A queda do narcoditador bolivariano
Vácuo deixado por décadas de autoritarismo chavista exige prudência rigorosa e olhar diplomático atento às complexas incertezas da transição
O início de 2026 reserva à Venezuela e ao cenário hemisférico um ponto de inflexão decisivo, marcado pelo encerramento de um dos capítulos mais tristes da história contemporânea da região.
A queda de Nicolás Maduro e sua subsequente transferência sob custódia para Nova York simbolizam o colapso de um sistema que exauriu as bases do Estado, transformando instituições em veículos de interesses escusos em simbiose com o crime transnacional.
No entanto, o vácuo deixado por décadas de autoritarismo chavista exige, neste momento, uma prudência rigorosa e um olhar diplomático atento às complexas incertezas da transição.
Cautela absoluta
É um período que demanda cautela absoluta na condução da estabilidade interna e na recuperação de uma indústria petrolífera dilapidada por quase trinta anos de uma gestão que priorizou a repressão, o saque sistemático e a parceria com o crime organizado em detrimento do patrimônio nacional.
A realidade atual valida as denúncias persistentes de lideranças como María Corina Machado, que há muito advertiam: o petróleo venezuelano já havia sido, na prática, privatizado em benefício das máfias no poder e de nações estrangeiras.
O mito da "estatização soberana" ruiu diante das evidências de que a PDVSA fora convertida em uma lavanderia de narco-petróleo, entregue a operadores obscuros e aliados geopolíticos revisionistas.
Transferência clandestina de ativos
Sob o manto da Lei Antibloqueio, o regime operou a transferência clandestina de ativos para figuras como Alex Saab e conglomerados desprovidos de expertise técnica, como o Consórcio Petroluxe e a Tridente Servicios Petroleros — firmas constituídas apenas meses antes de receberem contratos vultuosos.
A teia estendeu-se a empresas de fachada ligadas aos governos do Irã, China e Rússia, incluindo a Sinohydro Corporation e as obscuras Anhui Guangda e Beijing Huasheng Rongcheng — cujo objeto social original, ironicamente, remetia ao processamento de dados e não à exploração de hidrocarbonetos.
Similarmente, a entidade turca Kase Finansal, de natureza estritamente financeira, foi transmutada em operadora petrolífera, evidenciando que a prioridade do regime residia na engenharia financeira para a movimentação de capitais ilícitos, desprezando a competência técnica necessária à sobrevivência da indústria.
Domínio de Pequim, Teerã e Moscou
Diante disso, torna-se claro que o petróleo venezuelano já estava sob o domínio de Pequim, Teerã e Moscou — justamente os atores que hoje se opõem à queda do ditador sob o pretexto da legalidade.
Mais do que parceiros comerciais, esses países, ao lado de Maduro, praticaram a desidratação criminosa de um patrimônio nacional para financiar aparatos de repressão local e suas próprias máquinas de guerra, seja para fustigar a Ucrânia e Israel ou ameaçar a existência de Taiwan.
Esta pilhagem levou a indústria petrolífera venezuelana a operar em níveis alarmantes, produzindo significativamente abaixo de 30% de sua capacidade histórica.
Este déficit, superior a 70%, é o resultado direto de décadas de negligência e corrupção, exigindo agora o aporte tecnológico e a transparência que apenas os Estados Unidos e o mercado global legítimo podem oferecer para reerguer este setor vital.
Resgate ético
Esta reconstrução operacional, embora imperativa e urgente, é indissociável de um resgate ético fundamental. A recuperação das infraestruturas físicas carece de sentido sem a restauração das bases da civilidade.
O país emerge hoje de um vácuo de soberania provocado por anos de domínio do narcotráfico, o que prova que não há soberania legítima a ser discutida quando o próprio Estado utiliza seu poder para submeter o povo a uma ditadura brutal.
É inadmissível reconhecer a inviolabilidade das fronteiras de um tirano que converteu o território nacional em um santuário para a tortura e o crime organizado.
Invocar o Direito Internacional para proteger um déspota significa situar os direitos humanos em um patamar inferior ao formalismo jurídico, quando, na verdade, a dignidade humana deve se sobrepor a qualquer regra de conveniência política.
O argumento de defesa de Maduro sob o manto da legalidade internacional está, portanto, situado em um absoluto vácuo moral.
Silêncio durante anos
Ademais, aqueles que hoje evocam o princípio da não-ingerência silenciaram durante anos enquanto o regime institucionalizava o terror nos porões do SEBIN e da DGCIM.
A intervenção liderada pelos Estados Unidos não deve ser vista como uma afronta jurídica, mas como um ato de responsabilidade internacional necessário para desmantelar um Estado-narcomafioso que ameaçava a segurança hemisférica.
Trata-se de uma responsabilidade negligenciada por nações com assento no Conselho de Segurança da ONU, que preferiram ser coniventes com a pilhagem promovida por Maduro em troca de dividendos geopolíticos, deixando o país em ruínas.
Primeiro passo
Contudo, arrancar Maduro do poder é apenas o primeiro passo de uma jornada de complexidade sem precedentes.
Os Estados Unidos enfrentam um desafio hercúleo no processo de reconstrução, pois a estrutura de poder não se limitava à figura do ditador, mas a uma rede sistêmica de controle militar.
Permanecem no território venezuelano centenas de generais profundamente vinculados ao narcotráfico, responsáveis diretos por pilhar o erário e montar esquemas de corrupção que corroeram todas as esferas da administração pública como Vladimir Padrino López, Domingo Hernández Lárez, e Diosdado Cabello entre muitos outros.
É analiticamente impossível recomeçar o país removendo apenas a "cabeça" do regime, pois a sobrevivência de uma futura democracia exige uma limpeza institucional cirúrgica e profunda que atinja as raízes desta narcocorrupção. Sem o desmantelamento desta casta militar que se habituou a operar acima da lei, qualquer tentativa de reconstrução será meramente cosmética.
Em suma, o colapso de Maduro em 2026 encerra uma narcoditadura que sequestrou a PDVSA para fins criminosos. A missão agora é restaurar a ordem e a produção, invalidando o discurso daqueles que institucionalizaram o terror sob falsa proteção internacional. O êxito desta nova era depende da coragem em erradicar as estruturas que ainda infestam as raízes do Estado venezuelano, devolvendo, finalmente, a verdadeira soberania ao seu povo.
Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia
X: @mcoimbra
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Comentários (1)
Clayton De Souza pontes
2026-01-05 07:47:31Não vai ser fácil. A transparência será fundamental para a validação das próximas ações de governo