Mulheres votam mal?
O cérebro delas processa a compaixão de maneira diferente do dos homens
Há um movimento crescente na política brasileira pelo fim do voto feminino.
Algumas falas de influenciadores políticos e até mesmo a defesa do “voto familiar” no Livro Amarelo do partido Missão, do MBL, partem desse fenômeno – e até motivaram uma representação da Bancada Feminina à Procuradoria-Geral da República (PGR).
Essa onda esquizofrênica surgiu como uma resposta às tendências observadas no voto feminino, embora acate uma solução absolutamente insensata e retrógrada.
Menos de um século após a conquista do voto feminino no Brasil – uma extensão basilar da liberdade política de todos os indivíduos –, a internet está sendo inundada por palpites contrários a ele.
Os questionamentos surgiram, principalmente, a partir de uma fala ousada do influenciador Paulo Figueiredo – conhecido por seu apoio à família Bolsonaro: ele disse que “as mulheres votam estatisticamente mal”.
O uso do termo "estatisticamente" por Figueiredo é impreciso. "Votar mal" não é uma categoria mensurável por estatística – é um julgamento de valor sobre o que constitui uma boa decisão política, e esse julgamento varia conforme a ideologia de quem o formula.
O que ele fez foi outra coisa: pegou dados reais sobre padrões de voto e os interpretou à luz de suas próprias convicções políticas, como qualquer pessoa à direita, ao centro ou à esquerda faria com os mesmos números.
O que os dados dizem sobre o voto feminino é que mulheres tendem a apoiar mais gastos em bem-estar social, saúde e auxílio a pobres do que homens.
Na prática, isso significa que mulheres votam, de forma consistente, por um modelo de Estado mais inchado.
Embora seja quase um crime no debate político atual alegar que mulheres e homens são biologicamente diferentes – e, por isso, agem e reagem de maneira diferente –, são precisamente essas diferenças que explicam esses dados.
Os pesquisadores Schlesinger e Heldman publicaram um estudo no Journal of Politics, em que apontam que a resposta emocional da mulher e do homem é diferente diante de problemas sociais, além da percepção sobre a justiça das instituições existentes.
Para além do campo político, os cientistas vêm estudando a possibilidade de o cérebro das mulheres processar a compaixão de maneira diferente dos homens.
E mais: um estudo da Universidade de Haifa observou que ocitocina afeta homens e mulheres de forma diferente em contextos sociais.
A verdade desconfortável é que interpretar dados e dizer que um grupo de pessoas vota mal faz parte da liberdade de expressão individual.
Um indivíduo pode dizer que jovens, homens ou idosos votam mal – e isso será diferente de defender que não possam mais votar.
Eu, pessoalmente, vou além: a maioria dos brasileiros vota mal. Se essa não fosse a realidade, não teríamos quase 100 milhões de pessoas sem acesso à coleta de esgoto ou dependentes do Bolsa Família, sem perspectiva de uma mudança radical desse cenário.
Tudo isso, inevitavelmente, influencia a ideologia política adotada pelas mulheres e as políticas públicas que irão apoiar.
Como uma liberal minarquista que abomina o Estado, os dados interpretados por Paulo Figueiredo me incomodam da mesma maneira – é exatamente por isso que assistir a pessoas defendendo o uso do aparato estatal para suprimir a participação política das mulheres me indigna ainda mais do que qualquer programa social de que eu discorde.
O erro é transformar uma indignação em proposta de retirar direito político, em vez de disputar no debate público.
O mesmo voto que os incomoda é instrumentalizado por políticos que querem crescer o Estado.
Usam exatamente os mesmos dados para renovar seus mandatos, inflar o Estado e apelar para cada vez mais intervenção estatal na vida privada.
As duas tentativas cometem o mesmo erro: tratar a mulher como voto a ser manipulado, não como agente a ser convencido.
A resposta jamais será suprimir a liberdade. É educar, informar e convencer.
Organizações como o Lola Brasil, dedicada a formar lideranças femininas pela liberdade, apostam exatamente nisso: dar às mulheres as ferramentas para chegar às próprias conclusões políticas.
É a boa e velha confiança na capacidade de julgamento individual. No fim, a pergunta nunca foi se mulheres votam bem ou mal. Foi se alguém tem o direito de decidir isso por elas. E a resposta é direta e uma só: não. Eles não têm.
Letícia Barros é advogada, empreendedora e presidente do Lola Brasil
Linkedin: Letícia Barros
Instagram: @leticiabbarros
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Comentários (3)
Rosa
2026-07-26 11:12:27É uma barbaridade absoluta sequer estarmos discutindo isso aí. "Que país é esse " cada vez mais esta frase da música .
sandra.nexus
2026-07-24 17:58:41Já vou perguntar pra uma amiga, que faz parte da Missão, me explicar que história é essa. Espero que seja um mal entendido.
Avelar Menezes Gomes
2026-07-24 11:10:10O MBL embarcou nessa canoa furada? Ainda não tive acesso ao tal Livro Amarelo mas essa informação é desanimadora