Mario De Fina /Fotoarena/FolhapressO presidente da Argentina, Alberto Fernández (à esq), e o vice-presidente, Hamilton Mourão selam o armistício

Hermanos necessários

Por que o Brasil precisa manter os laços com a Argentina, apesar das diferenças ideológicas entre os governos
13.12.19

Foi de surpresa, na tarde da segunda-feira, 9, que o vice-presidente, Hamilton Mourão,  tomou conhecimento de que seria ele o representante do governo brasileiro na posse do presidente argentino Alberto Fernández, marcada para o dia seguinte. Desde que Jair Bolsonaro negou-se a ir ao evento, a decisão sobre quem representaria o país gerou muita discussão nos corredores do Palácio do Planalto, Congresso e Itamaraty. O ministro da Cidadania, Osmar Terra, e o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Sérgio Danese, estavam cotados para participar da cerimônia, até que o nome de Mourão se impôs.

A tensão entre os dois países rapidamente se dissipou quando os argentinos gentilmente acolheram Mourão. Fernández fez, inclusive, uma menção especial ao Brasil em seu discurso no Congresso. Sinal de que as arestas haviam sido aparadas. “Com o Brasil, particularmente, temos de construir uma agenda ambiciosa, inovadora e criativa, respaldada pela irmandade histórica de nossos povos, que vai muito além de qualquer diferença pessoal dos que governam na atual conjuntura”, disse o presidente. Em seguida, o futuro embaixador argentino no Brasil, Daniel Scioli, tirou uma foto com o vice-presidente no Congresso, dizendo que Mourão tinha se mostrado gratificado pela referência ao Brasil e se comprometido a transmitir a sua satisfação ao presidente Jair Bolsonaro. Na noite da quarta-feira, 11, Bolsonaro convidou Alberto Fernández para uma visita.

De fato, Brasil e Argentina compartilham um passado e um futuro comum que, pela visão diplomática, não deveria dar motivos para rancores. “A relação bilateral é de uma naturalidade absoluta. Não temos nenhum contencioso. Não há problemas de fronteiras nem de imigração. Há duzentos anos, esses países importam um do outro”, diz Marcos Azambuja, que, nos anos 90, por seis anos foi embaixador em Buenos Aires. “O difícil é explicar como, às vezes, surgem esses disparates. Essas brigas vão contra a história, a geografia, a economia, o comércio.” Nos últimos tempos, no entanto, atritos políticos têm aparecido com frequência. “A relação bilateral vem degringolando há anos. Durante o governo de Lula, Néstor e Cristina Kirchner montaram uma aliança com o venezuelano Hugo Chávez para diluir a influência do Brasil na região”, diz Matias Spektor, professor da Fundação Getúlio Vargas.

Roberto Stuckert Filho/PRRoberto Stuckert Filho/PRCristina Kirchner e Dilma Rousseff, em 2011: disputas protecionistas
Tanto Lula como a sua sucessora, Dilma Rousseff, enfrentaram seguidos problemas com medidas protecionistas do governo de Cristina Kirchner, que tentou barrar a importação de produtos brasileiros. Com a posse de Mauricio Macri, no final de 2015, e de Michel Temer, no ano seguinte, surgiu certo entusiasmo. Mas Temer, com uma aprovação popular de 3%, teve muito pouco tempo para se dedicar à diplomacia. Irritado com a apatia, Macri chegou a vazar, em 2017, uma carta de seu governo cobrando mais atuação do governo brasileiro.

Após a eleição de 2018, Jair Bolsonaro disse que sua primeira viagem oficial internacional não seria para a Argentina, como de praxe, mas para o Chile ou para os Estados Unidos. Macri, como resposta, não compareceu à posse em Brasília no dia 1º de janeiro. Preferiu aproveitar as férias com a família na Patagônia. Os dois só se encontrariam no dia 16, quando Macri voou para Brasília.

Aos poucos, Bolsonaro e Macri ficaram mais próximos. Os dois se uniram no Grupo de Lima para condenar a ditadura de Nicolás Maduro, na Venezuela, e buscar uma solução para a crise em Caracas. Outro aspecto que cimentou a relação foi a postura mais aberta para o comércio internacional. Com Bolsonaro e Macri, o Mercosul deixou de lado o protecionismo e avançou em negociações comerciais. Fechou um acordo com a União Europeia e a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), que inclui Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein.

Alan Santos/PRAlan Santos/PRBolsonaro e Macri em janeiro: críticas à Venezuela e abertura comercial
Ao longo da campanha presidencial na Argentina, Bolsonaro deixou clara sua preferência por Macri. Atacou Cristina Kirchner e o Foro de São Paulo, do qual o PT é um dos fundadores. Alberto Fernández usou o mesmo expediente para animar seu eleitorado de esquerda. Visitou Lula na prisão em Curitiba e pediu sua libertação. “Entre os eleitores de Fernández, que são mais próximos do venezuelano Nicolás Maduro, do equatoriano Rafael Correa e de Lula, há uma enorme rejeição a Bolsonaro”, diz o argentino Orlando D’Adamo, diretor do Centro de Opinião Pública (Copub) da Universidade de Belgrano. A verdade, contudo, é que, apesar das diferenças ideológicas, a relação bilateral continuará sendo fundamental. O Brasil é o maior parceiro comercial da Argentina, que importa principalmente produtos industrializados. A Argentina é o terceiro maior parceiro do Brasil. Este ano, o PIB do país vizinho deve cair 3%, o que deverá impactar no corte de meio ponto do PIB brasileiro. As exportações de carros, caminhões e tratores para a Argentina caíram para a metade no último ano, segundo a Anfavea.

Na política, tudo dependerá se Bolsonaro e Fernández voltarão a usar um ao outro para se cacifar internamente. A menção especial de Fernández ao Brasil em seu discurso de posse e o convite de Bolsonaro ao argentino mostram que, por ora, eles não pensam nisso. “Fernández deu sinais claros de que vai assumir uma postura presidencial. Sua vice, Cristina Kirchner, pode continuar falando de Lula, mas isso terá muito menos impacto”, diz o cientista político Mathias Alencastro, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Não se pode perder de vista, contudo, que mesmo o menor aceno de Fernández ao ditador Maduro ou ao Foro de São Paulo e seus integrantes pode causar tremores. Outro tema delicado é Evo Morales. Nesta quinta-feira, 12, o ex-presidente da Bolívia viajou para a Argentina e pediu refúgio. Ele conta com apoio integral do novo governo da Argentina, que acha que Morales foi vítima de um golpe de estado. Para o governo brasileiro, a história não cola. Ninguém espera que os dois países falem a mesma língua ao abordar tais assuntos, e sim que a ideologia não atrapalhe os negócios.

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