Crônica estoica: a brevidade da vida
Tatiana Schlossberg tem 35 anos, dois filhos pequenos e uma vida intelectual ativa. E, agora, um horizonte de tempo que se estreita brutalmente diante de si
Em tempos de ruído e de dispersão pandêmica, quando o mundo parece girar em torno de frivolidades em rotação infinita, por vezes uma notícia surge como um golpe seco no coração das aparências.
Foi o caso, recentemente, da revelação feita por Tatiana Schlossberg (foto) – jornalista, ambientalista, neta de John F. Kennedy – ao anunciar ao mundo que tem câncer terminal.
Tatiana tem 35 anos. Dois filhos pequenos. Uma vida intelectual ativa. E, agora, um horizonte de tempo que se estreita brutalmente diante de si.
A notícia é menos uma nota biográfica de um sobrenome famoso e mais um espelho colocado diante de todos nós. A morte, que habita os bastidores da existência, subitamente ocupa o palco e fala com voz alta, clara, inevitável.
Tatiana, ao escrever seu réquiem em tom direto, humano e sem pieguismo, nos obriga a fazer o que os estoicos sempre exigiram: olhar a verdade de frente, sem véus.
“Você é uma alma que carrega um cadáver.” (Epicteto)
Esse tipo de sentença parece, aos ouvidos modernos, um despropósito niilista. Mas o estoico não fala de morte para provocar desespero. Ele fala de morte para produzir lucidez diante do inevitável (de fato, revoltar-se contra o inevitável é coisa vulgar).
Tatiana, ao compartilhar sua condição, não se torna uma personagem trágica, mas um mestre estoico involuntário.
Com sua fragilidade, nos ensina o que tanto esquecemos: que a vida é breve, que o amanhã é ficção, e que só temos o agora (esse instante fugaz) para amar, agir, contemplar e deixar um traço de presença no mundo.
“A vida é como uma peça de teatro: não importa quanto dura, mas o quão bem é representada.” (Sêneca)
Enquanto tantos gastam suas horas com lamentos pueris, ofensas em redes sociais ou ansiedade por confortos efêmeros, Tatiana transforma o escândalo da finitude em gesto público de lucidez e amor.
Ela não esconde a gravidade de sua condição. Tampouco a transforma em espetáculo. Ao contrário, oferece sua história como um chamado à presença: presença diante dos filhos, diante dos que ama, diante de si mesma.
A dor não a silenciou, a dor a fez falar com gravidade e consciência moral.
“Você poderia deixar esta vida agora. Deixe que isso determine o que você pensa, diz e faz.” (Marco Aurélio)
A tradição estoica nunca pediu heroísmo vazio. Pediu dignidade diante daquilo sobre o que não se tem controle.
Não uma coragem teatral, performática, mas a disposição de viver com grandeza aquilo que não podemos evitar.
Tatiana, ao assumir sua condição e sua verdade, encarna, a seu modo, esse ideal.
Ela sabe que não pode mudar o prognóstico. Mas pode escolher como vive esse tempo. E isso é liberdade. Liberdade verdadeira, a liberdade interior que não se curva diante do acaso.
É nesse ponto que os gregos se tornavam maiores que os deuses: sabiam que não controlavam o destino, mas afirmavam, mesmo assim, a excelência da escolha possível.
Sabiam que o corpo se desgasta, os filhos crescem e partem (eventualmente antes mesmo de nós), as obras desmoronam, os amores passam. E, mesmo assim, buscavam agir conforme a razão e a medida justa.
O estoicismo é, em certo sentido, a ética do inevitável... Não do conformismo, mas da liberdade no limite.
“Não busque que os eventos aconteçam como deseja, mas deseje que os eventos aconteçam como eles acontecem. E você terá paz.” (Epicteto)
A serenidade de Tatiana, que escreve como quem se despede sem pressa, mas sem ilusão, oferece à nossa época uma lição que nenhuma autoajuda consegue dar: a de que o sofrimento não é derrota.
Que o tempo curto não impede uma vida plena. Que o corpo em falência não anula a dignidade da alma desperta.
Como bem disse Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz e pensador do sentido: “Quando não podemos mais mudar a situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”.
Com a morte, seremos rapidamente esquecidos. Se soubéssemos o quão rapidamente, talvez calibrássemos de modo diverso os dias que temos no horizonte.
Tatiana não é filósofa. Mas, como Frankl, talvez se aproxime mais da verdade do que muitos professores de filosofia. Sua escrita é testemunho. Sua decisão de não esconder, de não mentir, de não ceder ao desespero, é exemplo.
Ela, neta de aristocracia norte-americana, mãe de dois, torna-se, por isso, irmã de todos nós num exercício honesto de reflexão, pois todos, mais cedo ou mais tarde, estaremos diante da mesma porta.
A diferença é que a maioria de nós adia esse olhar. Tatiana, como os antigos, resolveu não fugir.
Aos que ainda acreditam em maldições familiares, talvez valesse reler Sêneca:
“Tudo o que nasce está destinado a morrer. Tudo o que floresce está destinado a murchar. Não é punição. É lei.”
A família Kennedy, com suas tragédias sucessivas, não é amaldiçoada: é apenas um retrato ampliado daquilo que todos vivemos, vale dizer, a vulnerabilidade constante sob o verniz da civilização.
Não há castigo em morrer jovem. Há acaso, biologia, genética, limites e, se quisermos, há também magnanimidade, grandeza possível no modo como partimos.
Por isso, ao ler Tatiana, não se lamente por ela. Chore por si. Pela vida que adia. Pelo gesto que não faz. Pela palavra que não diz. Pelo amor que posterga. Pela coragem que espera.
Pois a morte, que agora visita uma neta de presidente, não faz distinção de sobrenome. Todos estamos convocados a morrer. A pergunta é: estaremos prontos a viver?
“Não vivemos uma vida curta, mas desperdiçamos grande parte dela.” (Sêneca)
Que o exemplo de Tatiana não se torne mais uma nota de rodapé no noticiário. Que se transforme, em cada um de nós, em ato de vigília.
Que desperte o filósofo adormecido, o amigo negligente, o pai ausente, a alma adiada.
Que nos convoque, como Sócrates no último suspiro, a cuidar da alma, pois disso depende tudo o que somos... Enquanto ainda podemos ser.
Dennys Xavier é escritor, tradutor e PhD em Filosofia
Instagram: prof.dennysxavier
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Comentários (10)
Clayton De Souza pontes
2025-12-04 11:28:14Inspirador
Annie
2025-11-29 23:08:29Excelente.
Maria Das Gracas De Souza Mayrink
2025-11-29 19:53:59Dennys abordou um tema espinhoso com leveza, ternura e talento. Parabéns!
Carlos Renato Cardoso Da Costa
2025-11-29 13:27:29É muito curioso que a mesma filosofia existe no budismo: a inevitabilidade da morte e a indiferença do universo perante nós nunca a ser visto como tragédia. Duas filosofias irmãs mesmo separadas por um continente de distância
Lilian Ermida
2025-11-29 11:47:42Texto excelente! Eu, que perdi meu marido há 5anos, tenho esses pensamentos não na minha cabeça, mas no meu coração. Tudo é efêmero e temos que procurar viver da melhor forma possível.
Orestillo Meliani Simone
2025-11-29 10:58:58Excelente
Sandra
2025-11-28 16:21:46Só temos o Aqui e Agora. Que possamos vivê-lo com alegria, sabedoria, serenidade e coragem!
Eliane ☆
2025-11-28 15:59:51A única certeza da vida é a morte. Quem não conhece essa frase?
Eliane ☆
2025-11-28 15:52:43Fico pensando se gostaria de saber o quanto tenho de tempo de vida. Será que eu conseguiria aproveitar ao máximo, ou ficaria paranoica? Não saberia aproveitar o tempo,que passa rápido, voando. Aproveitar bem a vida é também ler bons livros, de bons autores(Dennys Xavier,Duda Teixeira). Eu não canso de dizer, os artigos do Dennys Xavier são maravilhosos; sempre me fazendo refletir sobre os assuntos abordados. Filosofar é tudo de bom.
Márcia Franco Neuding
2025-11-28 15:40:10Parabéns Dennys Xavier pelo texto sensível e provocativo com uma reflexão clara e oportuna. Agradeço a Crusoé pelo excelente quadro de articulistas que nos brindam textos dessa qualidade nas 6as feiras, sempre aguardadas com boas expectativas.