O agente secreto da banalidade
Filme de Kleber Mendonça Filho é thriller que não consegue produzir um acúmulo de tensão, abusa do binarismo e gera apenas tédio
Fui assistir com grande curiosidade a O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, na competição oficial aqui no Festival de Cannes.
Consegui uma sessão às 22h30 no Cinéma Olympia de Cannes, e cheguei muito contente em ver a reconstituição da minha cidade nos anos 1970 – uma época que não foi bem representada no cinema, uma vez que a cidade ficou décadas sem a produção de longas-metragens de ficção.
Fiquei feliz ainda com a coincidência: o cinema tem o mesmo nome do cinema do meu bisavô, Orlando Teófilo, que existiu no bairro do Arruda no Recife nos anos 1960 e tinha quase mil lugares.
A primeira cena já apresenta vários dos defeitos do filme: é extensa demais, a coloração é estranha e forçada, e o contraste entre atores e não atores é muito grande, o que prejudica o realismo da história.
A primeira cena parece um vídeo de Porta dos Fundos, aquele estilo de humor cotidiano com estranhamento, e a imagem colabora nesse sentido: é excessivamente clara, até estourada (esse povo não sabe mais fotometrar um plano?).
A diferença é que no filme O Agente Secreto a cena muito longa, o que não aconteceria em um vídeo para o Youtube.
Marcelo (Wagner Moura) chega ao Recife aparentemente fugindo, não sabemos ainda de quê, e é Carnaval. Uma série de estranhamentos vão acontecer por causa dessa situação.
O problema é que esses estranhamentos são todos semelhantes, o que produz tédio, e não medo.
Por exemplo: a La Ursa aparece diversas vezes assombrando o personagem, só que ela não tem nada de assustadora – é só uma fantasia de Carnaval.
Nem o filme consegue nos convencer que ela é sinistra.
O filme é baseado numa premissa interessante: o brasileiro, e mais especificamente o pernambucano, esse povo festeiro que faz Carnaval, é na verdade um povo extremamente violento, e até sádico.
Nesse sentido, O Agente Secreto é muito superior a Bacurau. Ao menos o enredo se sustenta um pouco mais.
Mas ser melhor que Bacurau é fácil, trata-se de um dos piores filmes que o cinema brasileiro legou à humanidade, junto com Nosso Lar, de Wagner Assis, e Deserto Feliz, de Paulo Caldas.
O problema é que esse thriller não consegue produzir um acúmulo de tensão. O motivo é que Kleber recorre sempre à banalidade – os planos e cenas são sempre excessivamente longos e cansativos.
Por exemplo: Kleber insere no enredo do filme a história da perna cabeluda, muito conhecida em Pernambuco. No filme, a perna aparece numa barriga de tubarão que está sendo dissecado num laboratório na UFPE.
Em seguida ela vai para o IML, e de lá é levada por capangas e jogada no Rio. Ela volta à vida e vai atacar pessoas no Parque 13 de maio, um lugar onde vários casais e trisais gays estão fazendo sexo ao ar livre.
Essa sequência, além de parecer um curta-metragem feito por um aluno de cinema na faculdade, usa exatamente do mesmo artifício que está repetido à exaustão atualmente: pegar a linguagem de gênero e trazer para questões identitárias (“atuais”) – essa é a formula de Corra, um filme de 2017.
E pior: a cena de terror é interrompida por uma pessoa que a conta para outras, e todo mundo cai na gargalhada.
Não entendo qual é a dificuldade de Kleber em desprender-se da atualidade: ele insere, por exemplo, a história da mãe que deixou o filho da empregada sozinho no elevador e o menino terminou caindo de cima de uma das torres gêmeas do Recife, o que causou grande comoção local.
A história parte de um conflito entre o chefe sulista de uma estatal e o funcionário insubordinado (e pernambucano) que consegue realizar um projeto de sucesso dentro da estatal.
Eles entram em conflito aberto, até físico, o que parece levar à morte da esposa do protagonista (não ficamos sabendo exatamente como), e à fuga deste de volta para o Recife, onde é recebido num prédio de apartamentos com perseguidos pelos militares. Ele ainda não sabe, mas foi jurado de morte.
Lá ele fica escondido e muda de nome. Só que aí tem duas coisas que não fazem sentido: apesar de estar escondido, ele é colocado para trabalhar numa repartição que é aberta ao público; ele não é um agente secreto, só uma pessoa que está fugindo de outra (o título é referência a outro filme?) que aparentemente tem o apoio do Estado.
O antigo chefe encomenda a morte a um matador de São Paulo, que por sua vez contrata um local para fazer o serviço.
Os arranjos de poder locais vão impedir que o crime se realize como programado, de modo que Kleber insere um embate regional (Sudeste versus Nordeste) no contexto da ditadura.
A questão racial é também mencionada, o filme inteiro é concebido a partir de uma série de dualidades (Sudeste vs Nordeste, Estado x indivíduo, brancos x pretos), que é uma visão binária bem típica do diretor pernambucano.
Por fim, até a reconstituição do Recife nos anos setenta deixou e muito a desejar, tive a impressão que ele não conseguiu organizar no filme o caos do centro da cidade – coisa que Walter Salles conseguiu fazer tão bem em Ainda estou aqui.
Minha noite no Cinéma Olympia de Cannes foi uma decepção.
Josias Teófilo é escritor, jornalista e cineasta
Instagram: josiasteofilo
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Comentários (4)
Renata De Paula Xavier Moro
2025-05-26 21:49:01Mas que bagunça esse enredo! Alguém entendeu alguma coisa?
Andre Luis Dos Santos
2025-05-24 16:37:34Go woke, go broke. Obrigado pelo artigo. Certamente não vou dedicar duas horas da minha vida pra ver esse filme.
Marcia Elizabeth Brunetti
2025-05-23 16:20:34Infelizmente não consigo assistir filmes nacionais. Os muito antigos até são interessantes e as comédias muito melhores do que esses atuais, carregados de identitarismo e "lugares de fala" (urgh!). Não se tinham recursos tecnológicos e por isso exigia muito dos artistas, dos produtores, do tema escolhido, além de toda a equipe de filmagem.
Carlos Renato Cardoso Da Costa
2025-05-23 05:31:36Mais uma porcaria do cinema nacional. Para quem se iludiu com Ainda estou aqui podendo ser tábua de salvação, toma aí essa nova pérola!