eleitoral completo: mito de origem, resgate emocional, frase de efeito, assinatura de marca, inimigo sugerido e um refrão que funciona como aqueles jingles que grudam na memória.
A complexa e planejada operação começa pelo enquadramento. A história é contada como uma epopeia, como uma travessia do herói, da pobreza, passando pela superação e chegando no destino.
Aí surge o detalhe que reduz a margem para inocência estética: “treze noites, treze dias”, referência registrada em milhares de vídeos como alusão ao número do partido.
Eu poderia parar por aqui, mas vamos em frente, para quando a letra encosta no comício. O desenho é reconhecível. Hagiografia com DNA de jingle eleitoral.
O primeiro gatilho é o mais antigo e eficiente: “olê, olê, olê, olá, olá, Lula, Lula”. Nome repetido em coro é reativação de memória política de um dos jingles petistas mais famosos.
Depois vem a síntese sentimental: “o amor venceu o medo”, frase que recicla estruturas eleitorais e costura épocas diferentes do petismo numa linha só. Não descreve só um fato, como reproduz um estado emocional.
Em seguida, o inventário de entregas, típico de campanha eleitoral: “comida na mesa”, “filho de pobre virando doutor”. Propaganda em letra simples, pronta para virar recorte.
A blindagem moral entra logo depois, por terceirização ética. Ao puxar autoridade moral para dentro do samba, a mensagem implícita vira esta: criticar o homenageado seria criticar a virtude do Lula.
Por fim, a senha para 2026: expressões como “sem anistia” não são apenas ornamento cultural. Funcionam como um chamado óbvio de polarização, com alvo identificado no debate nacional que será a tônica do ano eleitoral.
Também poderia parar por aqui, pois tudo que ouviremos é que a desculpa é “a arte”.
É sempre assim, mas nem por isso pode passar impune. A defesa padrão é a mesma: “não teve vote em mim, foi só arte”. Ela serve para nota de assessoria de imprensa.
Mas para análise jurídica séria, ela é totalmente insuficiente. O direito eleitoral (pelo que os melhores especialistas me disseram hoje) não se prende ao pedido literal de voto. Ele observa contexto, alcance, repetição, efeitos e vínculo com o beneficiário.
E aqui está o ponto que muito petista finge não entender: o TSE não deu salvo conduto.
Ao recusar proibição prévia, o tribunal evita censura e preserva a regra geral. Mas isso não convalida excesso. A própria advertência pública sobre “areia movediça” aponta a teleologia do sistema: tolera-se a manifestação, apura-se o abuso.
Do camarote para a pista: o beneficiário virou parte da cena. Essa é a verdade.
O risco jurídico se agrava muito quando o beneficiário deixa de ser tema e passa a interagir com o ato. Há registro de que o presidente esteve presente e que desceu para cumprimentar componentes na pista.
Isso altera totalmente a natureza do evento, porque aproxima homenagem de promoção pessoal com participação direta do agente público, ainda que sob pretexto cultural.
Além disso, há o debate sobre dinheiro e estrutura. Houve notícia de repasses públicos ligados ao Carnaval, inclusive com valores citados para a agremiação. Se a defesa insiste no rótulo “cultura”, a acusação deveria mostrar o contrário, como vitrine financiada e de visibilidade massiva.
Não é sobre gostar ou não gostar do homenageado. É sobre tipicidade eleitoral.
Propaganda antecipada surge quando há promoção pessoal com linguagem eleitoral fora da janela permitida, ainda que sem pedido explícito de voto.
Showmício, aqui, é analogia de efeito. Não no sentido técnico de contratação de artista em campanha, mas no sentido probatório. Um evento de massa, com estética de espetáculo, usado para gerar adesão emocional e vantagem política.
E a hipótese mais grave dita por muitos e que deve ser apurada: o abuso de poder político e econômico, quando o conjunto desequilibra o jogo pelo peso do cargo, pelo alcance, pela estrutura e por eventual emprego de recursos e alianças estatais.
A régua do TSE em outros casos:
1) Franklin Roberto de Lima Sousa
Caso associado a discussão sobre evento de massa, estrutura de palco, som, telão, divulgação e distribuição de material, com debate em AIJE e AIME sobre abuso e uso indevido dos meios, com consequências potencialmente severas no caso concreto. A lógica resumida na própria jurisprudência é simples: grandiosidade, difusão e efeitos importam.
2) Anísio Abraão David
Figura historicamente vinculada ao patronato de escola de samba e a redes de poder local. A literatura e o registro público sobre Carnaval e influência política ajudam a lembrar o óbvio: capital simbólico de agremiação pode operar como ativo político. Nem toda cultura é neutra quando vira máquina de prestígio.
3) Amazonino Mendes
Há controvérsias eleitorais recorrentes sobre atos e eventos com potencial de autopromoção em período sensível, além do tema constante de publicidade institucional em ano eleitoral. O ponto comum é este: não é preciso “pedir voto” para nascer problema. O problema nasce quando a cena pública vira instrumento de vantagem.
4) Washington Quaquá
Exemplo do próprio campo governista em debates sobre Carnaval, financiamento, exposição e promoção. Ilustra como o Carnaval vira território jurídico quando a linha entre fomento cultural e propaganda se embaralha.
5) Bolsonaro e a reunião com embaixadores
O TSE aplicou inelegibilidade por abuso ao avaliar uso de estrutura institucional, transmissão e conteúdo político, com foco em contexto, efeito e peso do cargo. É precedente didático porque explicita a lógica. O tribunal olha para o conjunto, não para a justificativa.
A discussão jurídica aqui não é birra, repito.
Se a Justiça Eleitoral pune quando há estrutura, massa, narrativa, vantagem e participação ativa do beneficiário, então um Carnaval com biografia laudatória, símbolos, refrões de memória eleitoral e presença do presidente em cena não pode ser tratado como coincidência poética.
Se tudo isso virar “só arte” por decreto retórico, a mensagem institucional fica cristalina: a regra existe, mas não alcança alguns.
E aí o debate deixa de ser sobre Carnaval.
Passa a ser sobre a função real do TSE.
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Comentários (1)
Clayton de Souza Pontes
2026-02-17 10:22:22Para o cidadão comum fica claro o uso de dinheiro público na promoção pessoal de agente interessado em se promover. Tem a escolha da escola, que ganhou recursos mas optou pelo tema mais controverso e menos poético, para a democracia funcional. Espero que o TSE não deixe barato